Explosões, cores e abismos

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Foto: Cecília Costa
Fogos de artificio em 14 de julho de 2016, Talant. Foto: Cecília Costa

Uma explosão de cores pintava, ininterruptamente, o céu negro. Estava cercada por húngaros, russas, georgianos, holandesas, cubanos, congoleses e franceses. Meus olhos se enchiam de lágrimas enquanto nos abraçávamos durante a queima de fogos, por motivos que eu ainda não conseguia dizer com exatidão, mas atribuía ao peso do crachá que me identificava em terras estrangeiras. Escrito em letras garrafais: Brésil.

Aos 19 anos fui selecionada para um intercâmbio cultural com jovens do mundo inteiro durante um mês na França, o mês de julho de 2016. Início do verão – o qual subestimei – e o clima de festa que envolve todo o país durante a estação, isso tudo com 30 jovens de 22 nacionalidades, em um país com fama de prepotente e intolerante com imigrantes. E também o país-berço dos direitos do homem.

A queima de fogos já representava metade da minha estadia, o que demorei a digerir por completo. Estava na beira de um lago, onde tínhamos passado a tarde conversando, dançando, tirando fotos e bebendo vinho. Era 14 de julho, dia da Festa Nacional e, falando mais historicamente, do início da Revolução Francesa. Queimas de fogos como a que eu estava, em Talant, uma cidadezinha ao lado de Dijon, sempre lotadas, tomavam conta do país todo.

O grupo se separou em meio a multidão para procurar as melhores visões dos fogos. Nos reencontramos seguindo um estreito caminho de entrada em Dijon, no qual lembro de ter dito a uma amiga o quanto aquele momento seria um alvo fácil para alguém que quisesse provocar horror. Ela concordou.

Fomos percebendo que esse pensamento já era parte do inconsciente coletivo e pessoas se espalhavam o máximo que pudessem umas das outras.

Chegamos no alojamento e vários grupinhos se dividiram em quartos para conversar. No quarto que dividia com uma indiana, estavam uma iraniana, uma holandesa, uma lituana e uma georgiana. No meio da conversa, recebo uma mensagem do Brasil perguntando se eu estava bem e dizendo que havia acabado de acontecer um atentado terrorista na França. Nice. A 600 quilômetros de mim, mas sob as mesmas condições nas quais estava minutos antes.

Um caminhão invadiu o caminho pelo qual as pessoas circulavam durante a queima de fogos, atropelando e matando dezenas de pessoas na Promenade des Anglais. Os pensamentos que, minutos antes, pareciam paranoia, agora tomavam contornos reais e cruéis. Pensamos em como contar para todos o que tinha acontecido, em maneiras que causariam menos impacto.

Mas quando se está sozinho em um país violado, a possibilidade de não-impacto simplesmente não existe.

Há alguns quartos de distância, um grupo ouvia música cubana. Bati na porta com a expressão mais neutra que pude fazer e pronunciei, em um francês trêmulo e baixo.

“Teve um atentado terrorista em Nice”.

Logo na minha frente, minha amiga cubana pediu que eu repetisse. Repeti, e nunca esquecerei da expressão de terror que vi nos olhos dela.

Sua irmã tinha chegado em Nice horas antes.

Os monitores, também chocados, só conseguiram dizer para todo mundo ligar para a família. Os outros brasileiros, que estavam em outros grupos e regiões da França participando do mesmo programa, tentavam se comunicar uns com os outros perguntando se tudo estava bem. Eu era a brasileira mais próxima de Nice.

A reação em cadeia entre nós era ligar para a família, dizer que estava tudo bem e sentar no corredor do alojamento chorando. Sentei ao lado da monitora russa, que chorava copiosamente, se perguntando o que aquelas pessoas tinham feito para serem mortas, o pensamento verbalizado de todo mundo que estava ali. A atmosfera de união entre as nações que estavam ali foi quebrada.

E assim se passaram três horas de um silêncio sepulcral.

Quando voltamos a falar, os que ainda não tinham conseguido dormir, era como se todas as guerras e possibilidades de guerra voltassem às nossas mentes. A georgiana, minha amiga, começou a lembrar o quão oprimido é seu país pelos russos, do então recente atentado terrorista ao aeroporto de Istambul, onde ela faria conexão na volta. Eu falava do medo que tinha de que o Brasil se tornasse um alvo durante as Olimpíadas, que começariam em algumas semanas. E continuávamos nos olhando desconfiados e assustados.

A confirmação da autoria do atentado, a decisão de François Hollande para prolongar o estado de segurança, a divulgação do autor do atentado. Um tunisiano. A confirmação de que uma brasileira e sua filha, ainda bebê, estavam entre as vítimas. Todas as notícias pareciam abrir mais uma ferida que tínhamos tentado esquecer até então. E cada uma delas cavava um abismo entre nós.

Eu nunca pensei que estaria tão perto de um atentado. Talvez as boas relações brasileiras e sua distância geográfica dos epicentros desses conflitos, além de concorrer com os Estados Unidos, um alvo muito mais simbólico aos ideais terroristas, tenham me anestesiado um pouco. Me comovia ouvir falar sobre eles, mas me comovia de longe.

Não importava tanto a cidade, importava atacar algo naquele dia, acertar em cheio no orgulho francês. A verdade é que poderia ter sido conosco e um acaso impediu que fosse em Dijon. Mesmo assim, nos acertou reabrindo abismos que tínhamos esquecido com a convivência. Não é a mesma coisa ver o noticiário internacional hoje.

Saber que as notícias não são anônimas. São meus amigos, os lugares onde pisei, tirei fotos e passeei de barco. São os imigrantes com quem andei no metrô, os cenários por onde estive, os museus, as pessoas que conheci, com quem almocei, dancei e bebi vinho. Elas podem estar ali e, em um mero acaso, não estarem mais. Por motivos que não sejam seus, por causas que jamais saberíamos explicar.

Na noite seguinte, o representante de cada país deveria fazer um prato típico de seu país, em um jantar que receberíamos convidados. Quando todos já estávamos sentados, alguém pediu a palavra: o tunisiano do grupo. Ele, que tinha bebido um pouco para ter coragem de falar, disse que o autor do atentado não representava de forma alguma os ideais tunisianos ou islâmicos, pedindo desculpas em nome do país.

E mais um abismo foi lembrado. A forma como o estereótipo do extremismo se espalhou, englobando sempre islâmicos do norte da África que imigram para a França, reforçou estigmas anteriores de uma sociedade marginalizada nos grandes centros urbanos. Imigrantes são vítimas de uma sociedade que os rejeita e subjuga.

A onda de atentados, ao invés de trazer reflexões sobre como populações imigrantes são tratadas, fez crescer uma política que reforça os preconceitos que criam um ciclo vicioso de marginalização, alienação e violência. Um raciocínio que poderia ser facilmente transposto, também, às políticas públicas brasileiras, estadunidenses e mundo afora.

E, bem, eu era imigrante. Ainda que brasileira, branca e com uma cara que pouco diz sobre minha origem latina, eu era imigrante. E, sim, as pessoas mudavam comigo quando viam meu crachá. Umas pra melhor, outras pra pior. Dias depois do atentado, estávamos novamente em um lago, já em outra cidade. O fim da viagem já se aproximava e o trauma todo já começava a ser absorvido. Sentamos em um lago, a certa distância de uma senhora que, minutos depois, começou a esbravejar perguntando quem era o responsável por aquilo – e aqui você me inclua como parte do tal aquilo.

Bem, os responsáveis eram um congolês, um cubano, uma russa e uma iraniana. Que estavam com a motorista do ônibus, uma marroquina. Um combo. Enquanto eles tentavam acalmar a senhora, nós nos afastamos a tempo de ouvir gritos dela, que recolheu suas coisas e saiu praguejando:

“Vocês, imigrantes, já tomaram conta do meu país. Podem ficar com o lago também”.

Já faz quase um ano que voltei para o Brasil. Ainda não sei a resposta de nenhuma das perguntas que fizemos uns para os outros na noite do atentado, nem o porquê da senhora guardar tanto ódio de um grupo de jovens em um lago. Também não sei como funcionava a cabeça de pessoas que apoiam grupos que promovem intolerância, violência e terrorismo.

Não sei como os Estados Unidos elegeram, de fato, Donald Trump.

Não sei como a França chegou a cogitar Marine Le Pen.

Não sei como adolescentes e adultos brasileiros cogitam votar no Bolsonaro, apoiam a bancada evangélica, pedem pela volta da ditadura e defendem pessoas indefensáveis.

Não sei como quase ninguém se lembra das meninas nigerianas sequestradas pelo Boko Haram em 2013.

Não sei como países conseguem fechar completamente suas fronteiras para refugiados.

Não sei ver notícias sobre intolerância, violência e terrorismo sem imaginar que minhas lágrimas de alegria foram simultâneas ao rodar das rodas de um caminhão calculadamente desgovernado que, sob as mesmas explosões de cores que me faziam sorrir, punha fim a inúmeras trajetórias.

Trajetórias essas que, talvez, também estivessem emocionadas com os fogos e não tiveram como fugir.

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Cecília Costa

Cecília Costa

Quando criança, dizia que sua profissão seria “Leonardo da Vinci” porque ele fazia de tudo um pouco. Já quis ser astronauta, cientista, bailarina e antropóloga e, hoje, é estudante do curso de Jornalismo da UFAM. Ama contar histórias e, assim, nunca conseguiu ficar com caneta e papel nas mãos sem escrever, rabiscar e transbordar.
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