Sobre a Televisão

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O que há por trás das câmeras de um estúdio de televisão? Não se referindo à sala de comando, ou aos aparelhos que colocam o programa no ar ou aos profissionais que trabalham nos bastidores. Todos estes estão no campo visível, são mais palpáveis e pertencem à estrutura televisiva no seu conceito mais fácil de se perceber. Perceber é o que se faz necessário para compreender o que de fato há por trás do todo que é a televisão. Se a reposta mais óbvia dissesse que nos bastidores o que se tem são câmeras, operadores técnicos e outros não estaria errada. Mas esta, embora correta, não é a mais significante. É no âmbito invisível desse agente de comunicação que a resposta mais pertinente se encontra. Há uma espécie de rede, conectando campos diferentes que possuem determinados propósitos.

Em seu livro, Sobre a Televisão, Pierre Bourdieu descortina o que não se quer mostrar ao telespectador. Em uma análise minuciosa Bourdieu perscruta e torna claro os mecanismos que engendram a produção da informação. Mesmo que os aspectos mais importantes sejam invisíveis, são eles que estabelecem o que vai para o ar, como irá e moldam o pensamento de quem assiste. Mesmo que não seja visto claramente há efeitos, porque são colocados para ser invisíveis, mas não são inexistentes.

Nem tudo é informação para a televisão. Há um filtro e nele estão o campo econômico, a disputa pelas fatias de mercado e o índice de audiência. Pode ser importante como notícia e ter caráter público. Mas não é suficiente ser pertinente. Antes de chegar ao telespectador há uma averiguação e é nesse momento que entram os pontos da estrutura invisível da televisão. Há interesses que precisam ser atendidos e por estar submetida a eles a televisão torna-se uma manipuladora que é manipulada. Bourdieu ressalta a variável do poder econômico. Esse é um dos fatores de maior influência na produção da informação. Os meios comunicativos, em parte de sua renda, dependem dos anunciantes ou Estado. Estes fornecem boa parte do capital que faz com que a empresa permaneça funcionando. A autonomia econômica desse órgão de comunicação não é real. Na obra em questão, Pierre Bourdieu cita exemplos de empresas detentoras de redes de televisão. Estas são, portanto, ligadas aos interesses das empresas que as comandam e não podem atingi-las negativamente. Parte do que poderia ser notícia importante veiculada não vai ao ar porque prejudica os que patrocinam.

As disputas pelas fatias do mercado são, de certa maneira, relacionadas com os interesses econômicos. Há uma concorrência e as fatias de mercado são indicadores do poder econômico desta ou daquela emissora. Deter o poder econômico significa permanecer no mercado e a busca por esse poder gera essa competitividade, afetando diretamente aos jornalistas das emissoras. A concorrência entre elas faz com que a busca pelo exclusivo, o furo, se torne incessante. E mais uma vez, conectado a isso está outro elemento: o índice de audiência. Índices de audiência também são indicadores e são sobretudo indicadores para os anunciantes. Quanto mais audiência, mais telespectadores para assistirem além da programação os anúncios. São vistos como consumidores também. Já mencionada a importância dos anunciantes para a televisão vê-se então como se torna consequentemente fundamental o índice de audiência elevado. É preciso garantir isso. É quando se começa a informar desinformando. Porque a prioridade deixa de ser do que é realmente necessário veicular para o que dá audiência. Na televisão tempo é, nas palavras de Bourdieu, raro. E esse bem tão preciso é ainda gasto com aquilo que não tem valor.

São muitos detalhes além desses que Sobre a Televisão apresenta de modo notável. O autor propõe uma ponderação sobre a relação entre o que se vê e sua necessidade de ser mostrado. E mais ainda, o que não é mostrado. A televisão é um órgão comunicativo que atinge a muitos e que por isso pode ser um dos maiores difusores da democracia. Mas é por esta mesma razão que pode desestruturar um sistema democrático quando encobre e aliena, afetando não só a esfera política, mas também a cultural.  O livro é da editora Zahar e dividido em três partes, seguido de “A influência do jornalismo e Os Jogos Olímpicos”.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. Tradução: Maria Lúcia Machado.

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Iolanda Ventura

Iolanda Ventura

Sempre ouviu lhe dizerem: "Nossa, você escreve muito! Como consegue fazer tanto texto? Não cansa não? Escolher jornalismo foi a prova que não cansa de escrever. Ela já tinha sido escolhida pelo curso e não sabia. Gostava de muitas coisas diferentes e a indecisão era grande. Quando a ficha finalmente caiu viu para que realmente tinha vocação e que de tudo que gostava Jornalismo tinha um pouco. Até chegar em jornalismo demorou, mas ainda bem que chegou.
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