Os novos formatos dos programas da Globo

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A televisão brasileira é uma concessão pública, ou seja, a Constituição Brasileira de 1988 diz que os serviços de radiodifusão (televisão e rádio) são serviços públicos, emprestados pelo regime de concessão, autorização concedida para o uso, por tempo determinado e sendo necessária renovação de contrato.

Assim como quando nós emprestamos algo a alguém, para que se obtenha uma concessão de radiodifusão é necessário seguir algumas regras, e o não-cumprimento desta regulamentação pode acarretar na quebra de contrato. Lembram quando Hugo Chávez, presidente da Venezuela, fechou um canal de televisão local, o RCTV? Ao contrário do que ouvimos por aqui, que ele é um ditador autoritário e censurou o canal, o que aconteceu foi exatamente isso, o não-cumprimento das regras estabelecidas.

Para que possamos entender melhor como funciona, farei uma analogia. Uma amiga lhe pede seu celular emprestado, você o empresta com a seguinte condição: que ela tenha cuidado. Ao vê-la utilizando o seu aparelho de forma desleixada, como você age? Pede o celular de volta e não empresta mais, acredito. É exatamente assim que funciona, ou ao menos deveria funcionar, uma concessão pública.

Portanto, os programas veiculados nos canais abertos (Globo, Record, Band, Cultura) seguem, ou deveriam seguir, uma série de conteúdos estipulados e regulamentados pela Constituição. Então, o conteúdo cultural transmitido pela Globo não é porque esta é “legalzinha” e trabalha em prol do desenvolvimento cultural brasileiro, e sim porque cumpre regras para que continue existindo.

CAPÍTULO V DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

(Toda regulamentação disponível aqui)

No entanto, a realidade dos veículos de comunicação é bem diferente da legislação proposta. O não-seguimento da lei é explícito. O excedente número de programas, que ao invés de contribuir com a educação, cultura e informação, deseducam, formam uma cultura unificada, não respeitando a diversidade cultural tão abundante no país e desinformam, é assustador.

Poderia aqui citar infinitos exemplos, mas irei me conter em escrever apenas sobre dois deles: Na Moral e Encontro com Fátima Bernardes, ambos apresentados por jornalistas, Pedro Bial e Fátima Bernardes (como diz o título), respectivamente.

O que mais me chama atenção nesses programas é a sua proposta: fazer uma discussão crítica sobre determinado tema. Entretanto, o que acaba acontecendo é uma conversa superficial, baseada no senso comum, realizada por famosos, platéia, e em algumas exceções, especialistas sobre o tema.

Em momento nenhum desmereço a contribuição de quem seja. Porém, acredito que um programa de televisão, que contribui para a formação de quase toda população brasileira, que influencia diretamente a vida dos telespectadores, e deveria seguir uma regra para sua veiculação, não pode tratar de temas sérios baseados apenas no senso comum (aquele sem estudo científico).

Encontro com Fátima Bernardes se propõe ser um talk-show sobre variedades, o que a meu ver já é um grande erro. O número de assuntos tratados no programa é exagerado, o que só por este motivo já causaria uma superficialidade. Mas o que mais assusta são as pessoas convidadas, em sua maioria, público e artistas globais.

Na Moral, apresentado pelo jornalista Pedro Bial (o mesmo do Big Brother, outro programa que descumpre completamente a função social da tevê), ao contrário do talk-show matinal, propõe um assunto por programa. Em síntese, o programa discute temas polêmicos de forma simples e direta, sem “papas na língua”. Pedro Bial convida especialistas para falarem sobre os dois lados do assunto tratado, e para atrair audiência, um artista, que muitas vezes tem mais vez de fala do que os próprios especialistas. Todavia, o que prevalece ao final de cada programa é a ideia do apresentador, que sabe direcionar muito bem as falas para que apenas uma ideia sobressaia.

É possível observar, portanto, que a Era da Informação, com uma grade variada de programação, apenas nos distrai, fazendo com que absorvamos conteúdos de forma superficial, sem questionamentos, e muito menos, senso crítico, absorvendo sem filtros tudo que nos é apresentado.

Por Tayara Wanderley

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Militante, feminista, hiperativa, falante e chata, muito chata. Estudante do 5º período de Relações Públicas e atualmente colaboradora do PETCOM.
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