#PETRepórter: Amazonas é rota do tráfico de pessoas

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Rios são utilizados como rotas para o tráfico de pessoas com destino a Suriname, Guianas, Venezuela, Peru e Bolívia.

Por Bruna Santos, Danny Sullivan, Islla Pessoa e Larissa Cavalcante, especial para o Lab F5. Trabalho desenvolvido nas disciplinas de Webjornalismo e Oficina Básica de Jornal Impresso e Webjornal, dos professores Luis Mansueto e Mirna Feitosa, respectivamente.

As condições geográficas do Amazonas, incluindo sua vasta bacia hidrográfica, é um dos fatores que torna o estado um dos alvos para o tráfico de pessoas no Brasil. São mulheres, crianças, adolescentes e homens que são levados para exploração sexual, trabalhos forçados, casamento servil e remoção de órgãos.

No Amazonas, nove municípios possuem fronteiras fluviais, rodoviárias e até mistas com a Colômbia, Peru, Suriname, Guianas e Venezuela, em alguns casos bi-fronteiriços. Em 2013, a Polícia Rodoviária Federal identificou 1700 pontos no Brasil destinados ao tráfico de pessoas, em sua maioria em estados de maior malha viária e com fronteiras para o exterior.

Embora algumas das rotas tenham ganhado grande visibilidade através de mapeamentos, deixando inclusive de serem utilizadas, a realidade do tráfico de pessoas só tem crescido. A inacessibilidade por parte dos órgãos a muitas das rotas acaba enfraquecendo a fiscalização destes trechos, o que possibilita que as vítimas sejam facilmente levadas a outros países.

Com origens diversas, as rotas fluviais tem facilitado o acesso a outras regiões. Mesmo que algumas já sejam conhecidas, não há mapeamentos, já que a maior parte dos levantamentos são direcionados ao Brasil, e contemplam principalmente suas rodovias.

O Amazonas possui apenas quatro rodovias, enquanto sua bacia hidrográfica atinge quatro milhões de m², segundo a Agência Nacional de Águas. A ausência de um mapeamento destas rotas possibilita que elas sejam abertamente utilizadas para o transporte no tráfico de pessoas.

A compra de passagens nas embarcações não são fiscalizadas. Ao se direcionar ao porto de Manaus, é possível adquiri-las nas inúmeras barraquinhas localizadas por toda extensão das balsas, sem a necessidade de apresentar documentação de identificação na aquisição e comprovar parentesco dos acompanhantes. Logo, a irregularidade favorece a atuação dos aliciadores.

As grandes possibilidades de acesso, a fiscalização reduzida e a facilidade na aquisição de passagens para as embarcações são alguns dos fatores que inserem o Amazonas como origem, traslado e destino do tráfico de pessoas.

Rotas

O uso dos rios para o transporte tem se intensificado cada vez mais. O acesso às fronteiras os torna alvos do tráfico de pessoas. Um dos exemplos é o Rio Solimões, que possui nascente em Apurímac, no sul do Peru.

Algumas cidades do interior estão tão próximas às fronteiras que é possível atravessá-las á remo, como o translado de Benjamin Constant à Islândia, no Peru, a 50 metros pela foz do rio Javari, além das diversas rotas ainda não catalogadas. Há rotas que partem de Tabatinga para Caballococha, a duas horas de lancha da tríplice fronteira, de onde, seja de avião ou de barco, chegam à Iquitos –principal cidade da Amazônia peruana– e passam a ter acesso a linhas aéreas comerciais para todo o mundo.

Trechos com maior visibilidade como os que passam pela capital, a viagem pode durar pelo menos três dias, dependendo do tipo de embarcação, e passa por regiões povoadas, tornando o risco de ser descoberto maior. Chegando a capital, o trânsito é livre, especialmente para a Guiana e o Suriname, destinos muito usados pelos traficantes para exploração sexual.

Já com relação às rodovias, o Amazonas possui quatro que o conectam aos estados de Roraima, Pará, Acre, Amapá, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins e Rondônia, conforme levantamento de dados do Mapeamento dos Pontos Vulneráveis à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Rodovias Federais Brasileiras. Considerando a vasta hidrografia amazonense, as rotas fluviais ainda não foram catalogadas, o que favorece intensamente os deslocamentos para diversas regiões.

A dificuldade em se criar um banco de dados com informações unificadas e consolidadas sobre vítimas, rotas e criminosos é um dos entraves no combate ao tráfico de pessoas no Brasil. Fontes oficiais optam por não divulgar informações com receio de receber represálias e das informações demonstrarem a inatividade da instituição.

O silêncio: uma das principais causas da falha nas denúncias

Segundo a delegada titular da Delegacia Especializada de Ordem Política e Social (DEOPS), Catarina Saldanha, grande parte das vítimas se recusa a fazer a denúncia temendo futuras represálias. “Elas têm medo de nos contatar por que grande parte das vítimas são observadas, mesmo que de longe, pelas pessoas que as traficaram. Elas temem muito pela família, filhos, parentes e pessoas com grau de importância em suas vidas, pois sabem que estes podem ser afetados futuramente. Devido a isso, esse medo gera uma certa dificuldade para nossas investigações dos casos”, afirmou.

Assim, as vítimas acabam se sentindo intimidadas e ficam em silêncio. O medo que as cerca após o cárcere permanece por muito mais tempo que o usual, devido ao trauma causado pela experiência. As pessoas traficadas passam a pensar em suas famílias antes de tomar qualquer medida preventiva, pois uma parte delas é alertada que se “abrir o bico”, consequências virão posteriormente.

A delegada ainda alerta que todo o processo de investigação é feito em sigilo, que os dados da vítima serão integralmente guardados. “As pessoas que se dispõem a expor seu caso para nós passam por um sigilo total e absoluto, para que possamos obter dados ainda mais concretos durante a investigação. Apesar de poucas delas nos procurarem após a experiência de tráfico”, relata Catarina.


Amazonas: vítimas disfarçadas na negligência

Grande parte das vítimas não sabem que são traficadas ou até mesmo as pessoas sabem que estão na prática do tráfico. No Amazonas, é comum que famílias tragam parentes do interior para a capital para trabalho doméstico, o que segundo José, é considerado tráfico para fins de exploração do trabalho doméstico. As pessoas que se sentirem lesadas, podem denunciar esta prática e fazer com que o caso ocorra em menor escala no Estado.

De acordo com a gerente de enfrentamento ao tráfico de pessoas no Amazonas da Secretaria Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Maria José, o Estado conta com 12 postos de vistoria e denúncia espalhados nos mais diversos municípios do Amazonas. As vítimas são identificadas e passam por um acompanhamento psicológico, jurídico, assistência social e médica. “Quando identificadas, as vítimas passam por uma triagem e são acompanhadas para sua recuperação física e psicológica. Muitas delas chegam aqui bastante debilitadas e nosso papel é dar total assistência a essas pessoas para que elas tenham suas vidas reestruturadas aos poucos”, segundo Maria.

Ainda segundo José, os traficantes de pessoas são, na maioria dos casos, pessoas próximas à vítima. “Parentes próximos demais tendem a ser um dos principais vilões da história pelo simples fato da proximidade e total confiança entregue a eles. A maioria são homens na casa dos 30 anos e em algum momento da vida deles, já passaram por algum problema social. Identificamos também que os traficantes já foram vítimas em algum momento”, de acordo com a gerente.

Olhar preconceituoso

Mais de 700 mil mulheres e crianças sofrem ao nutrir, em sua maioria, a esperança de uma vida melhor, onde seus sonhos serão realizados. Embarcam, numa promessa, mas descobrem que foram enganadas. São trancafiadas e exploradas. Para 55% dos brasileiros, essa mulher, vítima do tráfico de pessoas, foi iludida porque buscava uma “vida fácil”.

Como mostra a pesquisa Percepção da Sociedade Sobre o Tráfico de Mulheres, realizada pela Associação Mulheres pela Paz e publicada pelo Instituto DataFolha em 2016, a noção de que a vítima do tráfico humano tem uma parcela de culpa pelo crime é respaldada pela metade da população brasileira, considerando que grande parte das vítimas são mulheres e crianças.

Para configurar tráfico humano é preciso haver recrutamento, transporte e alojamento de pessoas por meio de coerção, violência e cárcere privado, com a finalidade de explorar a vítima pela prostituição ou pelo trabalho, por exemplo. O crime constitui uma violação dos direitos da pessoa humana e um atentado a dignidade, a integridade e a liberdade do ser humano. Diversos são os fatores que levam este crime a grandes proporções.

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Karem Canto

Karem Canto

Ela se irrita fácil, sempre tão orgulhosa e exigente. Ela gosta de se sentir livre. Meio esquisita, sabe? Do tipo que vai além de falar sozinha, e para ela isso é tão normal. Mas sabe aqueles momentos de puro bom humor, sorrisos bobos, palavras sinceras e eterna ouvinte? Acredite, todos eles compensam...
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