O maior peso que carreguei

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Talvez esse texto não traga muitas novidades se você, como eu, tiver sofrido problemas relacionados à imagem corporal e oscilações de peso. Encare como um desabafo, nesse caso. Do contrário, se nunca tiver vivido na própria pele as coisas que se seguirão aqui, encare isso tudo como um novo olhar para exercitar sua empatia.

Sempre gostei de comer. E comer de tudo, incluindo coisas ditas saudáveis. Comer era o que eu fazia tanto pra comemorar minhas conquistas quanto pra lamentar coisas que não deram tão certo. Na infância, era uma das mais altas e gordinhas da sala de aula. Eu também gostava da minha imagem, até porque não tinha noção dos padrões dos quais eu estava completamente fora.

A única vez, na infância, que lembro de ter sido atingida por isso, foi quando, no parquinho do colégio, não me deixaram entrar em um dos brinquedos. Eu pedi pra brincar, não deixaram e todos que estavam lá começaram a rodar o brinquedo cada vez mais rápido, passando por mim, repetindo baixinho e com caretas:

“Gorda”.

Talvez essa não tenha sido a primeira vez que me chamaram de gorda ou afins, mas é a primeira que me atingiu. Lembro que saí correndo e contei pra professora, que brigou com eles e mandou que eu participasse da brincadeira também. Mas, como vocês podem observar, não foi o final da história que ficou na minha lembrança.

Comecei a fazer dieta por aí, na época da alfabetização. As primeiras, acompanhadas de perto pela minha pediatra e minha mãe. Eu, como criança millennial que era, tinha ficado condicionada aos maus hábitos alimentares, como comer em função do horário dos meus desenhos animados favoritos. Ok, era indispensável que eu fizesse uma reeducação alimentar o quanto antes. Enfim, consegui chegar ao peso mais ou menos ideal.

Só que, pouco tempo depois, veio a puberdade. Um milhão de hormônios que nunca tinham dado as caras resolvem aparecer e tudo vira uma bagunça: quadris alargam, pele oleosa, pelos, retenção de líquido, cólicas, sangue, tudo de uma vez só. Então o que chegou a ser quase ideal, desandou. Entre meus 12 e 16 anos, no alto dos meus 1,60m, beirei os 90kg.

Um dia desses percebi que quase não tenho fotos dessa época.

E foi aí que tomei noção de que meu corpo realmente estava fora dos padrões. Sabe, sempre tive fama de “certinha” e “exemplar” em tudo que fazia, ainda que não fosse a pessoa mais falante do mundo. Minhas notas eram sempre umas das maiores e era difícil encontrar algum adulto que não me achasse uma ótima influência. Buscava perfeição em tudo que fazia, produzia. O meu corpo não ser ideal era um fracasso do qual não me perdoava.

E, às vezes, me pergunto se já perdoo.

Só que aqui começa um raciocínio mais difícil de entender se você nunca passou por isso. Como disse no início, a comida era minha recompensa e, ao mesmo tempo, minha consolação. Olhar pro meu corpo, achá-lo repugnante – e, sim, essa foi a palavra certa – me deixava triste. E isso me fazia querer largar tudo e comer o quisesse, porque eu nunca seria bonita o suficiente. E, bem, eu comia. Muito.

Cinco minutos depois eu me sentia culpada.

Acho que se você nunca viveu algo assim, deve ser difícil imaginar a vida se sentindo culpado por ter comido cada refeição do dia. Mas foi exatamente isso. Por anos, cada mordida que eu dava em alguma coisa que gostava era um prazer momentâneo que, minutos depois, se transformava em uma culpa insustentável.

Isso me transformou em uma grande conhecedora de dietas da moda. Paleolítica, dieta da banana, dieta da USP, Ravenna. Algumas eu mesma criava e seguia rigorosamente por meses, o que, a longo prazo, me trouxe uma série de problemas de saúde. O meu maior medo em não cumprir à risca as dietas com as quais me comprometia era justamente sentir culpa por ter comido compulsivamente.

A compulsão alimentar foi, e ainda é, um dos meus grandes dilemas. Não foram raras as vezes que a culpa por ter comido algo, por menor que tenha sido, me fez ingerir remédios que, na minha cabeça – que fique bem claro, um raciocínio doente – impediriam que o alimento fosse absorvido pelo corpo. Tomava remédios sempre que sentia culpa. Remédios não receitados, escondidos. Por pouco não fui parar no hospital.

Nunca procurei um diagnóstico e, por isso, hesito em dizer, mas meu comportamento tinha traços de bulimia. Se você apresenta comportamento semelhante, seja tomando remédios escondido, provocando vômitos, ou pela culpa insustentável ao comer algo que gosta, você definitivamente precisa de ajuda.

Parei de tomar os remédios depois de aumentar a dose por conta própria e passar mal durante um almoço. Não foi lá tão fácil, mas parei sozinha. Só que, sabe, até hoje, não me sinto completamente curada. Recuperada sim, mas ainda me passa pela cabeça, em situações de exaustão, a ideia de que tomar esses remédios poderia me ajudar a não engordar. E, aqui, reforço: esse tipo de pensamento é doente, não alimente esse tipo de ideia.

“Todo gordo é preguiçoso”

“Só é gordo quem quer”

“Ela tem um rosto lindo, só falta emagrecer”

“Tá engordando, hein?”

E, vou dizer uma coisa justamente pra você que nunca foi atingido por essas frases: elas doem de uma maneira muito profunda em quem não sabe mais o que fazer pra se sentir bem com o próprio corpo. Em todos esses anos o que menos tive foi preguiça e força de vontade em tentar mudar meu corpo. E vou te dizer:

As pessoas, no geral, não sabem o quanto cansa enxergar seu corpo sempre como um inimigo.

Pra mulheres isso é ainda pior, o corpo feminino assume o lugar de submissão, de tabu, é considerado sempre impuro. Aliado a isso, milhões de revistas, desfiles e produtos midiáticos criam padrões que, apesar de muito mais rígidos pra nós, mulheres, atingem a todos. Somos acostumados desde cedo a nos submeter a eles caso queiramos encontrar alguém legal, ter um emprego e sermos levados à sério por quem quer que seja. Do contrário, somos preguiçosos e um eterno “só falta emagrecer”.

Hoje eu consigo enxergar isso. Há alguns anos, não. Assim como milhões de outras pessoas não enxergam.

Não foram raras as vezes que me pesar durante uma consulta médica foi um pesadelo. Eu já entrava sabendo que ouviria um “você tem que emagrecer”, e lembro de ter segurado o choro só por estar naquele ambiente. Eu me sentia vulnerável, por mais que sempre tenha tentado parecer o mais firme possível.

O mais difícil de escrever um texto como esse, pra mim, é ter que escolher os tempos verbais. Há questionamentos aqui que permanecem vivos há anos, e confrontá-los, mesmo entendendo que não tenho que me submeter a nenhum padrão corporal, ainda é muito doloroso.

Hoje, tenho um leve sobrepeso, sem problemas de saúdes decorrentes disso e enxergo minha compulsão alimentar com mais clareza e estratégia, depois de ter pesquisado muito sobre nutrição e procurar especialistas. Ainda sim, às vezes, me pego perguntando se o corpo que vejo no espelho é o mesmo que os outros veem. Até hoje me sinto culpada se achar que comi muito durante uma refeição.

A diferença, e isso eu posso dizer com certeza, é que percebi que não posso enxergar meu corpo como inimigo. Pode ser que esses pensamentos permeiem minha vida e me machuquem um pouco, mas foram a partir desses questionamentos que entendi minha relação com a comida e meu corpo.

O maior peso que carreguei é o de uma culpa racionalmente insustentável, uma busca por uma perfeição inexistente. E que, infelizmente, ainda é carregado por milhões de pessoas.

E estimulado por bilhões.

De dólares.

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Cecília Costa

Cecília Costa

Quando criança, dizia que sua profissão seria “Leonardo da Vinci” porque ele fazia de tudo um pouco. Já quis ser astronauta, cientista, bailarina e antropóloga e, hoje, é estudante do curso de Jornalismo da UFAM. Ama contar histórias e, assim, nunca conseguiu ficar com caneta e papel nas mãos sem escrever, rabiscar e transbordar.
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