Pequenas Grandes Mentiras

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Pequenas Grandes Mentiras é o segundo livro da autora australiana Liane Moriarty, publicado no Brasil em 2015 pela editora Intrínseca. Um livro ousado sobre as perigosas meias verdades que cada um conta para si mesmo para sobreviver. A história traz uma sucessão de conflitos familiares que desencadeiam um crime inesperado.

A escola pública da cidade de Pirriwee, localizada na Austrália, carrega o lema de “Uma zona livre de bullying”. Porém, na tão aguardada noite do concurso de perguntas, uma festa anual beneficente oferecida aos pais dos alunos, vários adultos, fantasiados de Elvis Presley e Audrey Hepburn, após ingerirem muita bebida, entram em uma confusão. O resultado é uma morte aparentemente sem testemunhas, já que segundo os presentes na festa, “ninguém viu nada”. Os questionamentos que ficam para dar início à história são: afinal, quem morreu? Seria mesmo um acidente ou alguém teria sido o causador de um crime tão brutal? Quais os motivos que levaram a essa morte? Para responder a essas perguntas, o leitor é levado há um flashback do que aconteceu seis meses antes da noite do concurso de perguntas.

A autora enfatiza a história de três mulheres. A bela e rica Celeste Wright, mãe dos gêmeos Josh e Max e que leva uma vida invejável. Celeste é casada com Perry, um casamento que parece perfeito demais. Madeline Mackenzie, uma mulher de 40 anos forte e decidida. Mãe de Fred e Chloe, filhos do seu atual casamento e da adolescente Abigail, filha do primeiro casamento. Ela não sofre problemas em seu casamento atual mas se incomoda com o ex Nathan, principalmente quando Abigail decide que quer morar com o pai.  Algo inaceitável, já que o ex-marido abandonou Madeleine e a filha quando esta era um bebê. Não bastasse isso, Skye, a filha do ex-marido com a nova esposa, está matriculada na mesma turma do jardim de infância da filha caçula de Madeleine. Por último, Jane Chapman. Uma mãe solteira e independente de 24 anos, que está chegando agora na cidade com seu filho de cinco anos, Ziggy, resultado de uma única noite com um homem desconhecido. Por ser mãe solteira, a jovem não é bem vista pelas outras mães. Chega a ser confundida com uma babá por causa de sua aparência jovem e simples.

Essas mulheres têm suas vidas interligadas através de seus filhos durante o dia de orientação deles para o jardim de infância da escola de Pirriwee. Nesse mesmo dia, Ziggy é acusado de praticar bullying, suspeito de tentar enforcar Amabelle, filha de Renata, uma das mães mais rígidas do jardim de infância. Por causa disso, Jane acaba ligeiramente isolada e passa a ser julgada pelo fato de seu filho não ter crescido com a presença de um pai e ser uma criança violenta. O fato de ser uma mãe tão jovem e por não ter uma condição financeira como a das outras mães contribuem para o surgimento de vários julgamentos prévios.  Apenas Celeste e Madeline continuam firmes em sua posição de amizade com a mãe solteira. É neste ponto da história que a união dessas três mulheres e mães acontece.

Através de capítulos curtos e uma narrativa ágil, a autora explora o enredo de forma intercalada e em terceira pessoa, alternando entre as três protagonistas e seus conflitos familiares. Ao fim de cada capítulo traz uma série de depoimentos dados à polícia pelas testemunhas presentes na noite da tragédia mencionada no começo do livro.

Percebe-se que há um contraponto entre as três personagens principais. De um lado, Madeline, que aparentemente possui um marido prestativo e que a ama, porém não a valoriza da forma que ela espera. Por isso, nutre um forte desejo de ter uma vida igual a de sua amiga Celeste, por vislumbrar na vida dela o casamento perfeito. Do outro lado, Celeste, que não consegue deixar o marido. Mesmo sabendo que o sentimento entre os dois mudou, opta por continuar num relacionamento abusivo, com um marido temperamental e impulsivo, onde a única conexão entre o casal é o sexo rápido, selvagem e sem sentimento. E entre elas há Jane, a mãe solteira de Ziggy. Sozinha, ela é atormentada pelos fantasmas de seu passado desejando fortemente que seu filho não herde as características do pai que nunca conheceu. Tudo isso está presente na forma de “pequenas mentiras”, onde a falsa imagem de felicidade e o “manter as aparências” são as coisas mais importantes na vida dessas mulheres e das pessoas que estão ao redor. E a vida delas é, de fato, baseada em mentiras para ocultar segredos sobre seus relacionamentos.

As personagens de Liane Moriarty expõem como o machismo e a violência contra a mulher encontram-se disfarçados dentro dos lares. Ninguém espera que, nos lugares mais belos, nas famílias mais abastadas e aparentemente perfeitas, grandes tragédias se encontrem. Desde o homem que abandona a esposa com um bebê recém-nascido e ressurge anos depois como o herói da história, o pai de família exemplar, que não fora no passado, até um homem que estupra uma jovem e comete violência contra a própria esposa. A história de Pequenas Grandes Mentiras desconstrói a ideia de que existe um perfil de vítima.

Mulheres de todos os perfis, independente de seu status social, podem ser vítimas cotidianas da violência. Nem sempre a vítima será passiva, que não reage à violência que lhe é imposta e estampa em sua face a dor que tenta esconder. Todo dia, mulheres diferentes são obrigadas a enfrentar as consequências de longa duração que as interações com homens que, inseridos numa sociedade onde a violência contra a mulher se faz massiva, podem ocasionar.

Através do cenário de uma escola de jardim de infância, em uma cidade pequena onde nada de ruim acontece, a autora discute os relacionamentos familiares modernos enquanto resultado de uma cultura de opressão contra a mulher. Não somente questiona a imposição da maternidade como definição do feminino, como reflete acerca da herança que se concede a crianças criadas em lares de perpetuação da cultura machista, de forma a evidenciar a transmissão da violência. Enquanto esta não for criticada arduamente e combatida, será considerada pelas gerações futuras como um hábito a ser mantido. Apesar de todas as reflexões sobre a cultura machista – entre violência, abuso, problemas familiares e idealização do corpo feminino -, Pequenas Grandes Mentiras é um livro consideravelmente leve. A autora equilibra as passagens de profundidade psicológica – para algumas das quais realizou pesquisa sobre a violência doméstica – com cenas cômicas e com um gradual desenvolvimento do mistério apresentado nas primeiras páginas.

A vantagem de se ler uma obra como essa é o poder que ela tem de mostrar a imensidão da humanização dos personagens. Em todos os momentos é possível notar que existe aquele tipo de pessoa na vida real. Diariamente é possível se deparar com notícias ou relatos de pessoas próximas que podem ser identificados nos personagens do livro. Desde o marido que bate na esposa, a ex-mulher com rancor e talvez um pouco de inveja do ex-marido e a vida que ele escolheu ter com outra, a mãe de primeira viagem, a criança praticante de bullying no ambiente escolar e os ricos que fazem questão de demonstrar sua superioridade. A realidade mostrada na narrativa é muito palpável, o que torna a leitura atrativa, empolgante e muito pertinente.

Pequenas Grandes Mentiras é uma obra que supera as expectativas, porque apresenta um enredo mais profundo que o de um mero assassinato ocorrido em um evento escolar. Descobrir quem foi a vítima e quem foi o assassino não é a única motivação para devorar o livro até sua última página. Em determinado momento, o desejo de saber qual o desfecho da história dessas três protagonistas e compreender sua relação com o assassinato supera o mistério do livro de saber quem é o morto e quem foi o responsável. Ainda que o desfecho não seja tão impactante quanto o de outros romances policiais, é agradável por apresentar uma espécie de justiça em um mundo de tanta violência contra a mulher.

Recentemente, o canal de televisão por assinatura HBO produziu uma minissérie baseada no livro de Liane Moriarty. Com roteiro e produção de David E. Kelley, a série é composta por sete episódios. O elenco conta com nomes como Reese Witherspoon (Madeline Mackenzie), Nicole Kidman (Celeste Wright) e Shailene Woodley (Jane Chapman). Vale a pena conferir a adaptação.

 

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Emanuelle Lopes

Emanuelle Lopes

21 anos, estou sempre com fome, apaixonada por música, livros e séries, mesmo não tendo todo o tempo que gostaria para se dedicar a esses dois últimos. Amo escrever. Alguns gostam do que escrevo, apesar de achar tudo que produzo irrelevante para a sociedade. Estudante do 7º período de jornalismo.
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