Hiroshima

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A história retratada pelo autor John Hersey se passa na cidade de Hiroshima, localizada no Japão. O ano era 1945, período em que ainda ocorria a Segunda Guerra Mundial. O mundo estava dividido em dois lados basicamente: Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e Aliados (Reino Unido, EUA e União Soviética).

Este viria a ser o último ano do conflito, que terminou com a vitória dos Aliados após o lançamento da bomba atômica pelos EUA sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Este ato levou à rendição do Japão e ao fim da guerra.

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Em 06 de agosto de 1945 a cidade de Hiroshima sofre o atentado que ficaria marcado na história e que seria motivo de muitos debates acerca do uso da bomba nuclear. Após um ano do lançamento da bomba John Hersey se dirige ao local e lá realiza uma admirável reportagem, com uma abordagem diferenciada que faz de seu trabalho o marco inicial do Jornalismo Literário.

A história é apresentada a partir da visão de seis pessoas atingidas pelos efeitos da bomba: Srta. Toshiko Sasaki, Dr. Masakasu Fujii, Sra Hatsuyo Nakamura, o padre Wilhelm Kleinsorge, Dr. Terufumi Sasaki e o reverendo Kiyoshi Tanimoto. Todos seguiam suas vidas na medida do possível em uma guerra, até o momento em que um clarão tomou conta da cidade e se fez um silêncio antes de tudo começar a desabar. A maneira escolhida por John Hersey para contar o fato, a partir da visão de seis pessoas, cria em sua reportagem um aspecto de história, semelhante à literatura. O desenrolar dos acontecimentos se dá de modo semelhante a um enredo e o autor assume o papel de narrador. Entretanto, ainda se observam traços jornalísticos em sua obra, como o rigor com a correspondência entre o que é dito e a realidade do acontecimento. Em virtude dessas características a crítica a configurou o trabalho como pertencendo ao Jornalismo Literário, gênero que até então não era utilizado. O uso desse gênero foi uma opção em que o autor teve êxito. Essa escolha torna a leitura mais dinâmica, mas sem perder o caráter realista.

Após narrar os minutos antes do lançamento da bomba atômica começam os relatos do autor sobre o que se sucede na cidade através das experiências vividas pelas seis vítimas. Nas redondezas mais próximas os atingidos morreram instantaneamente devido aos elevados calor e radiação. Nas localidades mais distantes os estragos também foram muitos, não só pela radiação que as atingiu, mas também pelo tremor causado pelo impacto da bomba, que explodiu antes de chegar ao solo. O cenário é de destruição: focos de incêndio, ruínas, feridos espalhados e sobreviventes em busca de socorro. Os efeitos da radiação são desconhecidos, até mesmo para os fabricantes da bomba. Hiroshima funciona como um teste de laboratório. Por não saberem do que se trata prestar socorro às vítimas é difícil, o estado em que se encontram não é comum. Médicos e enfermeiros se deparam com queimaduras gravíssimas, peles derretendo, fora os ferimentos causados pelos desabamentos. Somente alguns dias depois que a população de Hiroshima toma conhecimento do que se trata. O autor retrata bem esses momentos, passando a realidade para o leitor. A riqueza de detalhes aliada às falas de alguns personagens, mais a vivência dos seis protagonistas aproxima o leitor do atentado. Até certo momento o mundo sabia do desastre da bomba, mas superficialmente. Seus efeitos e demais consequências puderam ser vistas mais de perto por meio da reportagem de Hersey.

Após o choque físico veio o abalo psicológico. As cenas do atentado, a perda de tudo o que tinham, a reconstrução da vida e os efeitos pós-explosão deixaram marcas presentes até hoje nos habitantes de Hiroshima. Os hibakushas, como foram chamados aqueles que foram expostos à radiação e adoeceram tiveram dificuldades ao reiniciar suas vidas, as quais mudaram de curso. Os seis personagens centrais foram hibakushas e através do que aconteceu a eles pode-se observar quais foram as sequelas da radiação. John Hersey conseguiu retratar o drama dessas seis pessoas de modo fidedigno sem deixar que os sentimentos tomassem conta da narrativa e retirassem o ar de veracidade da reportagem, mas ao mesmo tempo não soou fria e distante. A imparcialidade não existe, mas o autor consegue um equilíbrio entre o relato próximo da realidade e o sofrimento das vítimas.

Quarenta anos depois o jornalista retorna e apresenta como estão as vidas dos seis hibakushas, que por conta da exposição à radiação levaram uma vida mais debilitada. Mesmo assim ainda conseguiram viver mais que o previsto pela Medicina. A sua reportagem adquire uma profundidade maior por ter seis visões diferentes e é relevante para que o mundo saiba o que se deu no dia 06 de agosto de 1945 e o que veio depois disso na cidade de Hiroshima.

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Iolanda Ventura

Iolanda Ventura

Sempre ouviu lhe dizerem: "Nossa, você escreve muito! Como consegue fazer tanto texto? Não cansa não? Escolher jornalismo foi a prova que não cansa de escrever. Ela já tinha sido escolhida pelo curso e não sabia. Gostava de muitas coisas diferentes e a indecisão era grande. Quando a ficha finalmente caiu viu para que realmente tinha vocação e que de tudo que gostava Jornalismo tinha um pouco. Até chegar em jornalismo demorou, mas ainda bem que chegou.
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