Jornalismo cidadão: porque a pirâmide invertida não é mais o suficiente

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Práticas do jornalismo cidadão em rede fomentam cada vez mais reflexões sobre a participação do público e o papel do jornalista nesta nova modalidade

A essa altura, já parece clichê falar de junho de 2013, o mês que marcou o Brasil com uma profusão de manifestações país afora. Mas o fato é que, embora não seja o caso de se discutir aqui a eficácia ou não dos protestos (outros já fizeram isso neste mesmo espaço), um dos vários efeitos de toda essa movimentação foi uma intensa participação nas redes sociais. Qualquer que fosse o lugar ou o horário, era possível saber, através da web, o que acontecia nos protestos de todo o país. Fato semelhante já havia ocorrido em outros lugares, claro, como bem pôde se ver no caso da Primavera Árabe, o movimento que se fortaleceu através da rede. Isto porque a população, em ambos os casos, decidiu assumir a função de disseminar suas versões e verdades sobre fatos que considerava importantes, ao contrário de se informar apenas pela cobertura da grande mídia.

Essa é a notícia que se faz junto, que tem fontes em qualquer lugar, em qualquer momento e que se sobrepõe a um modelo específico e cristalizado de se fazer jornalismo. É a isso que chamamos de jornalismo participativo, colaborativo e cidadão, nova modalidade que é feita e veiculada pelo público em diversas mídias, principalmente na internet.

Na tentativa de produzir notícia e fugir dos conteúdos pré-moldados, o jornalismo cidadão ou colaborativo estreita a relação entre quem está do lado de fora das redações e os profissionais que atuam na área. Essa aproximação acontece desde o envio de um vídeo que conta uma realidade não alcançada pela mídia até um simples comentário gerador de grandes mudanças. Sobre isso, o pesquisador em Jornalismo Nelson Traquina, citado por Francisco de Assis e Cidoval Morais de Sousa no artigo “Tão perto, tão distante: os desafios do jornalismo cidadão na mídia impressa”, afirma que

“Nesse contexto, entende-se o jornalismo como um espaço social estruturado, um campo de força, que pressupõe a existência de um número ilimitado de agentes sociais interessados em tornar mais eficientes suas estratégias de comunicação um  prêmio em disputa, ou seja, as notícias; e um grupo de profissionais especializados que reivindica o monopólio de conhecimentos ou saberes específicos, o que o faz  detentor da capacidade de definir o que é e o que não é notícia e dominar os seus  processos de construção.” (TRAQUINA, Nelson. O que é jornalismo. [S.l.]: Quimera, 2002)

A concentração da informação praticada por poucos mas consumida por muitos não permite a circulação de ideias e pontos de vista diferentes, sem pluralidades, que por vezes não representam a diversidade das camadas sociais. Nesse contexto, o jornalismo cidadão tem um papel essencial, como a jornalista, editora de mídias sociais e professora de Comunicação Digital Ana Maria Brambilla bem coloca em seu artigo “A reconfiguração do jornalismo através do modelo open source”:

“Provocar é uma instabilidade em um modelo restritivo, instabilidade esta, que começa pela interação de dois pólos, até então opostos, do processo comunicacional midiático: o jornalista e o leitor/ouvinte/espectador.” (BRAMBILLA, 2005)

Já na radiorreportagem abaixo, os alunos Bruna Fernandes, Gabriel Aguiar e Gabriela Zocchi, do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, discutem o espaço que o jornalismo cidadão tem ganhado e confrontam opiniões de profissionais da área sobre o assunto. Alguns dos entrevistados inclusive põem em xeque a credibilidade da notícia nesse modo de produção, uma vez que a participação do público supostamente implicaria em perda de objetividade jornalística. A reportagem, de apenas quatro minutos, é fruto de um trabalho acadêmico supervisionado por Magaly Prado, jornalista, escritora e doutora em Comunicação e Semiótica. Outros audiocasts estão disponíveis no site da disciplina.

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O exercício do jornalismo cidadão em plataformas alternativas

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Não que as manifestações de junho tenham dado início ao jornalismo colaborativo, pois não é de hoje que a web possibilita um espaço para a fala do cidadão comum que nenhum outro meio havia ousado. Contudo, é necessário destacar a importância da rede no que diz respeito à exposição dos acontecimentos em diferentes plataformas, além de possibilitar ao público um maior leque de opiniões sobre o momento que estava sendo vivido.

Um destaque desta cobertura vai para o Mídia NINJA (sigla para “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”), que durante todo o mês de junho teve intensiva participação na construção das narrativas a respeito das manifestações. Na ocasião, grupos de jovens munidos de aparelhos portáteis registraram e compartilharam o clamor popular, juntamente com o silêncio político instalado no país e os confrontos ocorridos entre manifestantes e forças policiais. A Mídia NINJA chamou a atenção e incomodou, especialmente por conta de sua ligação com a Rede Fora do Eixo (FdE), que, desde a primeira semana de agosto, tem sido alvo de duras críticas através da web. Isso certamente não tira o mérito da proposta colaborativa do grupo. Logo abaixo, você pode assistir o debate que ocorreu no programa Roda Viva, da TV Cultura, realizado no dia 05/08/2013, com a presença de Bruno Torturra e Pablo Capilé, nomes do Mídia NINJA que expuseram a estrutura do grupo e debateram sobre o seu papel dentro do jornalismo atual:

Outro exemplo desses espaços alternativos é a Agência Pública, que, assim como o site colaborativo Overmundo, trabalha o modelo de jornalismo cidadão na produção de conteúdo informativo sem fins lucrativos. Além disso, a plataforma aposta na construção livre, sob licença Creative Commons, expandindo as obras e permitindo a cópia e o compartilhamento sem tantas restrições. Na produção de reportagens que pautam o interesse público, a Agência Pública visa fortalecer a democratização da comunicação em seu princípio mais fundamental: o do direito à informação.

E o papel do jornalista, como fica?

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Com o boom dessas plataformas de produção independente e colaborativa, os “produtores de notícia” se multiplicam pela web. Este é um dado importante que nos leva a questionar, mais uma vez e de forma ainda mais deliberada, afinal, qual é o papel do jornalista? Onde ele pode se inserir sem denegrir ou censurar a produção alheia, exercendo a responsabilidade social que lhe cabe? Nesse universo, é preciso que o jornalista esteja ciente do seu papel mediador facilitador, aliando-se conscientemente à rede e caminhando em busca da interação entre o usuário e a notícia.

Afinal, a possibilidade de se produzir conteúdo sem depender de corporações comunicacionais ou de algum tipo de filtro (como os gatekeepers, que ditam o que deve ou não ser noticiado) tornou o meio digital um instigador de uma pluraridade de opiniões, notícias e ideias nunca vistas em outro mass media. Em virtude disso, essas ramificações midiáticas se tornaram grandes propulsoras de informação e, saindo do anonimato virtual, conseguiram credibilidade e notoriedade entre o público. Contudo, ainda cabe ao jornalista tecer a contextualização da informação na produção da notícia, recorrendo ao passado para projeção do futuro, tendo isso como diferencial diante do público e tornando seu papel ainda mais fundamental.

O estudioso Manuel Castells, ao comentar sobre a profusão das novas tecnologias e a produção de conteúdos nesse novos meios, diz algo que pode ser aplicado à produção do jornalismo cidadão em rede: “essas novas tecnologias não são simplesmente ferramentas a serem desenvolvidas, mas processos a serem desenvolvidos”, afirma o sociólogo em sua famosa obra A Galáxia da Internet. É necessário que o jornalista entenda a importância de seu papel nesse processo de transformação, como mostra didaticamente o pesquisador Yuri Almeida, na apresentação abaixo, intitulada “Jornalismo colaborativo: desafios e oportunidades para os jornalistas em ambientes colaborativos”:

Ainda sobre essa perspectiva, o pesquisador André Lemos, professor associado da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) também dá sua opinião, em reportagem do portal Último Segundo que discute justamente a exponenciação do jornalismo cidadão a partir das manifestações:

“Não acho que devemos pensar em termos de substituições de modelos, mas em uma nova ecologia midiática, no qual processos centralizadores e participativos convivem”, diz o professor.

Feitas todas essas considerações, espera-se que o jornalismo cidadão continue seu pleno desenvolvimento e que, uma vez que a web alcance mais e mais pessoas, elas tenham a oportunidade de assumirem seu papel colaborativo nesse novo modo de fazer jornalístico, realmente ligado ao ideal da democratização da comunicação.

(Reportagem produzida por Anna Batista, Gabriel Oliveira, Jéssica Amorim e Oswaldo Neto, e publicada originalmente no LabF5para a disciplina de Webjornalismo, orientada pela prof.ª Mirna Feitoza.)

Para saber mais, confira algumas referências complementares:

Veja também outras publicações sobre o tema no LabF5:

  • O que é jornalismo cidadão?, de Drielly Canavarro;

  • 11 de setembro: o dia em que o jornalismo cidadão foi notado, de Lívia Anselmo;

  • Jornalismo cidadão ganha espaço com a democratização da internet, de João Luiz Onety, Líbia de Paula e Stephen Ngari.

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Gabriel Oliveira
Incapaz de tirar selfies boas, e muito bom em fingir que sabe de alguma coisa. Finalista do curso de Jornalismo e petiano de agosto de 2011 a abril de 2014.
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