Faces da Amazônia: Com Seus Próprios Olhos

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Na segunda matéria da série Faces da Amazônia, iniciada com o trabalho “Raízes Manauaras”, eu vou mostrar o trabalho produzido pela minha equipe, o ensaio “Com seus próprios olhos”, premiado no Expocom do Intercom Norte 2014, realizado na Universidade Federal do Pará (UFPA). Particularmente, não gosto de trabalhar com temáticas regionalistas. Desde o ensino fundamental, qualquer trabalho que eu faça é voltado para a Amazônia, a preservação da floresta, a importância da floresta e tudo mais. Certo, essa educação básica é muito importante , mas não gostava de ser limitado por uma temática, ainda mais quando a mesma era repetida todos os anos.

O trabalho

Quando começou a disciplina “Comunicação no Amazonas e na Amazônia” no 4° período, inicialmente desanimei, achando que seria novamente mais uma disciplina onde eu seria limitado, mas depois lembrei de minha experiência no Human Connection Project, onde também através de tópicos delimitados conseguimos criar um produto digno de premiação internacional. Tendo esse pensamento positivo em mente, caí de cabeça nesse trabalho.

Como já foi dito na matéria anterior desta série, a turma foi dividida em cinco equipes que deveriam desenvolver produtos diferentes entre si baseados em livros escolhidos pelo Prof. Msc. Allan Rodrigues. A nossa equipe ficou com o produto ensaio fotográfico, e a nossa literatura-base foi o livro A invenção da Amazônia, de Neide Gondim. O livro traz algumas palavras rebuscadas aqui e ali, mas não possui uma leitura cansativa. A ideia da autora era bem clara: ela procurava demonstrar como o “Mito da Amazônia” foi sendo lentamente construído pelos navegantes que traziam de suas terras expectativas e ideias fantasiosas sobre aquela terra desconhecida.

Com o grupo reunido numa tremenda brainstorming, decidimos trabalhar com os estereótipos que os brasileiros de outras regiões do Brasil (ou até mesmo nós do Norte) têm com a vida na Amazônia, da mesma maneira como os europeus tinham em relação aos índios. As fotografias foram desenvolvidas com a técnica da sobreposição, em que para criar uma imagem precisaríamos de duas fotografias, que mostrariam o contraste desses estereótipos sobre a realidade amazônica. Para explicar melhor, dividi o ensaio em três partes:

Pessoas

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Comecemos pela sobremesa, a foto que eu considero a pièce de résistance do trabalho, a minha predileta. Unimos duas imagens da mesma pessoa em diferentes cenários, utilizando em uma foto adereços feitos de produtos naturais e na outra jóias de ouro, contrastando aquilo que se espera que seja exclusivo da Amazônia com jóias tidas como “europeias”.

Todas as fotos do ensaio, como verão, trabalham com a sobreposição de duas imagens com ideias opostas. Optamos também por deixar todas em preto-e-branco por facilitar na hora da mesclagem das fotos, sem contraste de cores. Nessa em especial, mantivemos a cor das jóias para ser melhor visualizada nossa intenção.

1 (6)O segundo estereótipo trabalhado foi o de que “todos aqui são índios”. Realmente, somos índios sim, e eu com certeza tenho a ascendência indígena estampada nos meus olhos puxados, porém não pertenço a nenhuma tribo, nem uso cocar ou falo qualquer dialeto indígena. Da mesma maneira vive a criança morena dentro da silhueta do cocar, que é tão indígena quanto eu, mas não precisa estar “caracterizada” como ta; em vez disso, ela veste o uniforme da escola pública em que estuda, como as demais crianças no resto do país.

1 (7)Para a foto seguinte escolhemos um estereótipo que os amazonenses têm de si mesmos: a preguiça. A historinha que nos foi passada é a de que, com a chegada dos europeus, estes tentaram escravizar os índios, que não aceitaram a dominação e eram mais propensos a se negar a trabalhar e fugir para seu porto seguro: as matas. Diferente dos escravos trazidos da África, que não conheciam a região e não tinham para onde fugir. O Amazonas, sendo o estado que possui o maior percentual de índios no país (17%), acabou adotando esse “falso estigma” para si.

Creio que não conseguimos ilustrar muito bem, mas o objetivo era o contraste da paz e tranquilidade da rede com a imagem de amazonenses trabalhando.

Comida

1 (8)O café da manhã foi o tópico da próxima foto. O cafezinho matinal está presente nas mesas de todo o Brasil, o que traz a ideia de globalização, e o açaí traz a ideia de algo mais enraizado na cultura local, trazendo para quem é de fora um ar “exótico”. A foto quer mostrar como os dois costumes existem de forma harmoniosa por aqui. E subliminarmente traz a letra “S” do logo da produtora audiovisual fictícia que fundamos nos projetos do módulo de audiovisual no 3º período de Jornalismo, a Seleta Produções.

A segunda comida demonstra algo mais cotidiano, como a pipoca comida no cinema em contraste à macaxeira, consumida em grande quantidade não só norte, mas em todo o país sob diferentes nomes (mandioca, aipim). Embora seja um alimento comum, não significa que substituiríamos a pipoca nas salas de cinema, continuamos fazendo parte de um país com costumes globalizados que come uma pipoquinha enquanto assiste ao filme.

Ambiente

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A imagem que escolhi para compor esta última parte representa um dos estereótipos mais feitos no país inteiro, não só do Amazonas, mas da região amazônica em si. Sim, temos vias públicas também e infraestrutura suficiente para transitarmos de carro no Amazonas! Com esta fotografia, não tínhamos a intenção de esclarecer que moramos em uma cidade bem desenvolvida, mas que nossa região é tão diversa que podemos ter os dois, estradas terrestre e fluvial.

Nossa intenção ao compor esse produto não era desmistificar as impressões de quem vem de fora ou está fora da região amazônica, mas sim, mostrar como vivemos, ao mesmo tempo, essas duas realidades tão diferentes. Confira o ensaio completo:

Por Victor Costa

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Victor Costa
Um CDF que deu muita sorte por chegar na faculdade tão cedo e manter as espinhas longe do rosto. Sou fã de história antiga e mitologias, pseudomúsico e desenhista empolgado, me descobri um editor de vídeos razoável, e alguns gostam do que eu escrevo, apesar de considerar tudo o que eu produzo irrelevante para a vida, o universo e tudo mais. Estudante do 6º período de Jornalismo e petiano desde agosto de 2013.
Victor Costa

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