#PETRéporter: Opções Alternativas de Cinema em Manaus

Posted on Posted in #PETRepórter

“Eu sinto falta dos filmes que falam das minorias, sobre a nossa realidade manauara, filmes que falam de pessoas que fazem a diferença e que abrem os horizontes das opiniões.”

Em Manaus, a sétima arte ainda caminha tentando se inserir no circuito de cinema nacional. Vozes manifestam seu interesse por uma diversidade que parece não chegar à cidade. Sabendo desta realidade como Claudia Muniz da Cunha, autora da fala acima, aprecia o cinema que vai além do que é tradicionalmente oferecido?

A estudante de Engenharia de Materiais com agora 24 anos recorda quando era criança e frequentava o Cine Chaplin no Centro com a mãe. O hábito ainda se repete atualmente nas salas disponíveis nos shoppings. Mas gostar de cinema não faz essa ida ao local algo necessariamente bom. Para Cláudia, que espera do filme algo fora do padrão, a programação dos cinemas como um todo não atendem às suas expectativas. Os filmes alternativos trouxeram para ela um leque de novos atores, diretores e novas formas de enxergar um assunto. Como ela mesma diz: “depois que passei a consumir filmes que tem outra pegada, a minha visão crítica, o meu olhar sobre o outro mudou muito.” Esse é um dos efeitos causados ao espectador que explora as vertentes do cinema que estão fora do conhecimento geral, mas que guardam um repertório artístico incalculável.

A liberdade de criar é o que permite que uma produção possa revolucionar formas e estruturas de pensar. A chamada liberdade artística abriu os horizontes para muitos estilos e filmes lançados. Mercadólogo e cineasta, Davi Pereira Penafort, de 19 anos, defende a universalidade do cinema como arte. Mesmo não apreciando todos os tipos de filmes alternativos Davi preza pela existência dos mesmos, “afinal, a arte não é arte se não há liberdade” diz ele.

Como artista visual Khetllen da Costa Tavares estabelece uma relação com a linguagem cinematográfica apreciando a obra especialmente pela sua direção de arte, atentando-se às imagens, à fotografia. Simultaneamente como espectadora imerge no enredo do filme: “Sou envolvida por histórias nada convencionais que misturam ficção, fantasia, realidade, isto é, que criam universos singulares”, declara Khetllen Tavares.

Através do circuito independente a artista costuma apreciar esse tipo de produção, no qual o autoral e o experimentalismo possibilitam novas construções e percepções da realidade.  Na faculdade, por meio do contato com as diferentes linguagens visuais em sala e através de sessões de cinema na Ufam, Khetllen impulsionou o seu gosto já presente por filmes. Fez cursos na área, produziu, conheceu amantes do cinema e viu mais de perto a vontade e os obstáculos para fazer cinema alternativo. Foi nesse meio que ela viu a singularidade dos cineastas, singularidade essa que permite haver o que segundo Khetllen seriam outros modos de existir dentro desse sistema cinematográfico.

Esse gosto pelo aspecto mais autoral do cinema não é, entretanto, comum para a maior parte da população manauara. Como diz Ayrton de Oliveira, estudante da Ufam de Letras Língua Inglesa: Acho também que as pessoas não querem assistir o que foge da ação, da aventura e da comédia. Eles querem ir para o cinema para ter uma diversão”. O estudante aponta que é preciso considerar que na lógica do cinema comercial é necessário exibir aquilo que vai dar público. As suas primeiras memórias relacionadas à paixão pelo cinema estão ligadas às trilogias de O Senhor dos Anéis e especialmente à De Volta Para o Futuro.

“Depois de um tempo você não quer mais consumir, como também quer expressar sua opinião, então eu acabei começando a escrever um pouco mais sobre cinema.”- diz Ayrton de Oliveira, que escreve para o blog Mapingua Nerd e é colunista para o Spoiler e Pipoca.

As discussões que envolvem o cinema em Manaus, mais especificamente o cinema alternativo, ainda são tema de inúmeros questionamentos. O acesso às produções do cinema independente não é o ideal. Apesar disso, o público de cinéfilos em Manaus alcança de formas variadas outros meios para ter disponível o que não chega à cidade, principalmente pela internet. Essa dificuldade de acesso aos filmes da chamada categoria cult  afeta em diferentes intensidades o grupo que busca por mais opções de filmes.

A maioria dos debates gira em torno da necessidade de maiores ofertas alternativas de filmes versus a demanda que essas produções terão do ponto de vista financeiro. As empresas defendem que a exibição de produções mais alternativas não atrai as pessoas e causam prejuízos. O público que almeja um leque com maior variedade de filmes de arte demonstra insatisfação com a quase totalidade de filmes no estilo Hollywood na programação. Um círculo vicioso se forma e o embate entre cinéfilos e as distribuidoras somente se corrobora. Com o propósito de modificar este quadro algumas ações já foram realizadas, mas o problema ainda persiste.

De quem é a culpa?

O.J Made in America, do diretor Ezra Edelman, documentário americano lançado em 2016

Martírio, documentário nacional voltado às lutas indígenas no país: exibido somente no Cinépolis Millenium, por uma semana com horário único. O.J Made in America, vencedor na categoria de melhor documentário em 2017: não foi exibido em Manaus.  Moonlight, melhor filme de ficção no Oscar 2017: estreou em Manaus uma semana após estrear em todo o Brasil. A Chegada, com oito indicações ao Oscar e ganhador na categoria de edição de som: ficou uma semana na cidade.

Ao abrir o caderno de cultura em uma quinta-feira, qualquer pessoa que acompanha regularmente o lançamento de filmes na cidade de Manaus pode notar a falta de títulos menos comerciais nas salas de cinema. Com exceção da rede Cinépolis, as outras empresas colocam em suas programações diárias, filmes que irão dar um lucro regular para as suas sessões. Então, a escolha por um ator conhecido ou algum filme de alguma franquia bem popular sempre terão prioridade a um filme totalmente contrário a essas características. “Leandro Hassum sempre, na visão dos empresários, será melhor que Pedro Almodóvar. Sim, é triste dizer isso, mas, é fato”, desabafa Caio Pimenta, editor-chefe do site de cinema Cine Set.

“Em Manaus, os cinemas têm uma programação que privilegia filmes muito comerciais, geralmente comédia […] quem não compartilha desse gosto, acaba não vendo outros gêneros cinematográficos”, afirma Khetllen Tavares. O que a fala anterior menciona é ilustrado também na opinião de Ayrton de Oliveira, quando declara que “na maioria das vezes, os cinemas de Manaus não suprem os meus gostos”. Ambos apontam o fator financeiro como principal causa para isso. Para Cláudia Muniz gastar dinheiro com alguns filmes não vale a pena, sente falta de uma mobilização que mude isso. O que Davi ressalta é que as distribuidoras são empresas e como tais satisfarão os gostos da maioria: “A programação dos cinemas em nossa cidade – assim como em outras do país – gira em torno do público. Se o público deseja mais filmes dublados, existirão mais sessões dubladas. Se o público só quer ver filmes legendados, existirão mais legendados”, afirma Davi Penafort.

Isso não quer dizer que Manaus é uma capital que evita filmes alternativos. Em algumas ocasiões, filmes que muitos cinéfilos duvidam que irão passar na cidade acabam surpreendendo os leitores dos cadernos culturais de quinta-feira. Mas o inverso também acontece: quando filmes dirigidos por diretores populares ou muito importantes não são exibidos.

No entanto, mesmo quando filmes alternativos ou populares são exibidos, ainda podem enfrentar o problema na duração da programação. Um exemplo disso é o premiado A Chegada, filme de ficção-científica dirigido por Dennis Villeneuve, que ficou apenas uma semana em cartaz em algumas salas de cinema da capital. Outro problema é a localização das salas e a hora em que são exibidos: para muitas pessoas, alguns filmes alternativos passam somente em locais longe da maioria da população ou passam apenas em horários noturnos. Para acrescentar a esta lista, também se encontra a questão da dublagem. Muitos espectadores preferem ver os filmes no idioma original, mas osque estão legendados são exibidos em sessões únicas e, na maioria das vezes, somente à noite.

“Além disso, observo a falta de filmes nacionais na programação, ou pelo menos uma sessão que contemple filmes advindos da Região Norte. Diferente de outras cidades como Recife em que há uma abertura para exibição de filmes advindos daquela região.”, salienta a artista visual manauara Khetllen da Costa Tavares, sobre a questão dos problemas nas salas de exibição em Manaus.

Justamente para evitar estas complicações, algumas cidades do país têm espaços culturais do governo ou da iniciativa privada que investem em salas de cinema bem desenvolvidas e que apresentam uma programação bastante eclética. Em Recife, a Fundação Joaquim Nabuco inaugurou no ano passado o Cinema do Museu do Homem do Nordeste. A sala apresenta um equipamento de projeção digital, som Dolby 7.1, 160 assentos e futuramente terá um projetor de filme analógico.

Além das qualidades técnicas, o que chama a atenção é a programação do cinema. Foram exibidos filmes como Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman; Fátima, de Philippe Faucon; A Morte de Luís XIV, de Albert Serra, entre outros. Todos os filmes são exemplos de obras que fogem das convenções do circuito comercial e apresentam um conteúdo de denúncia social, experimentações estilísticas ou um forte subjetivismo das ideias do diretor.

Nas cidades de Aracajú e Natal, Caio Pimenta diz que quando as exibidoras da cidade notaram que existia público para exibir filmes alternativos, elas começaram a investir nesse viés. No dia 30 de maio, em uma sessão única, às 20h, foi exibido o clássico 2001: Uma Odisséia no Espaço. De acordo com Caio, essa é uma sessão com ingressos esgotados e faz parte das sessões especiais “Clássicos do Cinemark”. Essa mesma inciativa apresentou filmes antigos em Manaus, porém a média de público era muito baixa. Caio Pimenta conta: “Isso para não falar dos Clássicos do Cinemark: vi “Rastros de Ódio” e “O Poderoso Chefão 2” comigo e mais uma pessoa. “Casablanca”, “007 Contra o Satânico Dr. No” tiveram público de até dez pessoas para salas com mais de 150 lugares.”

Mas se há um grupo de pessoas que não se sente contemplada com a programação oferecida ou com a não exibição de alguns títulos, o que ocorre? Em 2013, o filme Azul é a Cor Mais Quente foi lançado em todo o Brasil, mas não chegou a Manaus. Campanhas online foram levantadas para reunir votos de pessoas interessadas em assistir o filme para apresentá-los à distribuidora. No dia 17 de janeiro de 2014 a obra de Abdellatif Kechiche chegou à capital amazonense. A mesma campanha trouxe para Manaus o filme Ninfomaníaca, do diretor Lars Von Trier. A produção estreou em 10 de janeiro de 2014 em todo o Brasil e em Manaus no mesmo dia que Azul é a Cor Mais Quente.

Outras campanhas também chegaram a ser promovidas, como a que foi organizada em 2014 para trazer o filme Hoje eu não quero voltar sozinho, do diretor Daniel Ribeiro. Esses são alguns exemplos de ações diretas que ocorreram com o objetivo de atender também o público que não quer somente o que está previsto como lucrativo para as distribuidoras. As redes sociais foram a principal ferramenta de divulgação desses atos.

Em contrapartida sessões que foram criadas excepcionalmente para esse público, mesmo após requerimentos formais elaborados, não costumam ser lotadas. Danilo Areosa, colunista do site Cine Set opina sobre isso: “Precisa divulgar melhor? Precisa. Mas quando a gente consegue uma boa divulgação o público ainda não vai”. Para ele existem vários fatores que ocasionam isso, seja pela publicidade ou comodidade de assistir em casa. Danilo menciona como exemplo o filme nacional Aquarius, do diretor  Kleber Mendonça Filho, lançado em 2016. Segundo ele foi um filme que gerou polêmica e chegou a Manaus, mas nas duas sessões em que compareceu não estavam muito cheias, apesar da confirmação das pessoas pelas redes sociais.

“Eu conversei com outras pessoas e elas também falaram ‘Olha, a minha sessão também estava vazia com mais ou menos um pessoal’. Então é só um exemplo assim para você ver que muitas vezes não é apenas a questão da divulgação”, declara Danilo. Ele sugere ainda uma pesquisa quanto a isso para verificar o que leva a população manauara a frequentar os cinemas.

Os cineclubes em Manaus

Há também os festivais e cineclubes que oferecem opções alternativas de filmes. Estes últimos, porém, não são sempre bem conhecidos, mesmo para aqueles que têm gostos mais seletos. Ao caminhar pelo centro da cidade de Manaus, os espaços voltados a essa possibilidade encontram-se fechados.

O Palácio da Justiça apresentava um cineclube com sessões todos os domingos, porém deixou de funcionar ano passado e ainda não há previsão de retorno

No Palácio da Justiça filmes de domínio público eram exibidos diariamente. Depois, as sessões aconteciam somente aos domingos, até que teve suas atividades suspendidas no ano passado. Funcionários do espaço afirmam que devido às limitações do acervo de filmes e a pouca quantidade de expectadores, inevitavelmente, o cineclube fechou. Recentemente, o cineclube Gebes Medeiros voltou a funcionar. Localizado na Eduardo Ribeiro, Centro de Manaus, o cineclube passou um período desativado. Segundo a administração do Gebes Medeiros o número reduzido de pessoas e os gastos para manter o local funcionando contribuíram para isso.

Em maio, o Teatro Gebes Medeiros recebeu o Festival de Cinema Europeu, dando destaque às produções que estão fora do circuito comercial de Manaus

Como apreciador do cinema Davi Penafort comenta que deseja frequentar cineclubes, mas não conhece nenhum e para ele a divulgação ainda peca em não ser tão abrangente. A estudante Cláudia teve acesso a um cineclube através da Ufam, frequentando o Cine & Vídeo Tarumã. De acordo com ela, os filmes exibidos abriram as possibilidades em sua mente, apesar do pequeno número de pessoas que frequentam cada sessão.

Em Manaus isso é bastante comum, principalmente porque não há o hábito de se frequentar cineclubes no geral, além das dificuldades de divulgação e investimentos nesse empreendimento. É considerada também a maior quantidade de plataformas através das quais o indivíduo pode ter acesso a uma verdadeira biblioteca de filmes. Sejam pagos ou gratuitos, há os softwares para download de filmes da internet ou os serviços de streaming on demand, como a Netflix.

O CineSet, além de produzir conteúdo para a web, também promove discussões e minicursos para fazer uma reflexão sobre a sétima arte

Para Khetllen essa preferência pela programação do cinema comercial e desconhecimento dos cineclubes é algo que vai além das redes de cinema. É relacionada também com a deficiência na fomentação de um mercado de artes em Manaus, que aproxime o público da diversidade cinematográfica e contemple as produções desenvolvidas na região.

(Visited 69 times, 2 visits today)
The following two tabs change content below.
Iolanda Ventura

Iolanda Ventura

Sempre ouviu lhe dizerem: "Nossa, você escreve muito! Como consegue fazer tanto texto? Não cansa não? Escolher jornalismo foi a prova que não cansa de escrever. Ela já tinha sido escolhida pelo curso e não sabia. Gostava de muitas coisas diferentes e a indecisão era grande. Quando a ficha finalmente caiu viu para que realmente tinha vocação e que de tudo que gostava Jornalismo tinha um pouco. Até chegar em jornalismo demorou, mas ainda bem que chegou.
Iolanda Ventura

Posts Mais Recentes por Iolanda Ventura (Ver Todos)

Comentários

pessoas comentaram

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *