O Oceano No Fim Do Caminho

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Um homem volta à sua cidade natal para um enterro. Agora, com quarenta anos, as memórias da sua infância parecem estar caindo no esquecimento e já  não estão mais ali como outrora estiveram. Ele lembra-se da casa na qual morou por muito tempo, mas não recorda totalmente do que aconteceu ali, só lembra que naquela época ele conhecera uma garota, a sua única amiga, aquela que o fez acreditar que naquela casa no fim do caminho, existia não um lago, mas sim um oceano. Tocado por aquela lembrança, resolve ir até o local novamente e ver como o lugar está, em um impulso de ver aquele lago outra vez. Senta-se em um banco para admirá-lo enquanto uma série de recordações volta à sua mente.

É assim que tem início a história de “O Oceano no Fim do Caminho”, em inglês  The Ocean at the End of the Lane, um romance do consagrado autor britânico Neil Gaiman conhecido pela aclamada série de quadrinhos Sandman, e livros como Coraline e Stardust. Publicado em 18 de junho de 2013 através da editora William Morrow and Company o romance foi considerado o Livro do Ano no Reino Unido através de uma votação promovida pelo National Book Awards.

Nosso narrador protagonista, cujo nome não é revelado, agora tem sete anos e acaba de se mudar com os pais e a irmã para o interior da Inglaterra, onde, por problemas financeiros, alugam um quarto da nova casa para o, como é chamado, mineiro de opala. Um dia o carro do seu pai é roubado, e quando o encontram a descoberta de que seu hóspede cometera suicídio, causa uma grande perturbação na mente do garoto. Uma jovem das redondezas convida nosso protagonista a entrar em sua casa, afastando-o daquele cenário nada convidativo para uma criança. É então que somos apresentados às três misteriosas mulheres da família Hempstock, a jovem Lettie, sua mãe e sua avó.

Lettie passa a ser sua única amiga. Aquele fatídico dia, ao menos, deu ao garoto a oportunidade de encontrar alguém com quem pudesse compartilhar seus sonhos e suas brincadeiras de criança. O que ele não esperava, era que sua vida fosse se transformar num turbilhão de acontecimentos extraordinários. A imaginação do garoto – apurada, como a de toda criança – é levada a crer que os seus monstros ganharam vida. Um bosque num dia de sol… Um ser misterioso  que voa… Seria isso real? Ou pura e irracional imaginação?

Quando uma moeda fica presa na garganta do nosso narrador durante a noite, fazendo com que este se engasgue, ele pede ajuda a Lettie. Ela aceita ajudá-lo e insiste que ele a acompanhe na viagem necessária para encontrar o espírito maligno que ronda o lugar e prendê-lo. É dito que, sob hipótese alguma, o garoto não deve largar a mão de Lettie, mas, num momento de surpresa ele acaba soltando a mão da menina e, nesse instante, algo entra no pé do nosso narrador. Assim que regressa a casa, ele retira o que parece ser uma minhoca do seu pé, mas um bocado dela permanece dentro dele. No dia seguinte a mãe do narrador avisa que conseguiu encontrar um emprego e que uma mulher chamada Ursula Minkton vai tomar conta dele e da sua irmã.

O garoto se vê obrigado a ter que conviver com uma babá nenhum pouco humana – quem era aquele mostro disfarçado de babá? Ela queria matar o garoto sem nome? – com uma irmã birrenta, e com pais que não acreditam em quase nada que ele diz. Sua vida agora corre perigo. Lettie, junto com sua avó e sua mãe, chegam a conclusão de que expor o garoto ao mundo mágico, com seres perigosos e cenários que beiram a irrealidade, fora um tremendo erro. Mas não há como voltar atrás. O único problema: tudo aquilo era realmente real. Não era?

 “Não tenho saudade da infância, mas sinto falta da forma como eu encontrava prazer nas coisas pequenas, mesmo quando coisas maiores desmoronavam.” (Pág 169)

Nada exige grandes explicações – acompanhamos tudo através dos olhos das lembranças do narrador já adulto e, como ele, somos levados a não questionar os comos e porquês. As coisas simplesmente são. E como toda memória de infância, tudo pode ser verdade como também fruto da imaginação infantil. Um oceano de melancolia; um livro perfeitamente arquitetado. O oceano no fim do caminho é uma história sombria e fantasiosa, de como a infância é uma fase onde as experiências vivenciadas podem ou não ser reais. Afinal, o que é real na perspectiva de uma criança?

“…e depois ficam só as lembranças. E as lembranças desvanecem e se confundem, viram borrões….,” p. 58)

 Gaiman deixa o livro com um sabor especial ao sabermos que lugares, personagens e certos acontecimentos foram inspirados em fatos reais de sua infância. Com seu talento narrativo e imaginação, o autor conseguiu transformar fatos banais em um universo fantástico e tocante. Ao tratar sobre a infância, Gaiman sutilmente critica o universo adulto viciado em achar que precisa de sexo e dinheiro – é quando uma criatura maligna resolve dar a nossos personagens o que eles querem. Porém o resultado é desastroso. Uma clássica situação de “cuidado com o que deseja”.

“Adultos seguem caminhos. Crianças exploram. Os adultos ficam satisfeitos por seguir o mesmo trajeto, centenas de vezes, ou milhares; talvez nunca lhes ocorra pisar fora desses caminhos, rastejar por baixo dos rododendros, encontrar os vãos entre as cercas“ (pág. 70)

Os adultos, por mais que pareçam sempre saber o que estão fazendo, continuam interiormente a se parecer com crianças. Neste novo Neil Gaiman as crianças são as protagonistas da história, as divindades são figuras femininas independentes dos homens, o mal pode ter a forma de panos velhos e madeira apodrecida e ter o perigoso poder de realizar os desejos, a justiça pode tanto ser a sua salvação quanto a sua morte e o Universo tem a forma de um oceano: misterioso, profundo, eterno e impossível de se definir , como se vê em um dos mais belos (e longos) trechos de todo o livro:

“Meu segundo pensamento foi de que eu sabia de tudo. O oceano de Lettie Hempstock fluiu dentro de mim e preencheu o universo inteiro, do Ovo a Rosa. Eu soube. Soube o que era o Ovo – onde o universo se iniciou, ao som de vozes incriadas cantando no vácuo – e eu soube onde estava a Rosa – a dobra peculiar de espaço no espaço em dimensões como origami e que florescem como orquídeas estranhas, e que marcaria a última época boa antes do consequente fim de tudo e do próximo Big Bang, que não seria, agora eu sabia, nem nada do gênero. (…) Eu vi o mundo no qual andara desde o meu nascimento e compreendi sua fragilidade, entendi que a realidade que eu conhecia era uma fina camada de glacê num grande bolo de aniversário escuro revolvendo-se com larvas, pesadelos e fome. Eu vi o mundo de cima e de baixo. Vi que havia padrões, portões e caminhos além da realidade. Eu vi todas essas coisas e as compreendi, e elas me preencheram, da mesma forma que a água do oceano me preenchia.  Tudo sussurrava dentro de mim. Tudo falava para tudo, e eu sabia tudo (…) As correntes oceânicas deslocavam meu cabelo e minhas roupas como brisas de verão. Eu não sentia mais frio, sabia tudo, não estava mais com fome e o mundo grande e complicado era simples, compreensível e fácil de desvendar. Eu ficaria aqui até o fim dos tempos, num oceano que era o universo que era a alma que era tudo o que importava. Eu ficaria aqui para sempre.” (págs. 163 a 165)

Nesse livro, mais do que tratar de uma negligência por parte dos pais ao protagonista, Gaiman fala sobre traição no casamento e predileção entre filhos. Mas não é uma abordagem sem razão de ser, ela está presente para explicar melhor as atitudes do personagem, bem como seus pensamentos. O interessante acerca desse protagonista é a falta de um nome. Não, você não leu errado. Gaiman realmente não deu um nome ao personagem e os seus leitores passam a trama inteira sem saber como chamá-lo. Achei esse um recurso interessante, pois a  escolha não afeta o modo como criamos laços com o menino. É fácil ver coragem nos seus personagens e se identificar com eles, mesmo quando estes são crianças que leem muito, falam pouco e vivem em seu próprio universo particular, como é o caso do nosso protagonista.

Delicado, sensível e comovente, O oceano no fim do caminho mexe com aquelas emoções deixadas na infância, provocando uma nostalgia ao mesmo tempo divertida e tocante.

“Existem monstros de todos os formatos e tamanhos. Alguns deles são coisas de que as pessoas têm medo. Alguns são coisas que se parecem com outras das quais as pessoas costumavam ter medo muito tempo atrás. Algumas vezes os monstros são coisas das quais as pessoas deveriam ter medo, mas não têm.” (pág 129)

 

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Emanuelle Lopes

Emanuelle Lopes

21 anos, estou sempre com fome, apaixonada por música, livros e séries, mesmo não tendo todo o tempo que gostaria para se dedicar a esses dois últimos. Amo escrever. Alguns gostam do que escrevo, apesar de achar tudo que produzo irrelevante para a sociedade. Estudante do 7º período de jornalismo.
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