Marcelo e a ópera

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Os alunos Rômulo de Sousa Silva e Rita de Cássia Souza, do sétimo período do curso de Comunicação Social- Jornalismo, da UFAM, tiveram a oportunidade de conversar pessoalmente com o músico Marcelo de Jesus, que atualmente comanda a Amazonas Filarmônica e a Orquestra de Câmara do Amazonas.

Na disciplina “Técnica de Reportagem, Entrevista e Pesquisa em Jornalismo I (Jornal)”, os estudantes puderam conhecer mais sobre o trabalho do renomado maestro e o PETCOM traz na íntegra essa entrevista.

O maestro Marcelo de Jesus nasceu na capital São Paulo, no dia 20 de outubro de 1971. Lá passou boa parte de sua vida, teve suas primeiras experiências musicais e morou até concluir o bacharelado em Música na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). Ainda na cidade natal formou-se em Composição, Regência e Piano. Foi quando decidiu se especializar em ópera na academia Santa Cecília, em Roma, na Itália. Também passou alguns anos em Nova Iorque, onde cursou Regência de Música e Piano na Manhattan School.

Rômulo: Você toca piano desde a infância. Isso veio de alguma tradição de família?

Marcelo de Jesus: Não, não há nenhuma tradição de família na Música. Mas meu pai escutava bastante coisa, e isso herdei, pois lembro de ter experiências sonoras, pois ele ouvia muito vinil.

Rômulo: Quando você começou a tocar algum instrumento?

Marcelo de Jesus: Não tenho essa memória, mas minha mãe conta que aos cinco anos fui à casa de uma amiga dela que era pianista, e parti direto pro piano e fiquei batendo, querendo mexer. Quando cheguei em casa, disse que queria um piano, e eles disseram “Tá bom, vamos te dar um piano”, aí compraram um daqueles de brinquedo. Eu chorei a noite inteira, fiz um escândalo dizendo “Isso não é piano.” (risos), pois eu queria um piano, que aquilo não era um piano, era um brinquedo. Aí minha mãe foi na casa dessa amiga, pois ela era professora de piano, tinha vários pianos e estava se desfazendo de um. Elas entraram em um acordo, daí minha mãe ficou pagando uns quatro anos, foi um piano muito importante pra mim e é um piano que está na casa dos meus pais ate hoje. Aí fui estudar com essa amiga da minha mãe, que era professora de igreja. Na segunda aula ela falou para minha mãe “Olha, eu não vou dar aula para ele não. Coloque ele numa escola de música, ele não é pra ficar tocando numa igreja.”. Foi meu primeiro start da minha vida musical, pois ela poderia ter me deixado ali, como eu era criança poderia ter perdido a vontade. Como ela descobriu eu e nem minha mãe vamos saber, pois infelizmente ela já faleceu, e essa história nunca ficou muito clara pra mim, o que fez ela me dispensar na segunda aula: ou eu era muito chato (risos) ou realmente ela viu algo em mim.

Então fui para um conservatório de música, que é o Bela Bartok, onde fiz estudo de teoria de música, lá mesmo uma das minhas professoras disse “Olha, você tem que fazer aula particular com professores mais acima.”. Ela conhecia um grande professor que era o Homero Magalhães, um pianista, já falecido também, e me levou até a casa dele. Toquei pra ele, e ele disse “Ah, vamos começar se você estiver afim.”, então comecei a estudar com ele.

Rômulo: A partir de então, como foi a sua primeira experiência profissional?

Marcelo de Jesus: Na graduação, escolhi Música, claro. Numa apresentação da universidade, o maestro Luíz Fernando Malheiro foi assistir, eu deveria ter uns 16 ou 17 anos, e disse “Vai para o Teatro Municipal de São Paulo semana que vem.”, e eu bem nerdzinho disse “Ah, tá bom. Eu vou.”, e eu nem sabia quem era ele. Meu pai me levou, cheguei lá e ele disse “Quero que você trabalhe aqui com a gente.”, aí eu “Trabalhar do quê?”, ele “De pianista e repetidor, ora.”, que é um pianista que trabalha com cantor. Lá foi uma grande escola pra mim, onde eu tive contato com grandes cantores do auge da ópera, como a Eva Marton.

Rômulo: E você sempre quis se dedicar à música mesmo?

Marcelo de Jesus: Sim, nunca tive dúvidas. Na minha escola mesmo, era um semi-internato em que você podia fazer humanas ou exatas, aí escolhi fazer Patologia Clínica, que sou formado também, é um outro lado (risos). Me formei na Marcelo Tupinambá, uma faculdade em São Paulo, onde fiz musicoterapia, era o único curso que tinha no Brasil e tal. Me formei, mas não acredito como terapia principal, mas sim de apoio. Tive experiências maravilhosas e horríveis nessa área. Fiz uma semana de residência no hospital Psiquiátrico Pinel, e fui com meu violãozinho. Fiquei com medo de a qualquer momento algum pular em mim (risos), foi bem tenso e vi que aquilo não interferiu de nada na vida deles, diferente de uma casa de autistas que fui, pois vi resposta deles.

Rômulo: Na sua adolescência/juventude tinha outros gostos, além da música, que hoje em dia influenciam na carreira? Literatura? Filmes?

Marcelo de Jesus: Sim, bastante. Eu sempre fui educado com o máximo de influências possíveis, então eu ouvia de tudo. Minha mãe é professora de português e latim, então eu lia de latim até gibi da Mônica, que era obrigatório a gente ler um por semana, pelo lado lúdico, entendeu? Tínhamos que ler também o livro do Machado de Assis, tinha umas regrinhas. Eu digo pra minha mãe que eu a culpo por ser um pouco perturbado (risos), pois era muita informação para uma criança, mas como ela diz “Você gostava, se eu visse que você não gostava eu parava.”. Mas eu sempre tava pedindo, até informações nerd. Não que tudo que eu queria eu podia, mas eu tinha uma certa liberdade pra poder me manifestar, uma liberdade de pensamento.

Rômulo: Pulando um pouco, como você veio parar aqui em Manaus?

Marcelo de Jesus: É um grande pulo né (risos). Eu trabalhei em São Paulo, com os grandes maestros daquele tempo. Tinha cabelo verde, era punk, tipo de vitrine (risos) sendo uma outra forma de expressão. De lá fui pra Itália e fiquei fazendo essa ponte. Fui pro Municipal do Rio de Janeiro, fiquei trabalhando por lá um tempo, e lá do Rio o mestre Malheiro em 1999 foi convidado para dirigir o festival aqui, e aí me chamou e aí eu falei assim “Manaus?”. Aí fiquei “O que conheço de Manaus? Teatro Amazonas e Encontro das Águas”, mas aí falei pra ele “Ah, eu vou né”. E quando eu cheguei em Manaus e vi o teatro, eu tive um twist “Meu Deus, como pode?”. Em 1999 não tinha nem McDonalds em Manaus, não que eu frequente, mas só pra dar um parâmetro como era. Ficávamos do hotel Tropical pra cá, e a estrada que ligava não tinha quase nada. Daí viemos pro primeiro e pro segundo, e ele foi convidado para assumir a Filarmônica. Aí em 2003 o secretário me ofereceu a Orquestra de Câmara do Amazonas, pra ser titular. Aí eu falei “Significa mudar pra cá.”, eu já tinha o trabalho no Rio, mas daí pensei “Ah, você quer saber? Eu vou!”. Na época eu não tinha muita consciência de “o porquê” de que eu estava vindo, só sei que eu me sentia bem e tinha a liberdade que eu sempre quis. O grande trunfo que tivemos nesse caminho até onde a gente está, é que sempre tivemos uma liberdade artística da Secretaria de Cultura do Amazonas, e isso é uma característica daqui. Temos a liberdade de fazer concerto daqueles que eu faço, de eu me pintar de David Bowie ir para o palco, entendeu? Isso em São Paulo ia soar “Ah, quer se aparecer.”, tem tantos sermões, e aqui não, a gente faz porque é natural, não é pra se aparecer, é porque pode e as pessoas gostam e aceitam. Sempre eu sou incentivado a fazer mais, e não menos, tanto do público de fora, quanto das pessoas que trabalham comigo. Ficam me perguntando por aí “O que você vai apresentar da próxima vez?”, aí eu falo “Calma gente, vamos com calma.” (risos). Eu sempre fico antenado no público, vendo as notícias, o que eles gostam. As pessoas vêm aqui pra assistir.

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Rômulo: Como surgiu a ideia de apresentar concertos com músicas mais contemporâneas, trilhas sonoras?

Marcelo de Jesus: Começou lá em 2005, no segundo ano que cheguei, foi o primeiro crossover aqui em Manaus que era com Raízes Caboclas. Daí todos ficaram “Nossa, vão misturar orquestra com música popular, pode isso?”. Claro que pode. São níveis diferentes, mas estamos falando da mesma coisa: é música. A partir daí eu saquei e tive o apoio da secretaria que existia público pra isso. Aí foi se diversificando, a gente na verdade só abrindo o leque, pois esse leque é gigantesco. Quando a gente fez lá o Queen, que ainda é uma coisa calma, só que levamos a orquestra, fez sucesso? Fez! Lembrando que orquestra não é pra isso, orquestra também faz isso. Nossos concertos da série Guaraná são concertos tradicionais com sinfonias de Beethoven e com repertório de solistas. Depois que aumentamos as opções de repertório, o público também aumentou. O StarWars foi outro sucesso, sendo que já tínhamos feito antes, só que ninguém tinha sacado. O que fizemos foi apelar um pouco mais forte, então a gente falou “É StarWars, então vamos focar somente isso.”. Mas antes do StarWars vamos mostrar peças clássicas, vamos mostrar que o StarWars veio daqui, que foi Os Planetas, do Gustav Holst, então sem querer as pessoas associam. Então ficamos sempre mesclando as coisas.

Rômulo: Há pouco você esteve com a Amazonas Filarmônica no Rock in Rio Amazonas Live, realizado em Manaus e contou com a participação do renomado tenor Plácido Domingo. Conte-nos um pouco sobre esta experiência.

Marcelo de Jesus: Estava tanto a Filarmônica quanto o Coral do Amazonas. Ele foi ótimo, por duas coisas bem importantes, uma foi que: levamos o nome do estado, da secretaria e de todo esse trabalho de quase 20 anos para o mundo, pois não era pra Filarmônica tocar, era pra vir a Orquestra Sinfônica Brasileira, do Rio De Janeiro, e eles já tocam com o Rock in Rio há um tempão, e eles que vinham. Numa conversa com os diretores da orquestra de lá com os do Rock in Rio, o diretor da orquestra disse “Olha, em Manaus tem uma orquestra excelente.”, ponto. Claro que o Rock in Rio não vai colocar dinheiro numa coisa onde se sabe que não vai ter retorno artístico. Pelo menos, provavelmente eles pesquisaram sobre nós e viram que nossa orquestra já fez várias apresentações em 20 anos. Daí chamaram a Orquestra Filarmônica do Amazonas para o evento. Nosso segundo trunfo foi ter levado o Cláudio Santoro para todo o mundo, porque sempre que se fala em música brasileira, se fala em quê? Vila Lobos, etc. Nós que estamos aqui em Manaus temos meio que obrigação levar o nome do Cláudio Santoro o máximo que a gente puder. O resto de estar com os demais ícones, é somente um plus, mas a visibilidade que tivemos no mundo inteiro, que foi o trabalho da secretaria e levar o nome do Cláudio Santoro foi o mais importante.

Rômulo: Para finalizar, tem algo que você ainda pretende realizar?

Marcelo de Jesus: Claro, existe sim! Só que não gosto de falar, planejar, essas coisas. Existem algumas composições minhas que ainda quero mostrar, só estou esperando o momento certo.

Fotos: Cássia de Souza
Reportagem e Produção: Rômulo de Sousa e Cássia de Souza

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Iolanda Ventura

Iolanda Ventura

Sempre ouviu lhe dizerem: "Nossa, você escreve muito! Como consegue fazer tanto texto? Não cansa não? Escolher jornalismo foi a prova que não cansa de escrever. Ela já tinha sido escolhida pelo curso e não sabia. Gostava de muitas coisas diferentes e a indecisão era grande. Quando a ficha finalmente caiu viu para que realmente tinha vocação e que de tudo que gostava Jornalismo tinha um pouco. Até chegar em jornalismo demorou, mas ainda bem que chegou.
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