Chatô – O Rei do Brasil

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Você sabe quem foi Assis Chateaubriand e a sua importância para o mercado da comunicação brasileira? Esta foi a pergunta feita pelo biógrafo e jornalista, Fernando Morais, quando começou a escrever sobre a vida deste ilustre personagem. Como parte de seu trabalho, Fernando passou a coletar as mais diversas informações sobre Chatô e publicou o livro “Chatô – o Rei do Brasil”, em 1994. O volume conta com 37 capítulos, mais de 700 páginas e uma narrativa romantizada da história do pequeno notável, além de fotografias que ilustram os capítulos conforme.

A obra ganhou uma adaptação para as telas no ano de 2015. O filme foi dirigido e produzido por Guilherme Fontes, com atuação de Marco Ricca, Andréa Beltrão, Paulo Betti, Leandra Leal, Eliane Giardini e Gabriel Braga Nunes.

Fernando Morais, autor do livro

Fernando Morais é um jornalista, biógrafo, político e escritor brasileiro. Sua obra literária é constituída por biografias e reportagens. Seu primeiro livro foi A Ilha, lançado em 1976, uma reportagem sobre Cuba que se tornou um dos maiores sucessos editoriais brasileiros. A obra se converteu num ícone da esquerda brasileira nos anos 70. Reeditada e ampliada em 2001, inclui um caderno de fotos e um prefácio em que Morais apresenta suas impressões sobre a ilha 25 anos depois da primeira viagem.

Fernando Morais, autor da obra

Além deste primeiro bem-sucedido marco, Fernando possui no currículo a obra Olga (1985), Corações Sujos (2000), Cem Quilos de Ouro (2003), Na Toca dos Leões (2005), Montenegro, as aventuras do Marechal que fez uma revolução nos céus do Brasil (2006), O Mago (2008) e Os Últimos Soldados da Guerra Fria (2011).

Quem foi Assis Chateaubriand?

Assis em uma viagem à Inglaterra

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo foi um dos precursores da inserção da televisão na América Latina e o “homem mais poderoso da imprensa no Brasil”, segundo a imprensa. Comandou 90 veículos na sua Rede Associados ou Condomínio Associados, incluindo emissoras de televisão, rádios, uma revista, uma agência de notícias, laboratórios farmacêuticos e jornais impressos.

Mas antes de alcançar tanta fama e prestígio, Chatô, como era conhecido, enfrentou uma série de “perrengues” (na linguagem do bom nordestino que era) até conquistar seu sonho: construir seu império da comunicação. Os capítulos do livro se organizam de acordo com a trajetória de vida de Chateaubriand.

Anos iniciais

Chateaubriand nasceu em 1892 na cidade de Umbuzeiro, interior da Paraíba. Filho de Francisco José Bandeira de Melo e Maria Carmem Guedes Gondim. Seu nome foi em homenagem ao santo Francisco de Assis, já que o mesmo nascera no dia dedicado ao santo. O nome Chateaubriand veio da admiração do avô pelo poeta e pensador francês François-René de Chateaubriand. O avô, José Bandeira de Melo, comprara uma escola em São José do Cariri na Paraíba e batizara com o nome Colégio François René Chateaubriand. Começaram a chamá-lo de “seu José do Chateaubriand” e depois passara a ser apenas José Chateaubriand.

Sua infância foi bastante conturbada, Chatô nascera gago, um equívoco para quem anos depois trabalharia no setor da comunicação. Ao completar sete anos, foi morar com o avô a fim de que fosse curado da gagueira. Entre idas e vindas da casa do avô, ele finalmente conseguiu curar seu problema.

O garoto se interessava por diversos assuntos desde cedo. Com o passar do tempo passou a estudar francês em casa e filosofia em um seminário numa associação católica de moços. Devoto dos filósofos alemães, achou uma mina de ouro abandonada em uma casa com vários livros que estavam em alemão. Logo, o garoto se dispôs a aprender alemão para poder compreender os assuntos. A língua lhe ajudou muito no futuro, pois o mesmo uma vez fora escalado para fazer uma série de reportagens na Alemanha pós Primeira Guerra Mundial. A série foi tão famosa que virou um livro de quinhentas páginas e o repórter ganhou notável admiração.

O início de uma nova era

Após um tempo, se mudou para Recife. Terminou o ensino médio ali e ingressou na Faculdade de Direito de Recife. Desde cedo se interessou pela carreira de jornalista. Bateu nas mais diversas portas e recebeu muitos “nãos”, até que conseguiu um emprego num pequeno jornal da cidade após um equívoco. Foi até à casa dos donos do jornal pedir um emprego como jornalista, mas saiu de lá como copeiro.

Após descobrirem o espírito jornalístico de Chatô seus patrões lhe oferecem um emprego na redação. Começa a carreira de jornalista no dia seguinte, marcada de inúmeras polêmicas. Após vários anos conversando com empresários para arrecadar fundos para sua empreitada, ter seu próprio jornal, o dia 30 de outubro de 1924 entraria para a história do jornalista.

Aos 32 anos, o homenzinho que saíra do interior da Paraíba começava a ver brotar o seu tão sonhado jornal. Este era o primeiro veículo de uma série de outros que ele geraria ao redor do país. Com o estrondo de quem viria para ficar, Chateaubriand foi nomeado diretor de O Jornal.

O deslanchar da carreira

A partir deste momento, a vida do jornalista foi uma sucessão de altos e baixos. Meses depois ele abriria a revista O Cruzeiro, com os mais modernos equipamentos de impressão no mundo. Após isso, ajudaria Getúlio Vargas a subir no governo e anos depois se posicionaria contra o mesmo. Na morte de Getúlio, Chatô ocupou seu lugar na Academia Brasileira de Letras e se tornou um dos imortais mesmo contra grande parte dos votos. Foi convidado para ser embaixador do Brasil na Inglaterra no governo de Juscelino Kubitschek.

O jornalista teve três filhos: Fernando, Gilberto e Teresa. A relação de Chateaubriand com os filhos era bem controversa e doentia, tanto que eles foram alvo de um estudo sobre paternidade publicado na revista Time.

Como Chatô dedicava mais do seu tempo ao seu império do que aos filhos, os mesmos passavam anos sem se falar. Foi assim até seus últimos dias, por mais que este tentasse se aproximar dos filhos, o gênio forte e as ideologias se confrontavam com as de seus sucessores.

Um marco histórico para a Comunicação no Brasil

Assis em visita a emissora americana RCA

Maravilhado com os milagres que o rádio operava no Brasil, não pensou em outra coisa. Também quis agraciar o seu império com o fenômeno da comunicação no país. Como já era de se pensar, o jornalista sempre movia as coisas a seu favor e não entrava numa briga se não fosse para ganhar. Ele conseguiu trazer os mais famosos nomes do momento para sua Rádio Tupi, no Rio. De Carmem Miranda até Dorival Caymmi, os mais poderosos nomes da época no cenário artístico brasileiro eram escalados na elite que trabalhava para Chatô. Mesmo assim, os concorrentes diziam que aquilo era coisa de louco, mas o jornalista pouco se importava.

O jornalista viaja para os Estados Unidos para conhecer os estúdios daquela que seria a promessa da comunicação no futuro: a televisão. Chateaubriand foi conhecer os estúdios da NBC e se encantou com o que vira. Rapidamente, ele queria o mesmo sistema no Brasil o mais rápido possível.

De volta ao Brasil, Chatô saiu em busca de empresários para patrocinar sua ideia astronômica de abrir uma emissora de TV no Rio, a futura TV Tupi. Novamente começou a enorme peregrinação nas portas dos barões do dinheiro no país. Bastante querido pelo povo e pelos banqueiros, apesar de conhecido por suas numerosas dívidas, pouco a pouco foi acumulando o capital para aquela que seria sua maior jogada.

A grande inauguração

No dia 18 de setembro de 1950, o Brasil e a América Latina vê um sistema que existia apenas nos Estados Unidos, Inglaterra e França. Estava inaugurada a TV Tupi, o nome em homenagem aos indígenas, que Chatô fazia questão de admirar e reconhecer. Porém, o país tinha poucas televisões, a invenção era algo relativamente novo por aqui.

O homenzinho visionário começou a fazer diversas parcerias com importadores e empresários para fazer com que o veículo ganhasse mais espaço no mercado e fosse aderido pela nação brasileira. Rapidamente, as pessoas passaram a se encantar e a se assustar com aquela caixinha que transmitia imagens de pessoas ao vivo. Até então, os sistemas de TV funcionavam ao vivo devido à falta da criação do vídeo tape (VT), que seria introduzido no mercado somente 20 anos depois.

Nesse meio tempo de TV, rádio, jornal e revista, Chateaubriand teve a brilhante ideia de abrir uma coleção pública de quadros para a sociedade paulista. Nascia ali o Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Assim como nas peregrinações anteriores, o jornalista corria de um lado para outro atrás de obras ao redor do mundo que estivessem à venda para integrar a coleção de pinturas do museu. O sucesso das arrecadações foi tanto que em 2 de outubro de 1947 o museu foi inaugurado e existe até os dias atuais na cidade de São Paulo. O patrimônio é conhecido no mundo todo e é referência na cultura brasileira.

A queda de um império

Seja por falta de verbas ou por motivos de doença, o jornalista começa a ver o que conquistou desmoronar aos poucos. Em fevereiro de 1960, Chateaubriand foi acometido de uma trombose, que iria mudar o resto de seus dias até a sua morte.

Ele parecia prever anos antes que o fim estava cada vez mais próximo, mandou chamar um tabelião para poder fazer sua escritura. Seu testamento provoca quando revela que deixaria 51% do seu império na mão de 22 dos seus empregados de confiança. Houve quem contestasse a loucura daquele homem, dizendo que o mesmo estava louco das ideias, mas se era essa a sua vontade, ninguém poderia voltar atrás.

A trombose lhe causou um grande prejuízo: o jornalista havia perdido os movimentos de quase todos os membros do corpo, quase que totalmente a fala, mas a memória estava intacta. Reuniu uma equipe para poder lhe ajudar a se curar, mas foi tudo em vão.

Chatô viajava para os Estados Unidos, Alemanha e Rússia em busca dos melhores profissionais e tratamentos do mundo. Durante seu processo de reabilitação, conheceu a enfermeira Emília Belchior que conseguia traduzir a série de resmungos do patrão. Seja com quem fosse que ele se encontrasse, lá estava Emília para transmitir a mensagem do patrão.

A doença fora a lástima para uma ilustre personalidade, mas nem isso atrapalhava o homem. Com a ajuda de uma máquina de escrever adaptada da IBM, o jornalista, mesmo em cárcere domiciliar, mantivera o hábito de escrever seus artigos. Todas as manhãs, ele repetia um rigoroso ritual de exercícios e a tarde escrevia seus artigos sobre os mais diversos assuntos.

Mesmo acamado, ele lia todos os dias os seus jornais para se informar do que acontecia e para poder ter inspiração para escrever. O hábito duraria até o último ano de vida do jornalista. Em 20 de março 1968, quando este consente que não consegue mais escrever nada, pediu para que se encerrasse sua série de artigos. Ao todo, ele escreveu mais de 11 mil artigos de 1924 até 1968.

Os últimos instantes de vida

Assis, na cadeira de rodas, comemorando seu último aniversário

Do dia 21 de janeiro até o dia 4 de abril, ele ficaria internado em São Paulo. Na noite do 4 de abril, às 21h30, deu seu último suspiro. Os mais ilustres personagens da época compareceram ao seu enterro, que foi realizado no hall do MASP.

Como uma última homenagem, o amigo italiano Pietro Maria Bardi, que o ajudara na compra da coleção do museu, estava pregando três peças em uma parede acima do caixão do falecido. Eram as pinturas de dois cardeais cercando uma exuberante mulher nua. As pessoas ali estavam escandalizadas com o ato, quando pediram para que o homem parasse com tal atitude. Em sua resposta, Bardi disse: “[…] essa é minha última homenagem a Assis Chateaubriand, vero? Nesta parede estão as três coisas que ele mais amou na vida: o poder, a arte e mulher pelada”.

Seu legado para a Comunicação no Brasil

A determinação e a motivação do homenzinho nordestino de 1,60m de altura fez com que grandes estrelas da arte e da comunicação pudessem ter seu espaço reservado na história do Brasil. Embora cercado de polêmicas e cheio de facetas, Chatô nada mais é do que o retrato da figura do homem brasileiro. Por muitas vezes tratado e conhecido como ignorante, Assis Chateaubriand contribuiu das mais diversas formas para que o Brasil fosse bem apresentado e representado em todo o mundo. O marco de sua carreira é a instalação da televisão no país, e por isso muito se deve ao ilustre personagem do livro de Fernando Morais, em princípio no setor da comunicação.

Assis Chateaubriand sempre defendeu sua opinião, chegando a apelar para palavras de baixo calão, não deixando que as censuras omitissem seu modo de ver a realidade. Suas estratégias de argumentação e domínio de muitos assuntos lhe deram voz em diversos meios, principalmente entre os grupos intelectuais de sua época.

 

 

 

 

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Danny Sullivan

Danny Sullivan

Jornalista em formação e sereio profissional nas horas vagas. Considera-se geek e fã de outras coisas estranhas (tipo Naruto, Justin Bieber e K-pop).
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