Chico Mendes- Crime e castigo

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Através de uma série de depoimentos, entrevistas e demais informações coletadas, o jornalista Zuenir Ventura escreve uma das obras que melhor retrata o cenário da luta ambiental no Brasil. Em seu livro “Chico Mendes- Crime e castigo” o autor traz não só a figura do líder seringalista Chico Mendes como mostra a realidade e todo o contexto da luta para se fazer justiça em um lugar onde ela não tem vez. Por meio de uma reportagem notável e apurada Zuenir Ventura objetiva mostrar uma realidade não vista por muitos brasileiros.

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Um dos mais importantes ambientalistas brasileiros: Chico Mendes

O livro é dividido e três partes e foi separado de acordo com os momentos da história. Elas são: “O crime”, “O castigo” e “Quinze anos depois”.

A primeira parte, “O crime”, possui doze capítulos. Nela o leitor se depara com a causa seringalista, com o contexto da cidade de Xapuri, a luta entre os seringueiros e fazendeiros e o ponto alto é o momento da morte do líder Chico Mendes. Era o ano de 1988, no mês de dezembro. O seringalista estava em sua casa, com a esposa Ilzamar, os dois filhos, Sandino e Elenira, e os dois companheiros seguranças, o cabo Roldão e o soldado Lucas. Chico Mendes já previa sua morte, ele tinha plena consciência de como sua ação contra os abusos ambientais dos fazendeiros estava ganhando repercussão internacionalmente e o quanto isso incomodava os latifundiários. E foi justamente essa causa que motiva Darci Alves a se dirigir à casa de Chico nessa noite e escondido no quintal da casa dispara um tiro que não foi resistido. Era dia 22 de dezembro de 1988. Chico previa que morreria até o dia 30 daquele mês. A partir desse momento a rotina da cidade de Xapuri muda significativamente e o Brasil finalmente toma conhecimento sobre a realidade vivida na localidade, através do tiro que foi ouvido no mundo todo (como Zuenir descreve).  Nessa parte o autor relata o que se sucede após o assassinato do líder seringalista. Esse acontecimento atraiu olhares do Brasil e do mundo para o Acre, mais especificamente Xapuri. Vários jornalistas e outros interessados se dirigem ao lugar e pessoas mais próximas ou ligadas a Chico de alguma forma têm que lidar com o assédio da imprensa. Além desses, há ainda as produtoras nacionais e internacionais interessadas na transformação da vida de Chico Mendes em filme. São retratados muitos personagens, entre eles a já mencionada esposa Ilzamar. O objetivo de Zuenir não é fazer uma biografia de Chico Mendes, mas através de alguns relatos se constrói um perfil dele. E dona Ilzamar é uma das pessoas que revelam um pouco sobre ele e mostra melhor quem era Chico, não só o líder, mas esposo e pai. Há ainda dona Eunice, ex-mulher de Mendes, que também revela sobre o ex-marido e sua figura representa a de muitos em uma cidade como Xapuri. Entre os relatos mais marcantes está o de Genésio Ferreira, de apenas catorze anos. Ele vive na fazenda de Darly Alves, pai de Darci e inimigo de Chico. É muito maltratado e sabe de muita coisa, sendo uma testemunha-chave no julgamento dos criminosos.  No segundo momento, “O castigo”, se encontram os julgamentos e entrevistas dos culpados pelo crime, realizadas tanto por Zuenir como por profissionais envolvidos na investigação do crime. Por saber que poderia ser morto, Chico Mendes deixa documentos e provas apontando os possíveis culpados, mas nas investigações pouco disso foi aproveitado. A terceira e última parte, “Quinze anos depois”, retrata a volta de Zuenir Ventura ao Acre, mostra como se encontra o lugar após todo o acontecimento e repercussão e como se encontram os principais envolvidos anos depois.

Em seu livro, Zuenir Ventura sem dúvida esclarece bastante sobre a causa seringalista no Acre. No Brasil o cenário das causas ambientais é diversificado e não é recente. Envolve muitos conflitos, perdas e disputas. No caso do Acre não é diferente. Ao relatar a morte de Chico Mendes o autor revela bem mais que o assassinato somente. O leitor tem um esclarecimento sobre o que motivou o crime e passa a conhecer uma realidade pouco falada até então. Xapuri foi a prova de como o descaso das autoridades pode deixar que uma cidade toda seja manipulada pelos interesses de uma classe específica e que o sistema de repressão existiu e ainda existe em localidades mesmo após o fim da ditadura. À medida que avança em sua reportagem, Zuenir Ventura abre os olhos do leitor para a ação das autoridades no país. Há uma teia de corrupção estritamente relacionada aos interesses dos fazendeiros, que têm ao seu lado a polícia e até o poder federal.

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Autor da reportagem que posteriormente tornou-se o livro Chico Mendes: Crime e Castigo, Zuenir Ventura
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Iolanda Ventura

Iolanda Ventura

Sempre ouviu lhe dizerem: "Nossa, você escreve muito! Como consegue fazer tanto texto? Não cansa não? Escolher jornalismo foi a prova que não cansa de escrever. Ela já tinha sido escolhida pelo curso e não sabia. Gostava de muitas coisas diferentes e a indecisão era grande. Quando a ficha finalmente caiu viu para que realmente tinha vocação e que de tudo que gostava Jornalismo tinha um pouco. Até chegar em jornalismo demorou, mas ainda bem que chegou.
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