Novelas: opinião pública e interferência na vida social

Posted on Posted in Mix Cultural

A opinião pública é o resultado da união de opiniões de vários públicos e pode ser usada para melhorar o seu relacionamento com eles. Isso, no ramo de entretenimento é um conceito fundamental. Nas novelas a opinião pública funciona como um medidor e pode alterar o enredo pré-determinado.

É comum a presença de grupos de discussão nos primeiros meses de exibição, a fim de saber se o conjunto da obra agrada o público. Nas ruas as enquetes são usadas para medir a popularidade da trama e dos personagens. Caso não cative a audiência serão realizados grupos focais com espectadores e reuniões com os diretores de entretenimento.

Os dados dessa nova pesquisa serão usados e dependendo da interpretação podem oferecer ao autor soluções criativas para agradar a audiência. Quando o público não gosta de uma vilã, por exemplo, significa que a personagem está dando bons resultados. Porém, nem sempre as tramas novas oferecerão soluções.

As manifestações de machismo e homofobia ainda se fazem presentes na sociedade. Isso se reproduz diretamente na aceitação ou não dos enredos das novelas. Frequentes são os casos de personagens homossexuais rejeitados pelo público. O mais recente ocorreu na novela Babilônia (2015), ligado à orientação sexual das personagens. Em seus primeiros capítulos o casal Tereza e Estela, interpretadas pelas atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, gerou uma enorme discussão sobre a relação das duas.

Nathalia e Fernanda em cena de Babilônia

“Os preconceitos ainda fazem parte da cabeça do ser humano porque o desenvolvimento da mente é algo bastante irregular. E numa sociedade primária, o preconceito tem cores fortes, mas acho que tudo que se faz, principalmente numa obra, é apresentar os problemas de ordem humana mais claramente para o público. Espero que isso tenha eco, uma repercussão entre esses espíritos ainda tão limitados.”, declara Nathalia Timberg.

A cena de afeto entre elas gerou repercussão negativa e foi suficiente para que suas participações diminuíssem. Ambas perderam espaço na novela. Fato que também aconteceu em Torre de Babel (1998) com as personagens de Christiane Torlone e Silvia Pffeifer. Para agradar o público mais conservador, o autor Silvio de Abreu resolveu “matar” Leila e Rafaela. Segundo ele, no livro de autores da Globo,  a morte do casal foi um protesto contra o preconceito e que uma pequena parte da audiência acreditava nas duas.

Outra novela que pode exemplificar a influência da opinião pública é A Regra do Jogo (2015). Classificada como um ‘drama policial’, a trama abordava assuntos políticos. A novela acabou não agradando o público. Gerando expectativa desde o seu anúncio, por ser do mesmo autor de Avenida Brasil (2012) e A Favorita (2002), a atração disputou audiência com Os 10 Mandamentos, da Rede Record.

Ator Marcos Pigossi na novela A Regra do Jogo

Devido a temas como corrupção, crimes e protagonistas com desvio de caráter, a atração, que segundo a Globo, era a sua maior audiência, enfrentou críticas pesadas sobre o seu roteiro. Os telespectadores foram atraídos para a novela bíblica da emissora concorrente. Com temas considerados mais leves e fantasiosos, a principal atração da Record conquistou o primeiro lugar de audiência em várias noites, deixando em segundo lugar a Rede Globo.

Mas nem sempre a opinião pública foi contra alguns personagens ou novelas. João Emanuel Carneiro com sua novela A Favorita (2009) é um exemplo. No início da trama, ninguém sabia do verdadeiro caráter das protagonistas Flora e Donatella, interpretadas respectivamente por Patrícia Pillar e Cláudia Raia. Durante boa parte da novela a opinião do público ajudou o autor a solucionar o mistério ‘Quem matou Marcelo?’. Por fim, o público teve mais afeição pela personagem de Cláudia Raia, e a personagem de Patrícia Pillar se tornou a vilã da história. O resultado foi um dos maiores sucessos de audiência e repercussão do horário.

 

Patrícia Pillar e Claudia Raia em cena como Flora e Donatella

Outro exemplo em que a opinião pública agiu foi durante a exibição de Laços de Família (2000), de Manoel Carlos. A personagem Camila (Carolina Dieckman) precisou raspar a cabeça no tratamento de leucemia. Foi após esse momento que o público criou afeto pela personagem e impediu que o autor a ‘matasse’, como era previsto no roteiro. Ela permaneceu viva e superou a doença até o fim da trama.

Carolina Dieckman na comovente cena de Laços de Família

Entre tantos momentos de interferência do público em uma novela, pode-se mencionar um dos mais marcantes: o primeiro beijo gay em uma telenovela da Globo.

O caso aconteceu na novela Amor à Vida (2013), de Walcyr Carrasco, com o vilão Félix (Mateus Solano) que agradou o público com sua irreverência e seus bordões. Durante a novela, o vilão foi humanizado através do romance com Niko (Thiago Fragoso), no qual encontrou redenção. Foi então que o público pediu por um final feliz entre os dois. O resultado foi a esperada cena do beijo entre o casal e o perdão do pai homofóbico de Félix, interpretado por Antônio Fagundes. A audiência alcançou 47 pontos no seu último capítulo.

Mateus Solano e Tiago Fragoso formaram o casal Félix e Niko

Embora haja grande influência do público nas novelas, a interferência das novelas na vida das pessoas pode ocorrer na mesma proporção, ou até maior. Os enredos afetam as emoções e o gosto pelas personagens. As estórias reproduzem situações cotidianas. Muitos autores afirmam que suas inspirações vêm de indivíduos comuns em situações comuns, e acabam ditando moda. Os bordões, roupas e até ações dessas pessoas são reproduzidas pelo público. Caso da personagem Nazaré Tedesco (Renata Sorrah) de Senhora do Destino, que se popularizou nas redes sociais recentemente, mesmo com a exibição da novela em 2004.

A personagem de Renata Sorrah, Nazaré Tedesco, ainda rende vários memes

É preciso ressaltar que, apesar de representar situações cotidianas, as novelas mostram apenas um recorte da realidade. Pode gerar, por isso, a falta de representação. Isso se observa no número de protagonistas negras que estão nas produções da principal emissora do país. Das cinco principais novelas no ar da Rede Globo, existe apenas uma protagonista negra, Joana, que atuou na novela Malhação: Pro Dia Nascer Feliz, vivida por Aline Dias. A produção adolescente levou 15 anos para colocar uma atriz negra como sua personagem principal.

Os dados revelam um quadro ainda mais negativo quando analisa as últimas 31 novelas exibidas pela Rede Globo. Apenas as protagonistas de Velho Chico (Camila Pitanga), Êta Mundo Bom! (Déborah Nascimento), Geração Brasil (Taís Araújo) e Malhação: Pro Dia Nascer Feliz (Aline Dias) são negras.

Aline Dias em Malhação: Pro Dia Nascer Feliz

Além da falta de representação nas novelas, essas produções podem contribuir para o fortalecimento de alguns estereótipos. Por exemplo, a atriz Juliana Alves em papéis de ‘periguete barraqueira da favela’, como Valeska, de Babilônia (2015), Suellen, de Caminho das Índias (2009) e Gislaine, de Duas Caras (2007), reforçando a imagem da mulher negra como desbocada e hipersexualizando o seu corpo. Além disso, a falta de atores negros nos núcleos principais ainda é grande, e quando estão presentes é somente para enaltecer a trama dos personagens principais, geralmente brancos, ou para atuarem como empregados destes.

Juliana Alves em cena na novela Babilônia

Esse fortalecimento de estereótipos piora quando falamos da comunidade LGBT+. Muitos são os/as personagens que são colocados como núcleo de humor, mas poucos representam um debate maior sobre igualdade e equidade de direitos. Personagens como o Crô (Marcelo Serrado), de Fina Estampa (2011), Jô (Thammy Miranda), de Salve Jorge (2012) e Cássio (Marcos Pigossi), de Caras e Bocas (2009) configuram uma lista de personagens que reforçam e contribuem para o aumento das estatísticas de LGBTfobia no Brasil, perdendo a oportunidade de discussão do assunto. E isso se torna mais grave quando se observa que nunca houve um casal homossexual como protagonista de uma novela, sendo vistos mais em minisséries e séries internacionais.

Além de acessórios e bordões, as novelas carregam consigo uma responsabilidade ainda maior. Temas de relevância social podem ser abordados através delas. Desse modo, pode haver o incentivo à discussão e disseminação desses assuntos no meio social, gerando debate onde habitualmente não haveria.

A autora Glória Perez sempre traz em suas obras problemáticas reais e importantes. Em Salve Jorge (2012), tratou de questões como o tráfico de pessoas, a dependência de drogas; a clonagem humana, em O Clone (2001); e como promete em sua atual novela, A Força do Querer (2017), ao tratar de questões de gênero.

“A minha proposta é discutir sobre a diversidade e tolerância, e o que estamos assistindo em todo mundo é a desconstrução do gênero e suas transformações.”, afirma Glória Perez.

Novelas como A Regra do Jogo (2014) e Velho Chico (2016) não devem ser deixadas de lado pelo seu enredo mais denso, e nem Verdades Secretas (2015) deve ser acompanhada por romantizar um relacionamento abusivo. Ambas devem ser encaradas como obras críticas e que agregam discussão na nossa sociedade, com temas realmente relevantes e não por apenas diversão e escape da realidade. Porque, querendo ou não, estes casos estão muito mais próximos do que se imagina.

 

The following two tabs change content below.
Junior Carvalho

Junior Carvalho

Regina George em pele de cordeiro. Como Alaska Young, é furacão. Ainda em busca de um grande talvez.

Comentários

pessoas comentaram

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *