Maracatu Pedra Encantada

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O Pet entrevistou Francine Marie, integrante do grupo Maracatu Pedra Encantada*, banda que vem com uma proposta diferente: trazer esse ritmo tão característico da região nordeste para os ouvidos manauaras. Conheça agora um pouco do trabalho deles.

Como vocês se definem? Fale sobre o trabalho do grupo.

Nós somos um grupo de maracatu de baque virado, mas também alternamos com outros ritmos como o afoxé e o cordel. O maracatu surgiu nos quilombos da ancestralidade negra, e o maracatu é candomblé, basicamente, como diria Elda Viana. Alguns dos integrantes são ligados à religião e isso influencia muito no grupo. O nosso foco de trabalho são as comunidades. Nós fazemos algumas oficinas em praças para que as comunidades mais distantes tenham acesso ao maracatu.

Quando e por que o grupo surgiu?

O grupo é recente. Ele surgiu no carnaval desse ano de 2016. Alguns integrantes já tiveram um contato anterior com o maracatu lá em Recife, e aqui na cidade também porque nós fazemos parte de um outro grupo de maracatu. Alguns de nós já tínhamos instrumentos pessoais e resolvemos uma tarde nos reunir para tocar, para aprender novas músicas. Ensaiamos algumas canções e, para ajudar em um projeto de uma amiga que estava querendo lançar um CD, nós tocamos em um bloco de carnaval, o qual ela organizou, descemos em alguns outros blocos depois e resolvemos levar a brincadeira a sério. Formamos o grupo e começamos a organizar melhor, fazer uma marca, criar uma identidade. E então nós começamos a fazer oficinas abertas à comunidade, atualmente nós as realizamos no Centro.

Quais suas influências?

Nós recebemos influência de todo e qualquer ritmo popular brasileiro, principalmente os de origem africana, tentamos focar bastante nisso. Também recebemos influência do Boi, do afoxé, dos contos cantados nos terreiros. Alguns de nós trouxeram uma bagagem muito forte de Recife, das grandes nações, como a nação Porto Rico, Estrela Brilhante Recife, Leão Coroado. A maior parte do nosso repertório é composta por músicas do Porto Rico e do Estrela, e ultimamente nós temos inserido algumas músicas de afoxé, como a Quilombo Axé, que fala do racismo, uma situação muito presente ainda na nossa sociedade, e é uma música bastante antiga, se eu não me engano, ela é de 1960.

O que cada integrante faz no Pedra Encantada?

Nós não temos postos fixos dentro do grupo, principalmente porque a quantidade de integrantes aumenta a cada oficina – atualmente somos 20. Os membros se revezam entre os instrumentos, nós tentamos aprender um pouco de cada para as apresentações serem bem flexíveis, para ninguém ficar preso a um único instrumento. Claro que nós sempre temos um com o qual nos identificamos melhor, e o Maracatu é composto por gonguês, agogô, alfaia, caixa ou tarol, e agbê ou xerequê – varia de uma região para outra do Brasil.

Onde vocês costumam se apresentar?

Nós já nos apresentamos na rua, em bares, escolas, hostels, universidades, espaços culturais, onde chamarem, nós nos esforçamos para ir. Como ainda somos um grupo muito novo, vamos com recursos próprios e bastante força de vontade. Não cobramos pela maioria das apresentações, mas toda ajuda é bem vinda, afinal o grupo precisa se manter e crescer. E tem a questão dos instrumentos que precisam de manutenção, sem contar que conforme o grupo aumenta, novos instrumentos são necessários.

E você, Francine, como é o seu envolvimento com a arte?

A minha vida na arte, apesar da minha pouca idade, já é bem extensa. O meu pai é músico e compositor, desde que eu comecei a falar ele me instigou para a música. Eu fiz música desde muito nova e faço flauta doce desde os 5 anos de idade. Eu cresci no âmbito musical. Além do meu pai, minha irmã do meio, que já não está entre nós, também era musicista. Quando eu fiquei um pouco mais mocinha, comecei no teatro e me apaixonei, decidi que aquilo era o que eu queria para a minha vida. Comecei a dançar, e estou me esforçando para ser uma boa bailarina desde então. Apesar da minha paixão pela música, o caminho que eu escolhi seguir é o teatro e eu estou me esforçando para isso, mas como as artes se complementam, a música está aí para me ajudar nesse caminho.

Qual sua visão quanto ao cenário musical em Manaus? Esse preconceito com o produto local, de que tanto se fala, é real (visto do seu ponto de vista de artista)?

O cenário musical vem crescendo de forma absurda em Manaus, não só em quantidade, mas em qualidade também. A qualidade musical atualmente é enorme, eu vejo bandas que viajam pelo Brasil, tem reconhecimento fora do estado, como Alaidenegão, Casa de Caba, Luneta Mágica, outras que criam uma identidade marcante como o The Stones Ramos, que são fantásticos, entre outros músicos. O preconceito com o que é local existe e não é só em Manaus, ele é no Brasil todo, porque a mídia investe muito no que é voltado para o entretenimento, na cultura pop, ela investe para que isso seja vendido, e nada mais natural que essa cultura seja melhor aceita, porque há um trabalho todo por trás disso. Mas tem muita gente talentosa, não só aqui em Manaus, mas em todo o país, e muita gente que apoia essa arte. Eu vejo isso muito forte aqui, do apoio – apesar de ainda vir de grupos isolados, de certa forma de grupos elitizados. Mas o mais importante seria que essa música, essa arte, chegasse para todo mundo, e aí esse preconceito iria diminuir absurdamente ou então ele não iria nem existir. A cada dia ele se desconstrói um pouquinho, uma nova pessoa tem acesso a alguma forma de arte, não só a musical; as bandas têm saído um pouco desse foco muito no Centro, tem variado um pouco de lugar e as pessoas têm conhecido mais o seu trabalho, o cenário artístico local, e as coisas vão melhorando aos pouquinhos.

*”Nós nos reunimos e cada um foi dando uma ideia. A princípio ficamos entre Fogo Encantado e Pedra Encantada, mas decidimos por Pedra Encantada a partir de uma consulta com o guia espiritual de um dos integrantes do grupo. Logo depois tivemos certeza de que foi a melhor escolha, pois descobrimos que já havia um grupo chamado Cordel do Fogo Encantado.”

banda mato

cabelo azul

 

 

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Letícia Misna

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Não consegue piscar o olho direito sozinho, não usa roupa laranja e não sabe nadar.
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