Pigmalião e o mito da mulher perfeita

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Você é um escultor extremamente dedicado à sua arte, deixando de lado sua vida social e alguns possíveis interesses românticos para finalizar uma estátua de marfim. Ao terminá-la, você se apaixona perdidamente por ela e implora para que Afrodite, a deusa do amor, a transforme em uma mulher real, o que acontece. Esse é o mito grego de Pigmaleão, contado por Ovídio. Nele, o homem molda, ele próprio, a mulher dos seus sonhos.

Foi baseado nesse mito que o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, escreve a peça Pygmalion, que estreia em 1913. O enredo possui três atos e se passa em Londres, no início do século 20. A peça faz duras críticas à desigualdade social londrina e a determinados papéis de gênero, sendo considerada um clássico das comédias românticas. Seu roteiro escrito é um dos maiores clássicos da literatura em língua inglesa.

Eliza Doolittle é uma florista extremamente pobre que acaba esbarrando em Freddy Eynsford-Hill, que estava acompanhado por sua mãe e sua irmã, Clara. Coronel Pickering, um homem rico e gentil, ajuda a retirar as flores de Eliza, que haviam caído na lama. Enquanto isso, Henry Higgins, professor de fonética e amigo de Pickering, transcreve tudo que Eliza fala. No fim, Higgins diz para Pickering que irá fazer de Eliza uma dama da alta sociedade apenas ensinando-lhe boas maneiras e a falar corretamente.

Durante a trama, Higgins dá aulas de etiqueta e fonética, compra roupas e faz com que, ao fim, Eliza realmente consiga se passar por uma socialite. Seu sotaque e seus erros gramaticais tornam-se nulos e ela passa a ser admirada por todos. Algo interessante é, apesar das diferenças sociais e de idade, a tensão romântica entre Higgins e Doolittle que nunca se concretiza.

E é aí que se chega ao mito grego: Higgins, como Pigmaleão, e Eliza Doolittle, transformada, como sua amada estátua de marfim. Higgins nutre sentimentos por Eliza, mas sempre os esconde através de uma camada de sarcasmo e rigidez. A diferença em relação ao mito, nesse caso, é que Eliza não escolhe ficar com Higgins, e sim estudar para se tornar professora.

Pigmalião é um texto repleto de ironia e frieza, características do arquétipo britânico, mas não deixa de ser gracioso por isso. A decisão de Doolittle – além de rejeitar Higgins, se casa com Freddy Eynsford-Hill – retrata uma sociedade onde as mulheres começavam a ganhar seu espaço, ainda que seja uma peça escrita por um homem. Além do mais, um aspecto importante da obra é o modo como Higging “coloniza” Eliza e se apaixona pela própria “obra”. Freddy, por outro lado, apesar de desajeitado, sentiu-se atraído por Eliza quando ela ainda era uma vendedora de flores.

A peça foi uma das primeiras a romper com estereótipos sexistas a respeito do que seria necessário para uma mulher ser bem-sucedida na sociedade da época. Para Eliza, seu objetivo tornou-se ser professora e apresentar a outras pessoas aquilo que Higgins a havia ensinado, ainda que por motivos, muitas vezes, superficiais: a educação.

Mas, você que leu esse texto até aqui já deve ter percebido que a estrutura de Pigmalião lhe é bem familiar. Desde filmes clássicos como My Fair Lady e Uma Linda Mulher a besteirois como Confissões de Uma Adolescente em Crise, muitos filmes são baseados, ou fazem adaptações do texto de Bernard Shaw.

Para citar um exemplo mais recente e produzido em terras brasileiras, a novela Totalmente Demais (Rede Globo, 2016) é uma adaptação da peça. A história central não difere em nada da original, tendo sido acrescentados apenas alguns núcleos para tornar a história mais cativante para o público.

Eliza (Marina Ruy Barbosa) em Totalmente Demais

Eliza (Marina Ruy Barbosa) era uma vendedora de flores muito pobre que, um dia, recebeu ajuda de um rapaz desajeitado, Jonatas (Felipe Simas). E, após um tempo, foi descoberta por um olheiro de uma agência de modelos (Fábio Assunção), que a leva para casa com o objetivo de torná-la uma top model. Os dois, na novela chegam a ter um relacionamento, também na tentativa de tornar a trama mais vendável. Porém, o final original é preservado e Eliza continua com sua carreira, mas prefere ficar com Jonatas.

A importância de Pigmalião não está apenas em sua qualidade literária e cênica, mas também na sua adaptabilidade a modernos. A tentativa de moldar o outro com base nos seus próprios critérios é uma forma de colonização. Em tempos nos quais discussões sobre equidade de gênero são tão afloradas, o texto continua sendo um prato cheio para adaptações e representações em outras áreas.

 

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Cecília Costa

Cecília Costa

Quando criança, dizia que sua profissão seria “Leonardo da Vinci” porque ele fazia de tudo um pouco. Já quis ser astronauta, cientista, bailarina e antropóloga e, hoje, é estudante do curso de Jornalismo da UFAM. Ama contar histórias e, assim, nunca conseguiu ficar com caneta e papel nas mãos sem escrever, rabiscar e transbordar.
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