Por que uma panicat careca faz tanto sucesso?

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No último domingo (22/04) à noite, não se falava em outra coisa senão sobre a panicat (dançarina do programa Pânico na Band) Babi Rossi, que raspou seu cabelo em uma transmissão ao vivo em rede nacional. O motivo do corte radical foi um desafio lançado por Emilio Surita, apresentador do programa, com a desculpa de que suas assistentes de palco deveriam demonstrar mais atitude. O apresentador utilizou as redes sociais como meio de divulgação da ação e os telespectadores deveriam escolher se a panicat deveria cortar o cabelo igual ao de Marcelo Tas (do CQC) ou do jogador Neymar. Após votação no Twitter, site popular de compartilhamento de informações, com as hashtags #carequinhadotas e #cabelinhodoNeymar, o público decidiu que Babi Rossi deveria raspar o cabelo ao vivo. E assim aconteceu.
Foi fazendo uso das redes sociais que o programa determinou como seria o novo cabelo de sua dançarina e foi por lá que o alvoroço todo aconteceu. Enquanto o programa ainda estava no ar, iniciou-se uma série de protestos. A hashtag #forapanico utilizada no Twitter chegou a ser “Tredind Topics” (termo utilizado para as expressões mais usadas no site), sem contar os diversos comentários e fotos postados no Facebook (site de relacionamentos popular, principalmente entre jovens, o público-alvo do programa). Até eu, que não assisto ao programa (por N motivos, dentre eles a quantidade de coisa inútil televisionada), estava informada em tempo real de todos os passos de Babi.
Hoje, na terça-feira, a agitação nas redes sociais continua. Acabei de ver uma montagem falando “A gente sabe que o país tá na pior quando o corte de cabelo de uma panicat repercute mais do que esquemas descarados de corrupção”. O esquema ali citado é a acusação de corrupção do bicheiro Carlinhos Cachoeira, preso em fevereiro por cometer jogos ilegais, e que fez uso do vínculo com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM, atualmente sem partido) para tentar anular na Justiça a validade da investigação.
Acredito que não se trata de dar mais atenção ao cabelo da panicat ou ao dinheiro público que está sendo desviado, é algo maior que isto. Trata-se de uma educação deficiente que recebemos e não somos capazes de sermos críticos o suficiente para ignorar programas como o “Pânico na TV”. Educação deficiente, resultado do desvio de dinheiro público, que em vez de estar sendo aplicado para uma educação de qualidade, favorece e concede a poucos um bom ensino, e, propositalmente resulta em falta de senso crítico e um consequente consumo dessa mídia ofensiva e de cultura distorcida, o que possibilita também que nos encaixemos na teoria conhecida como Agenda Setting. A teoria afirma que a mídia determina a pauta – em inglês, agenda – para a opinião pública, ao destacar determinados temas e preterir, ofuscar ou ignorar outros tantos.
É cada vez mais nítida a necessidade de melhorias na educação, sendo ela pública ou privada, a implantação da disciplina leitura de mídia e, claro, a regulamentação da mídia. A mídia tal qual conhecida hoje, desregulamentada, acaba deixando o mercado conduzir o sistema, tendo o poder de censurar as notícias sem garantir a integridade do interesse público. Na verdade, o controle social nada tem a ver com censura, pois é a própria sociedade controlando sua mídia. Além do mais, os interesses que envolvem o controle social, ao contrário da censura, são amplos e gerais.
Está mais do que na hora deste tema ser discutido dentro da academia; ninguém ou setor algum pode se omitir, o debate precisa ser levado aprofundadamente. Não há por que deixar os novos profissionais da comunicação serem escravos de uma mídia monopolizada e corporativa. Ao contrário do que muitos pensam, o Brasil não vive uma imprensa livre – quem tem total liberdade são as empresas de mídia, não os jornalistas, que normalmente são presos a linhas editoriais
Por Tayara Wanderley
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Militante, feminista, hiperativa, falante e chata, muito chata. Estudante do 5º período de Relações Públicas e atualmente colaboradora do PETCOM.
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