Um mundo lindo repleto de horror

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Pieles (2017) é um filme escrito e dirigido pelo espanhol Eduardo Casanova

Por Antônio Carlos da Costa Lopes

“O mundo é horrível, mas não podemos fugir disso, porque nós somos o horror”. Essa é, sem dúvida, a frase mais impactante da obra, pois não tem como negá-la. O horror é visto todos os dias na intolerância, no preconceito, no abuso psicológico em relacionamentos abusivos, no bullying, no egoísmo, nos padrões impostos pela sociedade. Pieles (2017) despe parte desse horror trazendo-o à superfície sem atenuações.

O filme, escrito e dirigido pelo espanhol de 26 anos Eduardo Casanova, é um retrato explícito e grotesco da superficialidade humana, do quanto se julga cada vez mais rápido pessoas sem conhecê-las, decidindo se são merecedoras daquele like ou não. Além disso trata também do amor próprio e do quanto falta isso em cada um. A obra expõe deformidades de diversos tipos nas personagens, das físicas às comportamentais. Buscam conquistar a aceitação, aquele selo invisível que atesta a  normalidade, portanto o “passe-livre” para viver em sociedade.

Cada personagem apresenta uma realidade, uma deformidade que assusta e, em certas situações, chegam a ser engraçadas. Mas, de tantas reflexões e questões que podem surgir na mente do espectador ao longo do filme, uma constante é o esforço que todos fazem para tentar levar uma vida normal e a dor, tão brilhantemente transmitida nas interpretações, de saber que isso é uma luta árdua.

Paralelamente a isso está o sonho de mudar para se encaixar, agradar, para ser aceito: ter uma boca “normal”, fazer uma cirurgia de reconstrução facial, ter um corpo mais padronizado, achar alguém perfeito para viver junto, ter uma cauda de sereia para que seu pai lhe ame. Impossível não pensar em quantas pessoas travam essas batalhas todos os dias, por vezes sozinhas e caladas. Tudo em virtude dos padrões, esmagadores da singularidade, de alcance global e pela falta de diálogo, de respeito e entendimento.

A personagem Samantha, interpretada pela atriz Ana Polvorosa

A insatisfação com a vida é um dos pontos centrais. As imperfeições servem para ilustrar isso, de maneira que todos vejam que não se trata apenas de um “queria usar tamanho 38”, “gostaria de ser mais alto”, “ai, meu nariz é horrível” ou qualquer outra coisa do gênero. Nessas confissões está presente o anseio pela aceitação. Cláudia (Carmen Machi) busca entender o porquê de seu marido tê-la abandonado no dia em que estava dando à luz ao seu filho. Chega a culpar a criança por isso, dizendo que se o problema era esse, ela poderia ter abortado.  Samantha (Ana María Polvorosa) apresenta o sistema digestivo de cabeça para baixo e sonha em ter a boca no lugar certo. Um diário repleto de bocas mostra o quanto ela sofre com isso todos os dias, especialmente, ao tentar postar uma foto na rede social Instagram. Guille (Jon Kortajarena) possui queimaduras por todo o corpo. Apesar de ter uma namorada que o entende e aceita, ele sonha com o rosto perfeito ao folhear as páginas de uma revista repleta de modelos bonitos.

Mas é Ana (Candela Peña) a personagem que melhor ilustra a mudança como ela deve ser: interna, de satisfação consigo mesmo. Ela possui uma deformação no rosto e tem dois namorados: Guille (Jon Kortajarena) que deseja realizar uma operação facial para corrigir as cicatrizes das queimaduras, e Ernesto (Secun de la Rosa) que tem fascínio pelo o que ela é, que “gosta de mulheres como ela”. Nessa parte o autor apresenta de maneira distorcida e reversa, algo comum: pessoas que se envolvem com outras pela aparência física, por puro comodismo e superficialidade. Ao questionar seu parceiro com “você gosta de mim ou da minha aparência?” e, depois, declarar “sou mais do que só deformação”, Ana ensina que é preciso se aceitar e se amar, acima de qualquer outra coisa. Ela escolhe ser feliz e faz isso decidindo viver sozinha, pela primeira vez sem a mãe e sem um homem. Importantíssimo destacar essa personagem, pois ela mostra o quanto o não é um ato de coragem e significa mudança, afinal ela está dizendo sim para si mesma. Se for verdade que “nós aceitamos o amor que achamos merecer”, como disse Stephen Chbosky em “As Vantagens de Ser Invisível”, então que esse seja o melhor, a começar pelo próprio indivíduo.

Ana (Candela Peña) é uma personagem que mostra a coragem de optar por si

O filme possui outros elementos que merecem destaque como o contraste entre o feio e as cores da fotografia, o que se torna algo surreal e prende aquele que está assistindo. Cumpre o papel de dar a sensação de que é um mundo lindo repleto de horror.

A mudança vem do confronto entre o que está acontecendo e a possibilidade de sair disso, tendo o medo como mediador por não saber o que vem a seguir. Os personagens arriscam ir atrás de algo mesmo assim, afinal se o agora não está bom, não há motivo nenhum para continuar, mesmo que não haja nenhuma garantia de que o depois seja melhor. Permanecer por medo não é uma opção.

A película desperta uma inquietação maior do que outra como, por exemplo, Laura (Macarena Gómez), uma prostituta cega desde seus 11 anos. Ela funciona como a profissional perfeita, pois não vê seus clientes, o que os torna mais a vontade com seus instintos, afinal não estão sendo encarados e julgados. Eles não falam com ela, não a deixam tocá-los. A dona da casa onde reside, acalma os que ali passam em busca de alívio para os piores desejos em si dizendo que algumas pessoas nasceram para sofrer e que sobre isso nada pode ser feito, pois é o destino delas. Ao contrário dos outros, Laura não muda, ela ajuda outra personagem (Itziar Castro) a mudar. Juntas descobrem que o amor aceita, que ele não envolve vergonha, medo.

“O mundo é horrível, mas não podemos fugir disso, porque nós somos o horror” (Pieles, 2017)

Existem inúmeras possibilidades de interpretação e muitas discussões podem ser levantadas em cima desta obra. O título faz todo o sentido ao final. O filme é cheio de peles, assim como as pessoas: cheias de camadas que escondem sua real natureza, seus desejos, seus medos. Essas são difíceis de remover, porque não envolvem somente o indivíduo, mas tudo o que está a sua volta. Se você remove esta ou aquela pele, imediatamente, alguém aparece com olhar de curiosidade, de reprovação, de medo, uns poucos de apoio ou de qualquer outro sentimento, mas nunca sem.  O espectador escolhe a pele que quer enxergar, tocar e sentir.

Trocar de pele é algo que representa a transformação, vem da própria natureza. O fenômeno é mais bem observado entre os répteis – comumente as cobras – e, um fato curioso, a ausência desse processo pode causar problemas no crescimento do animal. Metáfora mais perfeita, neste contexto, não há: trocar de pele é mudar, é crescer. Como bem colocou a cantora Pitty na música “Serpente”: Chega dessa pele, é hora de trocar/ Por baixo ainda é serpente e devora a cauda / Pra continuar. Ou seja, de vez em quando é preciso ter a bravura de dizer não para coisas, situações, pessoas que sufocam e devorar a cauda, remover aquela pele antiga e, enfim, continuar. Especialmente, em uma realidade cheia de imposições e mecanismos que segregam e elencam as pessoas nos mais diversos status, fazendo do “diferente” uma deformação grotesca.

 

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Antônio Lopes

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Atualmente, divide o amor entre gatos, natureza, músicas, comida, livros, filmes e séries ( e mais comida). Perturba a mãe por roupas novas, treme quando dirige, tenta fazer Art Attack até hoje e gosta de áudios de discussão sobre a vida. Tudo isso enquanto aprende "o que faz um RP mesmo?"
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