A negritude que elevou a música em 2016

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2016 foi um ano bem produtivo na indústria musical. Os lançamentos desse ano realizaram grandes modificações no comportamento do que está sendo consumido na música mainstream de forma geral. Alguns modismos de momento estão começando a dar lugares para obras mais completas e ousadas, demonstrando dos próprios artistas musicais uma necessidade de elevar o nível da música para as massas. Curiosamente, os maiores responsáveis por essa renovação cultural no pop são os negros da industria, esses que no passado definiram e criaram uma marca em uma série de estilos como o jazz, rock, soul e outros. Os artistas que mais passaram tempo no topo das paradas de sucesso do mundo todo pelos seus álbuns e singles esse ano foram negros, junto com eles trouxeram uma série de projetos que foram aclamados e bem recebidos pela crítica especializada. Beyoncé, Frank Ocean, M.I.A., Rihanna, Kanye West, Drake e outros começaram a se destacar com força nessa indústria cada vez mais competitiva como opções fabulosas para a cultura mainstream.

BEYONCÉ – LEMONADE

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Beyoncé lançou mais um álbum visual com o apoio dessa vez da HBO, tendo a versão visual do álbum sendo exibida num formato de filme como especial para emissora paga americana. A obra trabalha o conceito da mulher negra na sociedade americana, além de exaltar a cultura negra não como algo sofrido ou negativo, mas com a intenção de gerar empoderamento nos seus ouvintes. Ela se demonstra muito mais madura que seu último álbum que apesar de ser experimentalmente brilhante, mostra mais a mulher Beyoncé que as pessoas queriam conhecer quase de forma egocêntrica e meio sensacionalista, mas não a mulher que ela representa para a sociedade que ela vive, que vai além da sua sexualidade e busca pela perfeição, mas aquela que faz as coisas que quer, porquê pode fazer e enfrentar todas as consequências pelos seus atos sem dever nada a ninguém. Lemonade exalta a negritude na sua música se utilizando dos gêneros antigos e contemporâneos, indo do blues e jazz até o hip-hop e o bounce. Ela se utiliza de artistas de música indie para contribuir para um som menos genérico e isso atribui mais valor a obra que tem participações de James Blake e Jack White. Lemonade triunfa como uma obra verdadeira, bem elaborada e  realizada com eficiência e convicção.

FRANK OCEAN – BLONDE/ENDLESS

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Frank Ocean levou quatro anos para lançar esses dois álbuns, o primeiro com a intenção de ser seu último projeto com a sua antiga gravadora Def Jam Recordings, o segundo para dar inicio a sua própria gravadora Boys Don’t Cry. Endless é um projeto em si bem inusitado, é um álbum visual que foi lançado apenas na plataforma de streaming Apple Music, não teve lançamento físico (até agora), mas mesmo assim causou um rebuliço por ter sido lançado de surpresa. Endless foi muito criticado por ter músicas muito espásticas e incompletas, mais de metade do conteúdo das canções do álbum foram cortadas para poder se encaixar no material visual do álbum quase como uma trilha sonora. O álbum recebeu críticas positivas mas impactou menos que o álbum lançado uma semana depois, o Blonde. O segundo lançamento causou mais impacto, por ter sido feito em formato digital e físico em todas as plataformas, além de ter sido amplamente divulgado nas redes sociais que aguardavam um álbum oficial do Ocean há muito tempo e aclamado pela crítica especializada. Ambos os projetos contaram com a participação de artistas como James Blake, Beyoncé, Pharrell Williams, The Weeknd, Jonny Greenwood do Radiohead , Kanye West e outros. Frank volta com um R&B ainda mais experimental e aposta em mistura de hip-hop, industrial music, blues e ambient music.

DRAKE – VIEWS

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Drake se consolidou como uma grande estrela da música pop em 2016. Ele criou uma série de hits com o Views afirmando seu valor comercial, apesar de não ser seu álbum mais bem quisto pela crítica por acharem ele muito longo e com uma falta de conceito no projeto, além de ele se colocar numa posição de conforto, ele ainda conseguiu obter uma boa recepção.  O álbum segue a linha de seus grandes sucessos com o uso de hip-hop aliado com pop, dancehall e R&B. A estética do álbum é bastante comum, mas ao mesmo tempo eficiente com o grande público.

KENDRICK LAMAR – Untitled Unmastered

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Kendrick Lamar se colocou como um dos maiores artistas do hip-hop depois de dois álbuns e quando resolveu lançar esse projeto se tratando de coletânea de faixas que não foram utilizadas no seu álbum anterior, o To Pimp A Butterfly, ele chocou a crítica pela qualidade do trabalho descartado que se mostrava brilhante pelo seu experimentalismo e ousadia. O projeto é carregado de temas políticos e psicológicos nas letras, além de fazer uso free-jazz, música de vanguarda, soul e funk aliado ao rap. Simplesmente impactante por demonstrar como funciona o processo criativo do artista em produzir suas faixas desde o início e como Kendrick realmente galga por elevar o nível de suas obras.

M.I.A. – AIM

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AIM foi um dos projetos mais inusitados, já que a comunidade negra que domina a música em sua maioria vem dos Estados Unidos, a M.I.A. se posiciona como uma artista refugiada do Sri Lanka que trata de assuntos como imigração, guerras, direitos humanos e a busca pela liberdade, criando maior individualidade aos projetos da artista. O álbum teve uma recepção positiva do público e mais moderada pela crítica que viu que o excesso de temas do álbum deixou-o muito disperso, além da variação de estilos que fez se transformar numa metamorfose ambulante sem apresentar uma unidade musical. O álbum faz uso de R&B alternativo, dancehall, música étnica, reggae fusion, trap e hip-hop, apresentando uma diversidade de tipos de canções e faixas durante a obra M.I.A. se coloca como a responsável por uma grande obra contemporânea da música.

RIHANNA – ANTI

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Rihanna por muitos anos foi colocado como uma grande hitmaker para a sua gravadora na intenção de fazer álbuns dispersos e que atendessem ao grande público. ANTI foi colocado pela primeira vez como um projeto em que Rihanna elaborasse-o por completo e criasse uma estética no álbum a ser galgada. Ela opta por trabalhar num álbum pop que ao mesmo tempo é de PBR&B (uma designação do R&B alternativo) e neosoul com elementos de dancehall, reggae, electro rock, electro-soul, hip-hop e pop psicodélico. O álbum criou alguns hits como Work e Needed Me, além do álbum ter sido recebido pelo grande público com extrema positividade vendendo muito bem. A crítica recebeu de forma extremamente positiva por suas faixas idiossincráticas e que ao mesmo tempo se completam como uma unidade por passarem mensagens similares no decorrer da obra.

KANYE WEST – THE LIFE OF PABLO

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Depois de dois álbuns bem sucedidos e que foram vistos como alguns dos melhores da década, Kanye West lança mais um álbum nesse ano e de novo trazendo um conceito bem ambicioso no projeto. The Life Of Pablo foi lançado inicialmente apenas na plataforma de streaming para áudio chamada de TIDAL, no qual ele é um dos sócios, a ideia é promover o álbum apenas em serviços de streaming. Logo após o lançamento inicial, Kanye mudou a estrutura musical das faixas que já haviam sido lançadas periodicamente, trazendo novas versões das mesmas faixas e ocasionalmente adicionando novas faixas ao projeto. Esse conceito traz um álbum em constante processo de modificação aonde ele nunca vai ser igual a forma que ele se originou. A efemeridade da essência das faixas do projeto causou um pouco de confusão na crítica que inicialmente viu isso como negativo achando-o disperso e incompleto, com o passar do tempo passaram a aceitar mais a volatilidade do álbum como algo positivo e vendo como isso era inovador ao se tornar uma obra em constante movimento. Mesmo com todo o ousado conceito envolvendo a obra, Kanye trouxe um álbum mais objetivo e menos experimental que suas obras anteriores, utilizando hip-hop aliado a industrial music, soul e gospel. Isso gerou faixas de maior apelo popular, gerando vários hits para o artista durante o ano.

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Matheus Mota

Matheus Mota

22 anos, trabalho como realizador audiovisual louco e voraz por música, cinema e séries de TV. Escrever é a minha vida, desenhar é um hobby, cantar é uma alegria e dançar é a uma diversão. Arte me inspira e me edifica todos os dias. Estudante de 4º período de jornalismo.

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