#PETRepórter: Imigrantes e refugiados buscam abrigo em Manaus

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Por Emanuelle Cristina, Gabriela Alves, Gabriela Maciel, Jakeline Xavier e Mariley Paloma, especial para o Lab F5. Trabalho desenvolvido nas disciplinas de Webjornalismo e Oficina Básica de Jornal Impresso e Webjornal, dos professores Luis Mansueto e Mirna Feitosa, respectivamente.

Manaus tem abrigado muitos imigrantes e refugiados que chegam ao país por razões como conflitos político-econômicos e até catástrofes naturais. A cidade surge como uma alternativa para fugir dos problemas enfrentados em seus países. Dados divulgados pela Delegacia de Polícia de Imigração (Delemig) da Polícia Federal à imprensa, revelam que o pedido de refúgio de venezuelanos aumentou de 73 refugiados em 2014 para 367 em 2015, um aumento de 402%, tendo a crise econômica entre os principais motivos de ingresso dos estrangeiros.

Fabian, na reprografia em que trabalha, localizada no bloco de História da UFAM

Fabian José Garice Coronado é um desses venezuelanos. Aos 23 anos, ele deixou trabalho e estudos no seu país para buscar uma vida melhor em Manaus. Ele conta que sofreu perseguição política ao manifestar-se contra o governo. Ele e seus amigos foram fichados pela Polícia Federal da Venezuela e, por isso, corriam risco de sofrer perseguição ou mesmo violência.

Quando um dos seus amigos manifestantes foi preso, Fabian temeu que o mesmo acontecesse com ele. Além da perseguição política, a situação econômica era um grande empecilho. Mesmo trabalhando muito e fazendo horas extras, não conseguia o suficiente para se manter. Pela proximidade, ele escolheu Manaus.

Fabian hoje trabalha em um reprografia situada no Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Ele vive com visto de refúgio obtido na Polícia Federal, em Manaus. Ele conta que viver aqui é mais fácil, tendo em vista não só a proximidade, mas também o apoio da comunidade em que vive. Fabian veio sozinho, mas conta que seus familiares seguiram o mesmo caminho.

“Tem famílias que vão para a França, outras para os Estados Unidos, Colômbia, Chile e Panamá”

Apesar de ter emprego, ele diz que não tem muitas expectativas sobre sua estada no país, por levar aqui uma “vida limitada”. Ele teme que o Brasil um dia os mande embora.

Dina é graduanda em Direito na Faculdade Nilton Lins.
Dina Carmona, natural da Colômbia, tem 22 anos. Finalista do curso de Direito na Faculdade Nilton Lins, ela está em Manaus desde 2011 como refugiada. Acompanhada de sua mãe e seus dois irmãos mais novos, deixou seu país de origem devido a um conflito armado. Sobre a sua saída conta:

“Foi o conflito armado. A gente teve que sair de lá devido a violência, ficou muito perigoso, estavam sequestrando, cobrando vacinas, e as pessoas que não pagavam, eles matavam. Decidimos então ir embora”

Acerca de sua transição até chegar ao Brasil, relata que primeiro chegaram a Bogotá, onde ficaram por três meses, indo posteriormente morar em Letícia, fronteira com o município de Tabatinga (AM), onde ficaram por três anos. Contudo, não puderam continuar vivendo lá como pretendido, pois a guerrilha também havia chegado à cidade de Letícia.

“E como Manaus era mais perto, minha mãe decidiu que era melhor virmos para cá. Mas nunca tivemos a ideia de vir de imediato para o Brasil. A ideia era morar em Letícia, por ser longe, lá era tranquilo, mas isso mudou. De lá fomos para Tabatinga, atrás de uma igreja onde tinha um padre que encaminhava para Manaus os refugiados. Quem nos recebeu aqui foi a Arquidiocese de Manaus, que ajudou junto com a ACNUR.”

A família de Dina recebeu o apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados — ACNUR, que os direcionou para uma casa de apoio ao imigrante e às pessoas sem teto chamada Jacamin (Casa do Imigrante), onde permaneceram por três meses. Nesse tempo, Dina descreve o auxílio da ACNUR: “Eles nos encaminhavam durante todo o processo. Falavam que tínhamos de ir a Polícia Federal fazer todo um procedimento. Quando chegamos a Manaus, não tínhamos onde ficar. Daí eles [ACNUR] pagaram um hotel, três ou quatro dias, deram alimentação e ajudaram com custo de aluguel por dois meses, enquanto a minha mãe procurava emprego.”

Quando perguntada sobre como era o abrigo, responde:

“Era horrível! Havia um quarto de mulheres e um quarto de homens, você tem de dividir espaço com gente que acabou de sair da cadeia, com doida que não tem família. Era horrível.”

Sobre como foi acolhida em Manaus, afirma que sua família foi bem recebida e que não sofreu nenhum tipo de preconceito. Suas expectativas no Brasil são de se formar e trabalhar na área de Direitos Humanos. Diz que pretende voltar ao seu país de origem apenas a passeio.

Imigrantes e refugiados — O geógrafo Ricardo José Batista Nogueira explica que a questão principal quanto a vinda de imigrantes para Manaus está na espontaneidade ou não da imigração, pois tanto os imigrantes quanto os refugiados estão traçando um roteiro, um trajeto, uma mudança de lugar, uma mobilidade.

Porém, segundo Ricardo José, as motivações é que acabam sendo diferenciadas. Entre os refugiados é possível observar problemas associados a ideologia, a política, a diferenças étnicas, enquanto que no caso dos imigrantes encontra-se uma questão mais espontânea, como a busca por melhores condições de vida.

‘’Tanto refugiados quanto imigrantes não se distanciam de seus países de origem. No caso dos haitianos, o país vizinho, a República Dominicana, não é receptivo aos haitianos, ao contrário do Brasil que se ofereceu para receber esses refugiados e fizeram um percurso complicado. Eles passam pela cidade de Tabatinga e vem até Manaus. No caso da Venezuela, o agravamento da situação política fez com que a população viesse para os estados vizinhos, Colômbia ou Brasil, principalmente até Manaus, que está a 2.000 km de distância de Caracas, capital da Venezuela’’, explicou Ricardo.

O geógrafo afirma que a vinda de estrangeiros para o Brasil não é um fenômeno tão novo, entretanto, com os últimos acontecimentos políticos, o processo vem se intensificando. Atualmente, tanto a classe média quanto as classes mais baixas estão saindo cada vez mais da Venezuela. É nesse momento que vemos a diferença entre refugiados e imigrantes, que notamos a necessidade de sair do país de origem para sobreviver, ao contrário de um imigrante que não apresenta certa urgência para sair e pode voltar para o país de origem quando quiser.

De acordo com a Convenção de 1951, relativa ao Estatuto dos Refugiados, são refugiados as pessoas que se encontram fora do seu país por temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou participação em grupos sociais, e que não possam — ou não queiram — voltar para casa. Definições mais amplas passaram a considerar como refugiados as pessoas obrigadas a deixar seu país devido a conflitos armados, violência generalizada e violação massiva dos direitos humanos, como também a ocorrência de catástrofes naturais que impedem o refugiado de permanecer ou retornar a seu país de origem.

Ηaitianos

O ano de 2010 marcou o início da imigração haitiana no Brasil. A entrada de haitianos via Tabatinga, interior do Amazonas, começou a ser notada em fevereiro de 2010, logo após o terremoto que sacudiu violentamente o Haiti, e em particular a capital, Porto Príncipe.

A presença de haitianos no Brasil era quantitativamente inexpressiva até então. Após o ocorrido, os haitianos passaram a ver o Brasil como um ponto de referência, o que desencadeou uma grande onda de imigração do Haiti. O Brasil passou a ser um dos destinos preferenciais desses imigrantes, dada a dificuldade de entrada nos países de imigração tradicional (Estados Unidos, Canadá, República Dominicana, França, etc.).

Muitos possuíam o rumo definido, seguindo o caminho já tomado por familiares e amigos. Outros pareciam abertos a qualquer possibilidade, sem muita noção de como era o Brasil e do que encontrariam pela frente: uma situação de vulnerabilidade, falsas promessas ou fraudes.

O Brasil exigia visto dos haitianos que entravam no país, no entanto, o documento não era dado pelas autoridades consulares brasileiras no Haiti. Só em 2013, o governo liberou a Embaixada Brasileira do Haiti a emitir o número de vistos que conseguissem. Atualmente alguns haitianos conseguem obter seu sustento através de trabalhos informais, como venda de picolés e como pedreiros e diaristas. Apesar disso, muitos ainda se encontram isolados socialmente.

Josué durante expediente na Fundação de Medicina Tropical, em Manaus

Josué Nélio Brutus é formado em técnico de análises clínicas e acadêmico de farmácia na Universidade Nilton Lins. Trabalhava como técnico no Haiti, entretanto, veio para Manaus, onde está há cinco anos, em busca de melhores condições de vida após o terremoto que assolou seu país.

Através de pesquisas, optou pelo Brasil ao observar que o país detinha a melhor educação da América Latina naquele momento e por estar aberto a receber refugiados vítimas do terremoto que atingiu seu país.

Josué Nélio trabalha atualmente na Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, localizada no bairro Dom Pedro, no setor de agência transfusional. Quanto ao idioma, ele afirma que não foi difícil a adaptação ao português, ao perceber que o idioma assemelha-se a uma mistura do espanhol e do francês, aos quais já estava familiarizado por ser fluente em três línguas: inglês, francês e espanhol.

Assim como muitos imigrantes que chegam ao Brasil clandestinamente, Josué enfrentou muitas dificuldades para entrar no país por falta do visto. Fez uma viagem ao Peru. Lá foi rumo a cidade de Iquitos, onde, em seguida, pegou um barco até Tabatinga, na região do Alto Solimões, aguardando no município por quatro meses à espera da liberação de um protocolo para poder entrar em Manaus. Quanto à formalização para se tornar imigrante no Brasil, conta:

“Antes era muito demorada, levando em torno de um a um ano e meio. Quando se entra clandestinamente no Brasil, sem passaporte, o processo é muito demorado, mas possuindo visto o processo de legalização é mais rápido para obter o visto permanente no Brasil.”

Em Manaus, a Paróquia de São Geraldo dedica-se a imigrantes e refugiados desde 2011, sob a coordenação do Pe. Valdecir Mayer Molinari. Integrada a Casa do Migrante Jacamim, localizada no bairro Flores, e a Casa de Apoio à Crianças Filhas de Haitianos, que fica no bairro São Geraldo, atua na arrecadação de doações, oriundas da solidariedade da população para com esses imigrantes e na distribuição de orientações sobre onde esses imigrantes devem buscar abrigo, trabalho, especializações e como tirar o visto para sua permanência na capital.

Inicialmente acolhia especificamente uma grande quantidade de haitianos. Mas, nos últimos meses, tem aberto suas portas para pessoas de diversas nacionalidades, principalmente venezuelanos, peruanos, cubanos e colombianos.

Valdecir nos conta um pouco sobre a Casa do Migrante, os recursos governamentais que auxiliam migrantes em Manaus e suas necessidades, confira:

A Paróquia São Geraldo também aceita doações por meio de depósito em conta: banco Caixa Econômica Federal, agência 1525, conta 2046–2, operação 003.

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Karem Canto

Karem Canto

Ela se irrita fácil, sempre tão orgulhosa e exigente. Ela gosta de se sentir livre. Meio esquisita, sabe? Do tipo que vai além de falar sozinha, e para ela isso é tão normal. Mas sabe aqueles momentos de puro bom humor, sorrisos bobos, palavras sinceras e eterna ouvinte? Acredite, todos eles compensam...
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