Bate-papo com Mirna Feitoza: web, universidade e novo momento do jornalismo – Parte 2

Posted on Posted in Comunicação, Jornalismo, Ufam, Universidade, web

Se na primeira parte do nosso bate-papo, a jornalista e pesquisadora Mirna Feitoza falou sobre a experiência conduzida no LabF5 e novos rumos do jornalismo na web, nesta segunda parte expandimos o assunto e conversamos sobre a condução da disciplina de Webjornalismo no semestre, o ensino do jornalismo e a experimentação da linguagem na web. Acompanhe a seguir o fim desse bate-papo:

Em relação ao ensino, uma coisa interessante da condução da disciplina nesse período é que ela foi bem aberta e colaborativa, envolvendo toda a turma. Como foi essa experiência para a senhora?

Na verdade, nós tivemos um plano de aula, fruto de um primeiro momento do curso, mas é interessante que essa disciplina foi uma experiência única: foi uma disciplina ao vivo. Como se tratava de Webjornalismo, e como começou em junho, mês em que se deu o cume das manifestações, promovendo mudanças na agenda política que estava colocada, e, consequentemente, eu precisei rever algumas coisas do curso. Por onde começar um curso de Webjornalismo num momento em que a própria prática do jornalismo na web consegue movimentar e ser parte daquelas grandes manifestações sociais e políticas naquele momento? A cada semana que eu vinha pra aula era um momento não só de falar sobre os conteúdos da disciplina, mas sobretudo refletir sobre aquilo que estava acontecendo e pensar o lugar do webjornalismo dentro de tudo isso. E foi um momento muito importante, porque em vez de começar com a discussão sobre a prática, pensei que precisava começar pondo em perspectiva a globalização. Foi daí que a gente trouxe o Milton Santos, o Octavio Ianni e o Manuel Castells (que já estava previsto desde o início). Essa discussão da globalização não estava prevista, e nós começamos o curso dentro de uma tradição da modernidade, se é que a gente pode chamar assim. Pegamos então um pensamento que já estava colocado dentro das Ciências Sociais, um pensamento crítico em relação ao que nós estamos vivendo, e, a partir daí, desse contexto de sociedade que se dá globalmente, nós iniciamos o curso. Eu penso que isso fez muita diferença pra que hoje a gente esteja experimentando uma reflexão sobre o próprio jornalismo numa escala que se dá socialmente e não simplesmente dentro do próprio jornalismo. A gente vê que o LabF5 traz essa reflexão em torno disso: então estão lá as resenhas sobre o vídeo do Milton Santos, as resenhas sobre o pensamento do Ianni em torno da globalização, o pensamento do Castells sobre a sociedade em rede. Foi esse entorno que nos permitiu discutir o próprio jornalismo, compreender esse ecossistema em que nós estamos vivendo e que, embora se dê globalmente, interfere a todos localmente. Foi um momento em que nós trouxemos essas questões pra dentro do curso e não só presencialmente, mas tínhamos um espaço nosso dentro do próprio Facebook pra fazer isso, que era o grupo Extraclasse, onde eu ia alimentando os alunos com diversas reportagens, entrevistas e artigos científicos em torno de respostas que pudessem nos fazer assimilar e compreender um pouco toda aquela ebulição que nós vivemos no mês de junho e que acabaram repercutindo até hoje.

E os próprios alunos colaboraram também nesse sentido de agregar referências, não é?

Sem dúvida. Foi muito interessante porque os alunos firmaram esse acordo no sentido de caminhar junto. Não sem muita provocação, pois estamos vivendo todas essas possibilidades que estão colocadas dentro do jornalismo e da comunicação na perspectiva de uma sociedade em rede, mas a sala de aula ainda é um espaço seriado, ainda é um espaço que resulta dos padrões colocados pela Revolução Industrial. Nós temos uma carteira atrás da outra, onde os alunos estão sentados e organizados em série e numa perspectiva onde eles são os ouvintes de uma aula, de um professor que fala e que eles escutam de uma forma cada vez mais silenciosa. Mas eles têm nas mãos uma oportunidade de escapar daquilo finalmente e ir para outros lugares. Então, é interessante porque mesmo diante de todas essas possibilidades, onde a sala de aula é a mesma, mas os alunos são outros e o professor também, as relações acabam se reproduzindo dentro desta forma que já está estabelecida. Tirar os alunos dessa passividade, e aí eu não me refiro uma passividade de um espírito crítico, mas sim de um padrão que está estabelecido onde a aula se dá desse jeito, foi por meio de muita provocação também. No fim das contas, os alunos se apropriaram disso indo pra web, e a partir daí nós nos conectamos fora da sala de aula também. A partir disso, a gente pôde desenvolver essas experiências que estão espelhadas no LabF5 e que já ganham um outro momento, porque avançamos para as redes sociais também, disseminando aquilo que está dentro de uma determinada plataforma.

E a senhora pensa em dar continuidade a essa experiência?

Essa é uma pergunta que não só o professor deve responder, mas os próprios alunos. Porque o professor não consegue fazer nada sem eles. A experiência está colocada, e vamos ver qual é a resposta para esta questão. Eu acho que foi uma experiência bem interessante, para dizer o mínimo. Estou bastante satisfeita com os resultados apresentados, ainda que eu veja muita coisa a ser feita, porque agora que a gente começou a experimentar, a sair da reflexão e do conteúdo que nós tivemos para finalmente praticar o jornalismo de uma maneira reflexiva. E isso é uma coisa que a gente não pode perder, porque o tipo de jornalismo que estamos fazendo no LabF5 não é informativo, e sim interpretativo. Todos os textos publicados no LabF5 nascem e se desenvolvem de uma interpretação que os estudantes estão fazendo da sua própria atividade, da sua própria formação. Agora tem muita coisa pra avançar aí. Afinal de contas, como fazer isso em rede? Como se apropriar de fato não só do espaço da web, mas das possibilidades que ela traz? É um desafio muito grande. Acho que a gente começou muito bem, mas vejo que estamos engatinhando diante daquilo que podemos fazer. Mas eu gosto de assumir o processo, e o resultado é fruto de um processo, então ele espelha isso. E, enquanto processo, acho que a gente conseguiu caminhar.

mirna feitoza

Voltando para a questão da reformulação da grade, por exemplo, temos somente uma disciplina para Webjornalismo. Você vê a necessidade de outras disciplinas em que seja possível trabalhar com esse ambiente que está em transformação? Outra coisa que a gente discutiu muito durante as aulas também é que o profissional que trabalha com a web precisa domar outras habilidades importantes. Você acha que esse tipo de conteúdo poderia entrar na grade do curso?

Olha, fazer uma reforma curricular não é coisa simples. E ainda bem que não é uma coisa simples, porque nós vamos precisar discutir não só entre os professores, mas socialmente com os grupos que estão envolvidos e interessados nisso. Primeiramente os próprios alunos, depois os egressos, os jornalistas, os sindicatos envolvidos na atividade, ou seja, todos os grupos envolvidos e interessados na formação do jornalista. Nós vamos chamar audiências públicas para isso e esse será o momento para que tudo isso seja colocado. Já estamos trabalhando há um tempo numa reformulação, e existe uma comissão formada dentro do curso, constituída por mim, pelo professor Allan Rodrigues e pelo professor João Bosco Ferreira. Nós já temos um trabalho que está realizado, mas precisaremos fazer agora uma verticalização em torno das novas diretrizes, para então repensar aquilo que já havíamos feito. Não é um trabalho simples porque envolve todas essas transformações. Não é só cumprir uma determinação que agora vem do MEC, não se trata só disso, se trata de uma diretriz que está colocada num momento em que o jornalismo e  profissão estão em transformação e em que as próprias empresas, que sempre foram o lugar do jornalismo, também estão em transformação. Nós precisamos absorver tudo isso e essa absorção não será uma coisa simples. De fato, estamos num ambiente muito mais complexo, onde todos esses grupos se dão em rede e estão conectados. Logo, a gente vai precisar fazer um trabalho (eu espero que satisfatório) para responder a essas demandas. E eu espero que, no momento que a gente fizer as audiências públicas, os alunos participem, e os grupos interessados nisso venham para discutir conosco todas essas questões. Uma das mudanças fundamentais é que o estágio supervisionado passou a ser obrigatório: o aluno terá que fazer um estágio supervisionado de 200 horas. Isso de certo modo já está colocado, pois muitos de nossos alunos estão no mercado de trabalho em posição de estagiário, mas sem supervisão há muito tempo. Agora, como trazer esses alunos pra dentro da própria universidade? Eu gostaria que os alunos fizessem o estágio deles dentro da própria universidade, em experiências como essa [LabF5], porque aí nós teríamos condições de dar essa continuidade, numa perspectiva em que o aluno, fazendo o estágio, já tenha condições de atuar profissionalmente. Se ele vai pro mercado de trabalho, muitas vezes a oportunidade que ele vai ter é de somente reproduzir padrões que estão estabelecidos. Na universidade ainda há espaço pra lidar com a inovação. Eu espero que a gente possa chegar a soluções como essa.

entrevista mirna feitoza (13)

Como a experimentação do LabF5 (e no webjornalismo em geral) poderia ser melhor desenvolvida? Nós observamos que o conteúdo ainda é guiado em grande parte por textos, e os recursos multimídia acabam apenas sendo agregados a eles. O que você pensa disso?

Essa é a grande questão. Quem tiver a resposta, faz a inovação. É isso que eu falo sobre desenvolver uma atividade consciente. Qual é a consciência que nós devemos ter? Que isso é um desafio. Nós não temos modelos; quem têm modelos é a indústria, que precisa produzir em série para uma massa. Dentro da universidade, pra criar a inovação, precisamos primeiro enxergar os problemas como desafios. Quando a gente levanta uma questão como a que você me pergunta, ela não pode ser uma falsa questão; ela deve ser uma para a qual eu de fato não tenho uma resposta. Buscar uma resposta é que é o desafio? Como eu faço isso? A partir do conhecimento que já está colocado, e da experiência. É assim que a ciência se move. O LabF5 é o lugar da experiência, onde vamos experimentar soluções provisórias (ou seja, hipóteses) para testar respostas para a questão. É isso que é o grande desafio. É isso que a universidade precisa ser capaz de trabalhar na formação de seus alunos, porque é daí que vem a inovação, e aí assim se faz a transferência para o mercado. A relação com as  empresas é super bem-vinda, a partir daquilo que temos a oferecer como resultado, que são as nossas soluções e ideias inovadoras para problemas que estão colocados no mundo. Nós não temos a resposta: nós precisamos encontrá-la, e ter a consciência de que o processo é esse. Esse é o grande barato de estar na universidade; é o que faz ela ser necessária. No dia em que ela não é mais capaz de dar essas respostas, ela perde seu papel social.

Agradecemos a disponibilidade da professora Mirna Feitoza em conceder esta entrevista. Se você acompanhou até aqui, aproveite e não deixe de conferir as produções dos alunos de webjornalismo no LabF5.

Por Gabriel Oliveira e Jéssica Amorim
Fotos de Jéssica Amorim

(Visited 14 times, 2 visits today)
The following two tabs change content below.
Jéssica Amorim
Está tentando a vida no que a vida deixa, e no que não deixa também. Estudante do 7º período de Jornalismo e petiana desde junho de 2011.

Comentários

pessoas comentaram

One thought on “Bate-papo com Mirna Feitoza: web, universidade e novo momento do jornalismo – Parte 2

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *