Como sobreviver às revistas teens

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A confusão da adolescência acontece por mudanças fisiológicas, pelo crescimento das responsabilidades e, principalmente, pelas inúmeras descobertas que ocorrem nessa fase. É na adolescência que pessoa começa a perceber o mundo e o seu papel dentro dele. É comum ouvir que essa fase é a mais turbulenta e problemática na vida do indivíduo, já que engloba atitudes baseadas na experimentação  e na busca por identificação e aceitação no grupo no qual se está inserido.

É justamente nessa busca por aceitação que se encontra o maior problema de ser adolescente: saber até isso realmente importa ou faz bem. Em uma esfera individual, ações impensadas são tomadas sem sequer lembrar que consequências podem existir. Em uma escala maior, por exemplo, adolescentes e jovens são os mais propensos ao desenvolvimento de transtornos alimentares, ao buscar padrões de beleza e comportamento retratados pela mídia, evidenciando o quão potencializada é a influência da mídia nos adolescentes.

Revistas teens têm papel importante no desenvolvimento do leitor, por ser o primeiro veículo que se propõe a dialogar com suas dúvidas. Não é à toa que formaram referências de inúmeras gerações. No entanto, essas referências se constituem mais como uma lista de objetivos do que uma revista realmente proposta a sanar dúvidas e diminuir a confusão natural da adolescência. Na verdade, ler tais publicações, muitas vezes, aumentava o desconforto do(a) leitor(a) por não se sentir parte de tudo aquilo.

Focando em revistas adolescentes voltadas ao público feminino, esse desconforto é ilustrado pela busca do corpo perfeito. As capas são sempre coloridas e estampadas por alguma celebridade cujo corpo, comportamento ou atitude são tomados como referência. Muitas vezes, uma imagem, já pouco natural, é manipulada com programas de edição de imagem, transformando-a no ideal máximo de perfeição, sem avisar ao público que é impossível alcançá-lo. Assim, inicia o ódio ao próprio corpo e a não aceitação de si mesma.

A objetificação do corpo feminino não está somente em retratá-lo como objeto sexual,  mas também está em tratá-lo como um produto do consumo, e é o que acontece em muitas publicações femininas, uma opressão. O discurso é o seguinte: “se você não consumir aquilo que está sendo proposto, seu corpo não será aceito por ninguém, você ficará sempre de lado”. Como na adolescência, o maior medo é não ser aceito, o discurso cai como uma luva.

 As revistas, muitas vezes, são lidas para ser aceito no grupo, não porque realmente despertam o interesse do  público que, diferentemente de como é retratado, não é homogêneo.

E essa falta de tato em perceber a heterogeneidade do público faz com que os papéis de gênero sejam, também, impostos por publicações desse tipo. O própria separação das revistas em “femininas” e “masculinas” (que tento evitar nesse texto) já reforça, distancia e antagoniza temas que podem e devem ser tratados pela sociedade em sua totalidade, como sexo, saúde e arte. Além disso, são pouco comuns pautas sobre sexualidade, raça, gênero, sociedade e política em revistas ditas “femininas”, incluindo aquelas feitas para o público adulto.

Essa imposição de papéis de gênero, a objetificação do corpo feminino e, consequentemente, o discurso machista podem ser ilustrados por reportagens como essa e essa. Em ambas, a adolescente tem seu corpo posto à prova, como se precisasse da aprovação do homem sobre como deveria se vestir. Ainda é possível enxergar um discurso racista, ao colocar o cabelo afro ou crespo como algo “ruim”.

Porém, boas notícias! Essas duas reportagens foram alvos de grandes críticas nas redes sociais feitas pelo próprio público leitor. Ou seja, adolescentes que, mesmo passando por uma fase turbulenta da vida, já conseguem perceber o quão errada e opressora é essa abordagem. Após tais episódios, os projetos editoriais de algumas publicações adolescentes foram revistos e alterados.

Enquanto pautas sobre relações sexuais já haviam começado a ganhar espaço nos anos 2000, é a partir da atual década que questões políticas, como o feminismo; sociais, como o racismo e a representatividade; e de gênero, como a transsexualidade, os conceitos de trans, cisgênero e gender fluid chegam, aos poucos, no público mais jovem. A internet é um importante catalisador na transmissão de tais questões, que já começam a ser incorporadas a veículos cuja influência nos adolescentes é maior do que se pode imaginar.

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Cecília Costa

Cecília Costa

Quando criança, dizia que sua profissão seria “Leonardo da Vinci” porque ele fazia de tudo um pouco. Já quis ser astronauta, cientista, bailarina e antropóloga e, hoje, é estudante do curso de Jornalismo da UFAM. Ama contar histórias e, assim, nunca conseguiu ficar com caneta e papel nas mãos sem escrever, rabiscar e transbordar.
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