Amizade-Amor: sobre Cássia e Nando

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“Corre a lua, por que longe vai? Sobe o dia tão vertical. O horizonte anuncia com o seu vitral que eu trocaria a eternidade por essa noite. Por que está amanhecendo? Peço o contrário, ver o sol se pôr. Por que está amanhecendo se não vou beijar seus lábios quando você se for?” (Relicário, Nando Reis)

Essa já é uma velha história, mas eu não poderia (e nem conseguiria) começar essa jornada musical por outro lugar. Sinceramente não me canso de ouvir e de me emocionar com a amizade-amor mais viva e sincera da música brasileira. Me perdoem os que não pensam dessa forma ou os que tem uma outra paixão, mas Cássia e Nando me levam às lágrimas. Literalmente. Sério.

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Cássia e Nando se conheceram através de Marisa Monte, em 1994. Cássia estava em busca de músicas inéditas e um dia, quando estavam na casa de Marisa, Nando ligou e ela foi vê-los. Sobre esse dia, nas palavras de Nando: “Nos tornamos amigos muitos anos depois do nosso primeiro encontro, quando identicamente detestamos ter que falar um com o outro, estranhos que éramos por natureza e por delimitação protetora do perímetro de nosso íntimo sítio. Ela disse ‘oi’, ouviu as músicas que eu queria mostrar, e depois ‘tchau’. Foi-se embora na hora certa que só o jeito de quem não sabe como se despedir vai embora pra não sumir jamais”.

E assim teve início o que nada pôde terminar. Nando escrevia para Cássia. Inúmeras cartas que ela nunca respondeu. Um exemplo disso é a música All Star. A forma com que eu escrevo a história da minha relação com Cássia, de amizade, de amor, e tudo mais, é uma forma muito lúdica, cheia de imagens. O elemento que eu uso para falar de nós dois é o tênis dela, o All Star azul, e o meu, preto de cano alto. Eu fui para um ensaio, ou tinha gravação, não me lembro, com um terno preto muito justinho, com um tênis All Star de cano alto, porque eu sabia que ela tinha um All Star azul. A Cássia ficou boquiaberta, e eu achei a maior graça. A partir dessa imagem, e do fato dela morar no bairro de Laranjeiras, que eu achava que era meu, por causa da cor-de-laranja [Cássia chamava Nando de Laranjinha, pelo seu cabelo ruivo], é como se eu chegasse num lugar e dissesse: a laranja voltou para as laranjeiras, isto é, eu entrava num pomar, que sorria ao me receber, e era a forma que eu me sentia com um sorriso ao ser recebido na casa dela“.

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A morte que não foi na hora certa. No dia 29 de dezembro de 2001, partiu Cássia Eller. Sem aviso prévio. Apenas se foi. No dia do velório Nando entrou na capela, sentou no chão e chorou. Ele raramente falava algo sobre a morte de Cássia, além daquilo que lhe era perguntado pelos jornalistas.

Em 2011, na época de lançamento do CD que homenagearia Cássia, Nando escreveu um artigo para o Estadão. Assumiu que compõe músicas para dar forma ao caos que carrega dentro de si e somente dessa forma pode se aproximar dele mesmo sem sumir de vez. “Cássia é a voz”, disse ele, “a voz que grita o meu muitíssimo-mutismo silêncio-surdo, aquele que no peito dos desafinados também bate (feroz e veloz) um coração”.

Em junho desse ano, a percussionista da banda de Cássia, Lan Lan, produziu a peça “Cássia Eller – O Musical”, e, em um dos momentos, foi apresentada a história dela com Nando; segundo as críticas, um dos momentos mais poéticos do espetáculo. “Suas versões são melhores que minhas músicas”, dizia o Nando da ficção em cena. O Nando na plateia, que foi assistir à peça, chorou tanto que precisou levantar os óculos para enxugar as lágrimas. O que Nando disse depois do fim? “Deu uma saudade doída. A semelhança é impressionante… Na voz, nos trejeitos. Fiquei arrepiado. Foi bonito e triste. É evidente que fui apaixonado pela Cássia.”

E é evidente que fomos apaixonados pelos dois. As músicas embalam até hoje e a voz da Cássia continua ecoando nas letras do Nando.

Por Andréia Santos

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Andréia Santos

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“Amei as palavras e as odiei e espero tê-las usado direito.” (A Menina Que Roubava Livros). Levo mais tempo pra me definir do imaginava, mas esse é um problema desde o ensino fundamental, com aquelas redações do tipo “Quem sou eu?”. Fã incondicional de todas as palavras bonitas que existem no mundo, amo poesia, gente e tudo que envolve as duas coisas e mais um pouquinho. Queria ter nascido há algumas décadas. Teria compreendido Nietzsche e seria amiga do Vinicius de Moraes. Sonho em ser “uma menina com uma flor”. Estudante do 3º período de Relações Públicas e petiana desde agosto de 2013.

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