Consciência de quê?

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No último feriado assisti a um filme que queria ver há muito tempo. Seu nome sempre foi pra mim sinônimo de luta, coragem e determinação, mesmo conhecendo tão superficialmente a história. E assumo isso com certa vergonha, pois esse grande homem não pode ser conhecido de forma superficial. O nome Goodbye Bafana é pouco conhecido no Brasil, talvez por uma estratégia de marketing,  já que o título brasileiro Mandela – A Luta Pela Liberdade chama muito mais atenção e atrai grandes interessados a conhecer a sua história, assim como eu.

Esse, sem dúvida, foi um dos filmes mais emocionantes que já assisti, e, como canta Chico Buarque, “chorei, chorei até ficar com dó de mim” durante todo o filme, e mais ainda no seu fim. Cada frase, cada gesto, cada cena parece se repetir em minha mente, que faz um enorme esforço pra decodificá-las, e tenta incansavelmente entender e aceitar tamanha dor e desrespeito. O sofrimento de tantos homens, mulheres e crianças que nasceram com a pele negra é assustador.

E por hoje ser o Dia da Consciência Negra quis escrever esse texto, para tentar exorcizar todo o sentimento que aquele filme me fez sentir, todo o aperto no peito de um negro que era preso apenas por ser negro. Mas há quem esteja lendo e diga que talvez eu esteja exagerando ou que vivemos em outro lugar, em outro momento. Queria eu que fosse exagero, que tivéssemos superado tanto ódio por uma cor, que a pobreza, a ignorância, a fome, a falta de oportunidades, o desemprego, as cadeias e os bandidos tivessem outra cor em nosso imaginário e principalmente na vida real. E que hoje o Dia da Consciência Negra fosse um dia de comemoração, e não mais um dia de luta por igualdade e respeito.

O Dia da Consciência Negra foi criado em 2003 e é regulamentado pela lei 10.639, que inclui esta data no calendário do país e obriga o ensino sobre diversas áreas da História e Cultura Afro-Brasileira. O dia 20 de novembro foi escolhido por ter sido o dia em que Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra ao regime escravocrata, foi assassinado, em 1695. Tal explicação já seria suficiente para justificar a importância e a necessidade desta data. Mas já que ouvimos por todos os cantos que não há mais preconceito racial, e até que deveria ter o “dia do branco” e do “amarelo” – o que pra mim já demonstra como o preconceito ainda está muito arraigado em nossa sociedade – faz-se necessária uma explicação mais minuciosa sobre o porquê da data.

O idealizador da data, segundo a Biblioteca Virtual do Governo do Estado de São Paulo, foi o pesquisador gaúcho Oliveira Silveira. Oliveira foi um dos fundadores do Grupo Palmares, espaço de discussão sobre políticas públicas e cultura negra no país. Em 1971, ele propôs um dia que comemorasse a tomada de consciência da comunidade negra sobre o seu valor e contribuição ao país. Para ele, o dia de hoje tinha mais força e significado que o 13 de maio, data em que comemoramos a abolição da escravatura, já que tal atitude não significou libertação, muito menos mudança de postura e tratamento aos negros, e sim foi necessária por conta da falência do regime escravocrata. Para Oliveira, o 13 de maio era “traição, liberdade sem asas e fome sem pão”, como escreveu em um de seus poemas.

Hoje, 125 anos depois da abolição da escravatura, 42 anos depois da proposição de Oliveira Silveira, e dez anos após a lei que define o dia de hoje como o Dia da Consciência Negra, o número de negros nas universidades é baixíssimo, os negros são maioria nos presídios e a taxa de pobreza ainda é maior entre os negros. E ainda tem gente que não entende o porquê do Dia da Consciência Negra.

Façamos do dia de hoje um dia de reflexão, de Mandela, de Zumbi, de Oliveira. Um dia de luta, de políticas públicas, de um país democrático, igualitário e de muito respeito.

Por Tayara Wanderley

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Militante, feminista, hiperativa, falante e chata, muito chata. Estudante do 5º período de Relações Públicas e atualmente colaboradora do PETCOM.
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