#PETRepórter: a engenharia do barco-escola Samaúma

Posted on Posted in Jornalismo

 engenheiro naval José Cláudio Braga, em frente ao barco-escola Samaúma II, durante sua parada em Manaus

O PETCom acompanhou o engenheiro naval José Cláudio Braga, diretor da Braccon Engenharia,  durante sua visita ao barco-escola Samaúma II, projeto de sua autoria. O barco tem como principal objetivo levar educação técnica a localidades remotas da região amazônica.

  • Para que serve o “Samaúma”? Qual a sua importância para a Amazônia?

O principal objetivo do barco é a difusão de cursos técnicos promovidos pelo SENAI, que tratam de educação e capacitação das populações ribeirinhas e sua inserção no mercado de trabalho, estimulando o desenvolvimento da região amazônica. O Samaúma oferece cursos como mecânica, informática e panificação, que podem ser aplicados dentro ou fora da estrutura do barco. No projeto, há um espaço destinado aos kits de aprendizagem para as aulas em terra.

  • Quais ambientes formam o barco? Quais são suas respectivas funções?

O barco está dividido em quatro conveses. O primeiro, localizado no interior do casco, abriga a praça de máquinas, um depósito, as oficinas das aulas de mecânica, os tanques e compartimentos responsáveis pela flutuação do barco. No convés principal, estão localizadas as salas de aula de informática e gerais – as quais, se dispostas de maneira apropriada, podem ser usadas como auditório -, a secretaria, o laboratório de tratamento de água, sala para capacitação de professores e uma cozinha industrial. No convés superior, estão o refeitório, uma área multiuso, as suítes que abrigam os tripulantes e professores e, na proa, o comando do barco. No 1último convés, há uma área de convivência, a caixa d’água e o gerador de emergência, ambientes nos quais também são ministradas aulas práticas de alguns cursos.

imagem-2

Parte da cozinha usada durante o curso de Panificação, promovido no barco.

imagem-3

A área multiuso do barco, no convés superior

imagem-4

Sala de aula usada no curso de Informática

imagem-5

A sala de máquinas, onde são realizadas aulas dos cursos de Mecânica. No lado direito, as duas janelas servem para os alunos observarem o processo de tratamento de resíduos sólidos.

  • Em relação à acessibilidade, como o Samaúma foi projetado?

Esse é o primeiro barco na região onde a pessoa portadora de necessidades especiais tem acesso total a todas as áreas do barco, podendo locomover-se sozinha por todos os ambientes, já que todos os conveses estão ligados por um elevador.

  • Quais foram os maiores desafios e preocupações na elaboração do projeto?

Quando ganhamos o projeto, o proprietário determinou que seguíssemos as normas do 2Green Building Council (GBC) e da 3Escola de Alto Desempenho. O problema é que, quando examinamos tais normas, observamos que não havia nenhuma determinação específica para a construção naval, todas eram voltadas para a engenharia civil. Além disso, vimos que as regras existentes não condiziam com a realidade do ambiente amazônico, pois foram idealizadas no hemisfério norte.

Por exemplo, uma das normas consultadas dizia que deve-se utilizar a maior quantidade possível de vidro na construção, para regular a temperatura ambiente. No entanto, na Amazônia, a alta incidência de raios solares nos vidros faria com que os ambientes tivessem temperaturas pouco controláveis, ou seja, teria efeito contrário ao proposto na norma. Desse modo, percebemos que teríamos que seguir a base de concepção da regra, mas não exatamente a norma em si. Para resolver o problema de controle da luminosidade e da temperatura interna, o ideal para a nossa região é diminuir a quantidade de vidro no projeto para que se consiga maior controle da troca de calor nos ambientes do barco. Assim, nossas premissas básicas foram conseguir eficiência térmica, tratamento de água, baixo consumo de energia e baixa eliminação de resíduos sólidos no meio ambiente.

  • Quais concepções interessantes do projeto você pode ressaltar?

Seguindo essas premissas básicas, percebemos que todas as soluções se interligavam, e uma mudança em alguma dessas soluções poderia inviabilizar todo o projeto. Por exemplo, na pintura do Samaúma escolhemos utilizar a 4nanotinta, que é mais cara e pouco usada na construção naval. Esse tipo de tinta possui propriedades que reduzem em até 5oC a troca térmica entre as áreas interna e externa, o que facilita o controle da temperatura pelos tripulantes e professores e faz com que ar-condicionados muito potentes não sejam necessários. Com isso, o projeto previa uma grande diminuição na energia necessária para a operação do barco. Mesmo assim, o projeto foi várias vezes questionado, pois aqueles que não o estavam elaborando não enxergavam essa interdependência das soluções, priorizando comparações entre orçamentos.

Outro ponto a se ressaltar é que o MDF foi abolido completamente do projeto, pois possui 5formaldeído, substância comprovadamente cancerígena, em sua composição. Para isso, tivemos que buscar novas alternativas, já que o MDF é bastante utilizado no setor naval.

Além disso, é importante ressaltar que, por se tratar de um barco-escola, era necessário que todos sistemas instalados pudessem ser usados para fins didáticos, de modo que os alunos os usassem para observar, na prática, todos os processos. Por exemplo, a caixa d’água possui passarelas que permitem a visualização de 6boilers e placas solares pelos alunos, cujo funcionamento é explicado durante as aulas.

  • Como foi elaborar esse projeto para você?

Foi um belo desafio porque, no decorrer do projeto, nos sentimos muito instigados a solucionar todos os problemas de desenvolvimento e execução. Desde o início, percebemos que o projeto requereria soluções interdisciplinares, então montamos uma equipe composta por profissionais de diversas áreas, como engenheiros, arquiteto, designer, biólogo, geógrafo e pessoas que conhecessem de perto o cotidiano dos ribeirinhos, só assim conseguiríamos alcançar soluções eficazes e defender o projeto de questionamentos sobre a viabilidade de materiais 7sustentáveis. Tivemos que pensar nas soluções e nos conhecimentos multidisciplinares como parte de um todo e, para isso, foi necessário pesquisar alternativas para vários materiais de uso comum.  O Samaúma torna-se ainda mais interessante por sua imensurável função social. O projeto, por não visar lucro, nos permitiu maior liberdade em descobrir, interagir e compartilhar novos conhecimentos.

1último convés: Na área naval, o ‘piso’ de um barco é denominado convés. Um outro nome para o convés mais alto é convés tijupá. O casco, por sua vez, é a grande área inferior do barco.

2Green Building Council: ONG cujo objetivo é estimular a construção sustentável no Brasil;

3Escola de Alto Desempenho: é um projeto da ONG Vitae Futurekids que visa um maior desenvolvimento da educação brasileira, promovendo projetos inovadores para o acesso e melhorias na abordagem de todos os níveis educacionais;

4nanotinta: Segundo o fabricante, a nanotinta pode promover uma menor troca térmica entre os ambientes interno e externo, fazendo com que as temperaturas se mantenham mais amenas e constantes no interior do barco. Outro aspecto apontado por José Cláudio é que essa tinta é fabricada somente em branco ou cinza, tendo sido usada na primeira demão no barco e, por cima, tintas coloridas próprias da construção naval, o que não diminui o efeito da nanotinta.

3formaldeído: A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer aponta o formaldeído (também conhecido como metanal), um dos produtos químicos mais utilizados em diversos setores da indústria, como cancerígeno para seres humanos. No caso do MDF (Medium Density Fiberboard), um composto de  fibras de madeira aglutinadas, a cola contém formaldeído.

4boilers: Boilers (‘fervedores’, em tradução livre do inglês) são estruturas que iniciam o tratamento de água por sua fervura, além de possibilitarem a instalação de chuveiros elétricos – os quais não foram incluídos no projeto, pois gastariam muita energia – e de certas atividades na cozinha do barco.

5sustentável: Para que um produto seja considerado sustentável, todo seu ciclo de produção e consumo deve respeitar e preservar preceitos ecológicos e sociais;

(Visited 17 times, 1 visits today)
The following two tabs change content below.
Cecília Costa

Cecília Costa

Quando criança, dizia que sua profissão seria “Leonardo da Vinci” porque ele fazia de tudo um pouco. Já quis ser astronauta, cientista, bailarina e antropóloga e, hoje, é estudante do curso de Jornalismo da UFAM. Ama contar histórias e, assim, nunca conseguiu ficar com caneta e papel nas mãos sem escrever, rabiscar e transbordar.
Cecília Costa

Posts Mais Recentes por Cecília Costa (Ver Todos)

Comentários

pessoas comentaram

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *