Mercado: Influência da mídia televisiva sobre a criança

Posted on Posted in Mercado

As mídias eletrônicas se tornaram marcantes na infância das gerações mais atuais. Isso se deve sobretudo à expansão dos meios de comunicação pelo mundo. E como principal representante dessa influência sobre o público infantil está a televisão.  Inserida desde muito cedo em um contexto midiático a criança dedica boa parte de seu tempo a diversos programas, e encontra na televisão mais que uma opção de entretenimento.  Retira para si referências para a sua própria formação.

Os conteúdos que compõem a programação televisiva são elaborados por adultos que trabalham no meio. Programas considerados infantis podem passar mensagens que não são apropriadas para esse público. Abordagens de casos envolvendo crianças podem expor mais que o necessário. Como consequência, surge o desafio de se questionar e pensar formas ideais de apresentar a criança na mídia e como levar o que é produzido para ela.

A influência da programação infantil

“Não existe uma influência das imagens como objeto de estudo independente. O que existe, e deve ser investigado, é a produção, aquisição, processamento e utilização de informação pelas crianças” (Maria da Anunciação Pinheiro Barros Neta – Criança e Mídia, a Trama da TV e as Multinfluências)

Desde os anos 50, a televisão no Brasil tem sido motivo para muita discussão e polêmica entre os estudiosos da área. As pesquisas realizadas, em sua grande maioria, revelam preocupações comuns que culminam na influência da televisão e sua relação com o processo da formação humana.

Os desenhos animados são o produto principal da programação infantil da TV. Seu atrativo geralmente se baseia em representações do bem e do mal, do certo e do errado. Como explicado por Mike Jempson em seu artigo “Algumas Ideias sobre o Desenvolvimento de uma Mídia Favorável à Criança”, o programa de TV é uma construção que representa a vida da criança. Isso traz o perigo de que uma vez que a criança tenha sido caracterizada como boa, talentosa, má, perigosa, triste entre outros, na TV, ela se convença de que esta é a realidade.

Os meios de comunicação de massa, submetidos às exigências impostas por um mercado competitivo, carregam a tendência de basear sua produção em programas que exploram a violência. Pesquisas sobre a exposição à violência através da televisão revelam que há uma grande influência desse tipo de conteúdo sobre a criança.

No Brasil, um estudo intitulado “A Televisão e a Violência: o impacto sobre a criança e o adolescente”, realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, revelou que a televisão sempre mostrou ser um instrumento definidor de costumes e valores que concorrem com os da família e da escola. Diante desse contexto, se torna necessário não apenas assegurar a qualidade dos produtos oferecidos pela mídia, mas também fazer exigências relativas à política de programação infantil. O que precisa ser pensado é como esses assuntos entram na mente e na vida do indivíduo, e principalmente, o que a criança aprende em casa e utiliza fora dela.

Avaliar a influência da mídia no comportamento infantil é importante, mas também trabalhoso porque hoje as informações chegam através de vários meios. Para os pais, saber o que seus filhos assistem é necessário para que possam até mesmo lidar com eles. Embora a rotina de trabalho nem sempre permita que supervisionem o que os filhos estão consumindo da programação.

Como a publicidade afeta o público infantil

A TV exerce um forte magnetismo sobre público infantil quanto ao consumo. A criança é um alvo publicitário fácil de convencer por ficar exposta muito mais tempo em frente à televisão. Isso facilita o efeito persuasivo dos anúncios publicitários que recheiam os intervalos entre os desenhos animados. E quanto mais nova a criança, maior a probabilidade de ser convencida pelo discurso apresentado.

Sendo a criança vista como um consumidor em potencial, ignora-se totalmente o fato de que boa parte do público infantil que assiste a programas assiduamente não possui, e para muitos, dificilmente terão, condições de adquirir os vários produtos anunciados.

Estudos sobre o consumismo na sociedade atual revelam que essa necessidade de compra exercida sobre a criança pode contribuir para o surgimento de distúrbios. A ansiedade, por exemplo, pode afetar crianças que por limitações financeiras não concretizam seu desejo de adquirir o produto que viram na propaganda, impulsionadas pelo discurso publicitário.

Por outro lado, há crianças que possuem maior acesso aos produtos anunciados na TV. Essa facilidade de adquirir o que é ofertado pode influenciar fortemente para que se tornem futuros consumistas compulsivos. A propaganda não é a única que pode contribuir para isso, há outros fatores como a educação doméstica, mas ela tem peso relevante.

Como dito por Jean Baudrillard em seu livro “A Sociedade de Consumo”, estamos vivendo em uma sociedade onde o consumo é recorrente na vida das pessoas e suas satisfações pessoais são completamente traçadas pelo consumo, que pode ser considerado como um dos aspectos constituintes da cultura contemporânea.

A televisão pode orientar de forma positiva, como fazem as TV’s educativas, com programas que servem ao desenvolvimento da personalidade e à formação para a cidadania. Porém, também atua de forma negativa, quando o compromisso com os anunciantes se torna a prioridade, como nas TV’s comerciais.

A preservação da imagem infantil

Questões que envolvem crianças geralmente são tratadas na sociedade como assunto individual das famílias, sem apelar para uma responsabilidade coletiva do público que se envolve com o que é passado pela mídia. No telejornalismo há situações em que os responsáveis pela produção da notícia atuam como violadores dos direitos infantis, como nos casos relacionados aos maus tratos e à violência sexual. A identificação de crianças em situações desse tipo, por exemplo, pode prejudicar desenvolvimento e causar constrangimentos na relação com outras crianças.

Entre os representantes dos direitos das crianças existe certa tensão entre a necessidade de maior visibilidade sobre situações que envolvem crianças em contraposição a uma cultura de proteção da imagem dessas crianças. Casos de adolescentes e seu desejo de viajar sozinhos pelo mundo; a luta de uma menina britânica de 13 anos pelo direito de recusar tratamentos médicos dolorosos e a “morrer em casa” ou a batalha judicial de uma menina de 15 anos contra a adoção do seu filho de dois anos decretada pelo Estado abrem um amplo debate a respeito de como conseguir esse equilíbrio.

As crianças e seus direitos

A Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) foi implementada em 1989 pela ONU. Considera como crianças todas as pessoas na faixa etária dos 0 aos 18 anos. Surge assim, um documento que apresenta a construção de uma identidade para as crianças, onde elas deixam de ser vistas apenas como objeto de proteção e se tornam pessoas com direitos, conforme sua condição de cidadãos em fase de desenvolvimento. É nesse momento também que, além dos direitos às necessidades básicas são assegurados os direitos de participação da criança de ser consultada e ouvida, a liberdade de expressão e o direito de tomar decisões em seu benefício.

Esses direitos de participação são responsáveis por afirmar a construção de uma identidade diferente para esse público, que leva em consideração as suas capacidades, construindo assim, a chamada participação infantil.

É preciso analisar, a partir de entrevistas com crianças e jovens que foram notícia, como as suas vidas foram afetadas por terem sido alvo de uma situação que gerou grande repercussão na mídia. Como estas crianças se enxergam com a repercussão de uma notícia sobre elas? Como se verão no futuro? Como elas se sentem sobre o que disseram numa entrevista? Que tipo de oportunidades ou constrangimentos a forte visibilidade na mídia lhes proporcionou? Trata-se, portanto, de um forte questionamento sobre posições editoriais para que estas não desrespeitem os direitos das crianças ao mesmo tempo em que se torna necessário dar voz à elas a partir do seu direito de participação infantil.

A mídia, em especial o telejornalismo, possui uma imensa responsabilidade. Evitando sucumbir à pressão comercial, é preciso que o jornalismo trabalhe em como respeitar os direitos das crianças. Dessa forma, será possível reconhecer a mídia como parte importante do processo de melhorar a imagem, os direitos e perspectivas da criança para seu próprio futuro.

Fontes consultadas:

Participação infantil: a sua visibilidade a partir da análise de teses e dissertações em sociologia da infância (Andréa Carla Pereira Campos Cunha eNatália Fernandes).

https://goo.gl/EDQXQX

A criança cidadã: vias e encruzilhadas (Manuel Jacinto Sarmento)

http://www2.fct.unesp.br/simposios/sociologiainfancia/T2%20A%20crian%E7a%20cidad%E3.pdf

Direito das Crianças em Notícia: A Responsabilidade dos Jornalistas: Uma Análise Comparada Brasil-Portugal1 (Lidia Marôpo – Universidade Nova de Lisboa e Universidade de Fortaleza)

http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2008/resumos/R3-1113-1.pdf

A CRIANÇA E A MÍDIA: Uma Evolução na Programação de Qualidade para o Mundo Infantil  (Elisa Linhares Nogueira):

http://repositorio.uniceub.br/bitstream/123456789/1983/2/20742392.pdf

 

The following two tabs change content below.
Emanuelle Lopes

Emanuelle Lopes

21 anos, estou sempre com fome, apaixonada por música, livros e séries, mesmo não tendo todo o tempo que gostaria para se dedicar a esses dois últimos. Amo escrever. Alguns gostam do que escrevo, apesar de achar tudo que produzo irrelevante para a sociedade. Estudante do 7º período de jornalismo.
Emanuelle Lopes

Posts Mais Recentes por Emanuelle Lopes (Ver Todos)

Comentários

pessoas comentaram

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *