O Bibliotecário: A Galáxia da Internet, de Manuel Castells

Posted on Posted in O bibliotecário

Atualmente, vivemos em um mundo totalmente globalizado e digitalizado. A internet surgiu com a premissa de conectar algumas pessoas distantes e hoje conecta bilhões de pessoas. Dentro desse vasto mundo de informações, Manuel Castells em seu livro A Galáxia da Internet – Reflexões sobre a Internet, os Negócios e a Sociedade abre espaço para discussões a respeito desse universo que é a internet e o modo como ela interage com o cotidiano da sociedade.

Grande parte dos autores que pesquisam sobre a internet apresentam mais dados técnicos, previsões sobre o futuro da rede e alguns conceitos do que informações históricas. Em sua pesquisa, Castells além de trazer essa gama de informações e um apanhado histórico bastante interessante, também mostra os impactos da cultura digital na sociedade. Em virtude disso, o intertítulo Reflexões sobre a Internet, os Negócios e a Sociedade é apresentado de uma forma mais completa.

Manuel busca oferecer uma análise do desenvolvimento de uma nova sociedade, a nossa, baseada na lógica da Internet. O autor evita fazer prescrições e previsões – muitas já foram feitas – preferindo apresentar dados fartos e pesquisa detalhada para ajudar a compreender como a Internet é o meio pelo qual nos tornamos habitantes de uma rede global.

O livro se encontra da seção de Comunicação da biblioteca. O código da seção é A7, seu número de chamada é 004.738.5 C348g 2003. A edição do livro é de 2003, porém foi lançado em 2001 e faz parte da Coleção Interface da Editora Zahar.

Manuel Castells, autor do livro

Manuel Castells é um dos pensadores mais influentes do mundo. Considerado o principal analista da era da informação e das sociedades conectadas em rede, ele investiga os efeitos da informação sobre a economia, a cultura e a sociedade em geral.

Ele nasceu em 9 de fevereiro de 1942, em Hellín, Espanha. Entre 1967 e 1979 lecionou na Universidade de Paris, primeiro no campus de Nanterre e, em 1970, na “École des Hautes Études en Sciences Sociales.

Professor emérito da Universidade do Sul da Califórnia, Los Angeles, e da Universidade da Califórnia, Berkeley, tem mais de 25 livros publicados. Entre eles, a famosa trilogia A era da informação e A Galáxia da Internet, obras que procuram compreender as transformações que as novas tecnologias estão produzindo em nossas vidas.

Segundo o Social Sciences Citation Index, Castells foi o quarto cientista social mais citado no mundo no período 2000-2006 e o mais citado acadêmico da área de comunicação, no mesmo período. Atualmente Castells vive entre Barcelona e Santa Mônica, com sua esposa, Emma Kiselyova.

A galáxia da Internet

A galáxia da internet representada como se fosse um mapa

A rede mundial de computadores, ou Internet, surgiu em plena Guerra Fria. Criada com objetivos militares, seria uma das formas das forças armadas norte-americanas de manter as comunicações em caso de ataques inimigos que destruíssem os meios convencionais de telecomunicações.

Nas décadas de 1970 e 1980, além de ser utilizada para fins militares, a Internet também foi um importante meio de comunicação acadêmico. Estudantes e professores universitários, principalmente dos Estados Unidos, trocavam ideias, mensagens e descobertas pelas linhas da rede mundial.

O intuito inicial da internet era totalmente militar, quando surgiu a Arpanet. Após isso, pesquisadores dos Estados Unidos começaram a utilizar o sistema para troca de dados e informações. Inicialmente, após o acesso ter sido liberado pelas Forças Militares, as universidades americanas foram as primeiras a terem acesso à internet.

Pesquisas e mais pesquisas foram dissolvidas a respeito desse novo meio e o que ele traria para a sociedade. Como os cientistas viram que a internet era um bom meio de troca de informações, começaram a expandir seu acesso para outros países.

Em 1969 ocorreu a transmissão do que pode ser considerado o primeiro e-mail da história. O texto desse primeiro e-mail seria “LOGIN”, conforme desejava o Professor Leonard Kleinrock, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), mas o computador no Stanford Research Institute, que recebia a mensagem, parou de funcionar após receber a letra “O”.

O termo internet, como um sistema global específico de redes de IPs interconectados, é um nome próprio. A Internet também é muitas vezes referida como Net. A palavra “internet” foi utilizada historicamente com inicial minúscula, logo em 1883 como um verbo e adjetivo para se referir a movimentos interligados.

No início dos anos 1970, o termo internet começou a ser usado como uma forma abreviada do conjunto de redes técnicas, o resultado da interligação de redes de computadores com gateways especiais ou roteadores. Ele também foi usado como um verbo que significa “conectar”, especialmente redes.

Em meio a esse contexto histórico, Manuel faz uma linha do tempo da galáxia que é a internet desde a sua fase inicial até o boom da internet comercial que conhecemos atualmente.

Reflexões sobre a internet

Segundo o autor, todos estamos interligados na rede

A Internet surge na metade da década de 1990 como um sistema de comunicação flexível e descentralizado. A arquitetura aberta proporcionava a cooperação dos usuários. Assim, a flexibilidade e a liberdade foram valores importantes para o desenvolvimento da Internet. Liberdade, solidariedade e cooperação são concepções que compõem a cultura de cientistas, engenheiros, estudantes de pós-graduação e dos primeiros usuários da rede que participaram conjuntamente da criação da Internet.

Castells analisa a cultura da Internet, ressaltando a importância da abertura do código-fonte para o aperfeiçoamento dos softwares. Além disso, trata da cultura hacker, evidenciando que, apesar de ter influenciado valores e hábitos da cultura da Internet, a tradição acadêmica – baseada na busca por prestígio e reconhecimento dos pares – foi aliada aos valores dos hackers, especialistas na programação e interconexão de computadores que desempenharam um papel relevante no desenvolvimento da Internet.

De acordo com Castells, “a cultura hacker […] diz respeito ao conjunto de valores e crenças que emergiu das redes de programadores de computador que interagiam online […]” na modificação do software, aprimorando o sistema operacional da Internet. A cultura hacker tem como base uma concepção “tecnomeritocrática” fundada na busca por excelência e melhoria do desempenho tecnológico. É preciso ter liberdade para criar, se apropriar do conhecimento e redistribuí-lo na rede.

Sendo assim, a liberdade constitui um valor fundamental para a cultura hacker. A formação de redes se torna um padrão de comportamento habitual na Internet, e que vem sendo disseminado em diversos setores da sociedade. Há ainda uma análise acerca da cultura empresarial que se difunde na Internet, na qual ideias inovadoras e criatividade aparecem como valores essenciais.

Além do mais, o autor defende que a internet possui quatro camadas culturais: as tecnoelites, que são formadas por pesquisadores; a hacker, formada por pessoas que possuem um alto nível de conhecimento informático e que operam através da liberdade na internet; as comunidades virtuais, que são os usuários comuns e os empresários, que com usam o boom da internet comercial  para lucrar. As quatro camadas se interligam, pois uma precisa da outra para operar.

Reflexões sobre os negócios

Empresas passaram a utilizar a Internet para comunicação e processamento de informações

Reflexões sobre questões relacionadas com o comércio eletrônico, a formação e a estrutura organizacional de empresas em rede, as mudanças nos mercados financeiros, a flexibilidade do trabalho e a produtividade também são apresentadas por Castells. O aparecimento de empresas “.com” alterou o comércio. Empresas passaram a utilizar a Internet para comunicação e processamento de informações, dispondo de uma estruturação organizacional baseada na rede.

O comércio eletrônico e as empresas online também modificaram as relações econômicas. Em algumas firmas, atividades dos setores de produção e distribuição são realizadas através da Internet. Além disso, redes de computadores integraram os mercados financeiros, formando um mercado global interdependente e transnacional. No âmbito do trabalho, há uma exigência de maior qualificação profissional, além da necessidade de alto nível educacional. A flexibilidade vem direcionando as relações de trabalho no contexto da nova economia global que apresenta ainda um crescimento significativo da produtividade.

Reflexões sobre a sociedade

Tomando como referência o uso da Internet, Manuel traz uma reflexão sobre a relação entre sociedade civil e Estado. Essa questão envolve discussões concernentes à privacidade dos usuários da rede e ao problema da liberdade no sistema de comunicação global. Castells menciona os movimentos sociais que adotaram a Internet para a defesa de suas propostas.

Valores culturais aparecem como base dos movimentos sociais que se articulam na rede para alterar “códigos de significado nas instituições e na prática […]” social. Com a Internet, a participação política dos cidadãos através da rede pode redefinir a democracia. Castells cita a Cidade Digital de Amsterdã como um exemplo de revitalização da esfera pública. Informações sobre ações do governo e a possibilidade de interatividade com os cidadãos podem ser fornecidas pela Internet.

No entanto, com essa ferramenta também surgem novas estratégias de guerra que ameaçam a soberania dos Estados. A invasão de hackers a computadores de órgãos governamentais, ou ainda, a utilização da rede por criminosos e terroristas, preocupam as lideranças políticas. Se, por um lado, há um interesse de governos em desenvolver tecnologias de controle da Internet, por outro viés, a rede de computadores tem potencialidade para a difusão de valores humanistas e a democratização.

As tecnologias de controle e vigilância, mencionadas, restringem a liberdade e a privacidade dos usuários da Internet que podem ter seus e-mails registrados e controlados por governos.

O Estado tem sua soberania abalada pelo fluxo de informações. Castells ressalta que para revigorar o poder, o G-8 adotou medidas para controle e policiamento dos provedores da Internet. Entretanto, a soberania continua oscilante já que, para o exercício do controle, os Estados têm que dividir o poder, constituindo, por fim, um Estado em rede.

Convergência midiática e a internet

Há uma convergência ainda restrita entre a Internet e a multimídia, apesar da difusão da televisão digital por todo o mundo. Por outro lado, a multimídia permitiu a divulgação de músicas pela Internet por intermédio do formato MP3. Videogames online, vídeos pornográficos, revistas eletrônicas comercializadas por serviços de assinatura e rádios virtuais também aparecem com destaque na Internet.

Castells sustenta que não é possível afirmar que há um hipertexto, devido à falta de interesse comercial na formação de um hipertexto. Este pode ser entendido como sistema interativo de expressão de culturas presentes, passadas e futuras.

A importância de estudos sobre o fenômeno da internet

O acesso à Internet e o problema da exclusão social são tratados de forma minuciosa por Castells. A renda e o nível educacional das pessoas constituem a base para o acesso à Internet; além disso, há uma divisão dos usuários por etnia. Nos EUA, por exemplo, a maioria dos usuários é composta por brancos e a minoria por afro-americanos e hispânicos.

Pesquisas reforçam a constatação de que a Internet vem sendo bem mais difundida em áreas urbanas do que em áreas rurais. Há também uma concentração da provisão de conteúdo da Internet em regiões metropolitanas, onde as atividades que geram renda e oportunidades de emprego se encontram.

A deficiência física também constitui uma barreira para o acesso à Internet. Ademais, a difusão da mesma no mundo ocorre de modo desigual, concentrando-se na América do Norte, na Europa Ocidental e na Ásia, enquanto América Latina, Europa Oriental, Oriente Médio e África apresentam os índices mais baixos de acesso à Internet.

Castells conclui que a Era da Internet traz novos desafios para a humanidade. Tais desafios estão correlacionados com a instabilidade no emprego, a deterioração do meio ambiente, a necessidade de regulação dos mercados e direcionamento da tecnologia, as desigualdades, a exclusão social e a educação.

O autor critica o sistema educacional atual, sustentando que, na sociedade em rede, seria preciso instituir uma nova pedagogia, fundada na interatividade e no aprimoramento da capacidade de aprender e pensar. Contudo, apesar de ser visualizada como um desafio para a sociedade em rede, a questão da educação não é um tema central do livro, como o próprio autor reconhece na introdução.

Esta lacuna não chega a atingir a riqueza de dados históricos e informações acerca da Era da Internet, fundamentais para as áreas da Sociologia, da Economia, da Administração, da Política e das Ciências da Computação. Castells propõe ainda uma reflexão sobre a nossa responsabilidade, enquanto seres humanos, no controle da tecnologia. Sugere que para direcionar os artefatos tecnológicos será necessário nos conscientizarmos de que a democracia participativa e a mudança política são imprescindíveis para o enfrentamento dos desafios da sociedade em rede na Era da Informação.

(Visited 51 times, 5 visits today)
The following two tabs change content below.
Danny Sullivan

Danny Sullivan

Jornalista em formação e sereio profissional nas horas vagas. Considera-se geek e fã de outras coisas estranhas (tipo Naruto, Justin Bieber e K-pop).
Danny Sullivan

Posts Mais Recentes por Danny Sullivan (Ver Todos)

Comentários

pessoas comentaram

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *