#PETRéporter: Entrevista com Emerson Munduruku

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Emerson Munduruku nasceu em Santarém, no Pará e atualmente reside em Manaus, Amazonas. É graduado em Ciências Biológicas no Instituto Federal de Educacão, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), exercendo a profissão de biólogo. Desde 2016, Emerson atua como drag queen na capital amazonense. Identifica-se como não-binário e atua na militância da causa LGBT+.

Uýra nasceu em Manaus, é uma criatura da floresta, com um corpo semelhante ao de um humano, decorado com pinturas e envolto pelo verde das folhas das árvores. Na cabeça, as mesmas folhas verdes de diferentes formatos, algumas caem e enconstam em seu ombro, outras encostam em seus calcanhares. No rosto pintado de branco, folhas ou flores de diversas cores. Uýra significa livre em tupi, assim, internaliza esta liberdade e também a transmite para os outros por meio de sua performace.

Esta entrevista se propõe a conhecer a vida de Emerson Munduruku, criador de Uýra. Busca entender seus conceitos, inspirações e ambições, no momento em que Emerson e Uýra, pessoa e persona, se unem e como isso reflete na existência de cada um.

PetCom: Quando você iniciou a se montar de drag Queen? De que forma as pessoas ao seu redor reagiram?                        

Emerson Munduruku: Comecei a me montar em 2016. As pessoas ao meu redor reagiram e reagem de formas diferentes. As mais próximas com naturalidade e motivação, as mais distantes com espanto e consternação.

PetCom: Como você escolheu seu nome artístico?

Emerson Munduruku: Uýra é do tupi e é o trecho de Uirapuru, que significa ave que voa livre. Uýra é do livre, então eu gosto desse termo, dessa ideia, desse estilo de vida e de pensar enquanto corpo.

PetCom: Como foi essa escolha por misturar elementos regionais na sua identidade drag? Como você acha que isso reflete a sua personalidade?

Emerson Munduruku: A Uýra enquanto identidade é fruto principalmente das pesquisas que eu tenho feito dentro da questão do imaginário amazônico, dentro da questão dos seres místicos, dentro desse apanhado das narrativas de origem das coisas, do mundo e tudo a partir da concepção indígena e da vivência e concepção também ribeirinha aqui da Amazônia. Então a Uýra seria a Yara, seria ao mesmo tempo o curupira, a caipora, todos esses seres místicos ao mesmo tempo. Enquanto identidade visual, estética propriamente falando, nada melhor expressa essa concepção conceitual do que uma folha do chão de uma floresta, um galho, uma semente, uma raíz.

Foto: Matheus Belém

PetCom: Atualmente, para você, a arte de fazer drag queen é mais um passatempo ou você considera uma profissão? 

Emerson Munduruku: Considero uma profissão – muito mal remunerada – que desenvolvo por amor e por necessidade de expressão ideológica.

PetCom: Como você vê o cenário drag aqui em Manaus em relação aos outros estados do país?

Emerson Munduruku: Aqui em Manaus tem uma cena drag, e essa cena drag existe em alguns cenários diferentes dentro na cidade. Por exemplo, tinha a antiga boate A2 e até agora tem a boate TS, que são pontos de encontro entre as manas drags e travestis. Essas manas fazem shows, performaces dentro desses lugares e até viajam às vezes para fora da cidade ou para o interior, fazem shows em Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo. O outro cenário drag que existe é mais novo com umas mana, umas bichas mais novas que se montam e frequentam alguns espaços como o Mais ou Menos Bar, o Arte e Fato. Agora aqui na cidade eu não estou diretamente interagindo com essas manas, nem das boates nem com esse público mais teen, eu estou interagindo com esse público mais amplo de produção cultural. Dentro desse meio ainda tem pouco envolvimento drag aqui dentro da cidade, dentro do campo de discussão, de práticas, meios de produção cultural e política. Quanto ao norte, a cena drag mais forte do norte para mim é de Belém, tá babado. Tem um projeto recente que foi apresentado aqui em Manaus que é o Noite Suja, um projeto que começou com uma festa noturna que virou um espaço de discussão, de enaltecimento da cena drag paraense que existe em Belém.

Úyra em performance. Foto: Dirce Quintino

PetCom: Como você escolheu a área da biologia? Como isso ocorreu para você?

Emerson Munduruku: Eu escolhi a área de biologia porque desde criança, já em Satarém, eu já gostava de ambientes naturais, terra, água, estar no chão brincando na areia, no mato. Fui tomar consciência disso no ensino médio, no segundo ano, porque até então eu tinha vontade de fazer letras. Mas aí eu decidi fazer biologia por conta da influência de um professor de química que tinha um apanhado muito forte em química orgânica e ambiental. Uma pessoa com história de vida muito forte e muito legal, o que me motivou bastante a fazer biologia.

PetCom: Como você faz para conciliar sua carreira na biologia com a de drag Queen? Já houve algum momento em que elas conflitaram?

Emerson Munduruku: Elas mais se complemetam do que entram em conflito, porque eu uso o conhecimentos da biologia, das formas, texturas e plantas. Não só das plantas, mas da matéria orgânica da floresta como base e construção de Uýra. Então acho que a biologia com drag mais se complementam do que conflitam.

Essa conciliação necessária ela já teve sim alguns momentos de conflito. Por exemplo, na época do meu mestrado eu tava muito tão focada na pesquisa com biologia que durante dois anos eu não conseguia desenvolver de forma mais satisfatória ou de forma mais profunda a drag Uýra. Agora com esse tempo e com essa cabeça mais aberta para pensar no trabalho de drag com certeza me sinto melhor fazendo.

Participação de Emerson no Programa de Desenvolvimento Integral da Criança e do Adolescente Ribeirinho da Amazônia, em Amanã

PetCom: Fazer drag potencializou ou contribuiu quanto a sua identidade de gênero?

Emerson Munduruku: Então, eu acho que a drag veio para contribuir e potencializar a minha identidade de gênero. Uýra não tem gênero, nem é homem, nem mulher, é um ser da floresta que não tem nada a ver com seres humanos enquanto construção e expressão de uma persona minha, construção de um personagem, pode-se dizer dessa forma. Mas enquanto eu, Emerson, também não assumo que tenho gênero, por mim, por exemplo, não me sinto nem homem nem mulher, o que se chama de não-binário e a Uýra é também isso. Ela é essência, ela é carne, ela é visceral, ela é um ser que está distante dessa construção humana de gênero e eu enxergo isso tudo exatamente dessa forma. Então a drag ela vem sim contribuir e potencializar, porque ela vai fazer coisas que eu por exemplo não faria (risos).

PetCom: Quais as oportunidades que surgiram com seu trabalho como drag?

Emerson Munduruku: O meu trabalho como drag, principalmente dentro da maquiagem e da transfiguração, da criação de personagens, as oportunidades que surgiram foram muitas tanto de participações em festas, em festivais, onde eu pude ter maior visibilidade, maior voz, expressar o que eu sinto, o que eu preciso, o que nós precisamos. E também a oportunidade de trabalho, então toda a visibilidade como drag também já me possibilitou participar de um espetáculo, de uma série de cinema, alguns trabalhos em que eu posso estar ocupando a cabeça, ganhando dinheiro e expressando a arte que eu preciso e que acho que a cidade também precisa.

PetCom: Como você se prepara para as suas performaces?

Emerson Munduruku: Bom, para o visual uma boa parte do que eu uso às vezes na roupa e como roupa é de material orgânico então isso exige que às vezes eu pegue as folhas um dia antes, na noite anterior. Tem toda aquela lida com a perda de água, com a conservação da matéria. Então, às vezes de noite, manhã ou tarde eu estou finalizando a peça porque daí se eu fizer um dia antes não dá certo, resseca, tem todos esses cuidados. Com relação ao ato cênico em si, eu costumo fazer um esquema bem simples da ordem de cenas e introjetar mesmo, de forma bem natural e apresentar. É algo muito espontâneo então ela não vai exigir tanta preparação anterior.

Processo de criação da Úyra. Foto: coletivo difusão

PetCom: Você acha que ainda existe muito preconceito e falta de conhecimento sobre drag queens? Para você, quais as formas de solução?

Emerson Munduruku: As manas drags são geralmente o enaltecimento feminino, então geralmente são manas bichas que se montam e então botam mesmo a cara a tapa e óbvio que tem uma resposta muito radical e um preconceito muito grande com essa prática. A saída são várias, mas a base de tudo isso é a educação, educação sobre diversidade de gênero, educação sobre expressões de arte, sobre expressões humanas, educação. Eu não vejo outra saída se não a educação e tanto aquela que acontece desde lá quando criança no ensino básico, quanto a de hoje que é possível graças às manas que estão nas ruas educando pessoas que querem ser educadas ou não, mas elas estão sendo colocadas de frente à diversidade e elas precisam aprender isso. Essa cara na rua é uma frente combativa que precisa acontecer para que esse processo de educação ou, inicialmente de reflexão, ocorra.

PetCom: Você acha que é possível ser drag queen, ser LGBT+ sem lutar por seus direitos ou não assumir uma posição de militância? Por quê?

Emerson Munduruku: Eu acho que é totalmente possível e é o que mais existe por aí são vivências diferentes, pessoas que fazem drag sem necessáriamente tomar um posicionamento político. Ou pessoas que são LGBTs, pessoas negras, indígenas, mulheres que não se apropriam do posicionamento contra machismo, isso é totalmente possível. Agora se essa é uma postura que agrega a uma construção, a melhores condições de vida, aí eu desconfio, porque eu acho que não. Acho que todos esses grupos que eu citei passam por coisas únicas e coisas que são frutos de intolerância, de ódio, muito bem direcionada. Então eu acho que é preciso sim um posicionamento político, e eu, por exemplo, não existiria enquanto drag se não fosse para ser um corpo político.

PetCom: Você já enfrentou muitas situações de preconceito e intolerância pelo fato de ser drag queen?

Emerson Munduruku: Eu passo todos os dias como bicha e mais ainda como drag, porque ainda é menos compreensível uma drag que parece uma mata, é mais ainda compreensível uma drag que carrega seres míticos, da floresta, coisas que nem sequer elas muitas vezes aprendem o que é, sobre o nosso imaginário, sobre o nosso mundo mítico. Então é uma série de coisas que as pessoas não entendem, não costumam se alimentar dessas coisas. Quando eu venho, logo tem um preconceito, e não só o preconceito de gênero e sexualidade como o meu caso quanto bicha, mas o preconceito religioso também, porque a Uýra traz a natureza e logo se lembra dos Orixás e vem toda aquela coisa contra a umbanda, que o candomblé é da macumba, é do demônio então tem tudo isso envolvido. Eu também já sofri agressão física por estar de drag e enfim, isso só foi combustível para eu estar mais ainda de drag, mais ainda sendo uma drag dentro de um corpo político.

PetCom: Você acha que a bancada conservadora na política ainda pode ganhar mais força? O que isso pode significar para a comunidade LGBT+?

Emerson Munduruku: É uma bancada que não é uma pequena parte de um plenário, mas sim uma maioria de partes autodeclaradas conservadoras. E o que a gente espera pela própria projeção e olhando para o passado é de mais luta, com perdas, com ganhos e vitórias.

PetCom: Como as redes sociais contribuem para a divulgação do seu trabalho?

Emerson Munduruku: As redes sociais são fundamentais no meu trabalho porque elas são a principal fonte de divulgação e de interação com outras pessoas e oportunidades de trabalho, de aprendizado também com outras manas drags, com outros fatos sociais, culturais, políticos. Uso como retorno, como gás, combustível para essa construção da drag. Eu ressalto então que as redes sociais são fundamentais para o meu trabalho como drag por todas essas questões.

PetCom: Qual o feedback que você recebe das pessoas pela internet?

Emerson Munduruku: O feedback das pessoas é quase cem por cento positivo porque é um trabalho diferente dentro da estética drag, é um trabalho diferente e que chama atenção por sua visualidade aqui dentro do Estado e dentro do Brasil também. Então essa diferença conta de forma favorável e às pessoas eu sou muito grata por esse feedback que geralmente é muito positivo.

PetCom: Quais são seus próximos planos?

Emerson Munduruku: Os planos do futuro giram em torno de me aprofundar dentro da minha drag, poder expressá-la de uma forma mais orgânica, cada vez mais e desenvolver melhor ainda técnicas de expressão (artes cênicas, dança, teatro) então é isso. Meus planos são melhorar, evoluir sempre para expressar o que eu acho em termos políticos importantes como sobrevivência para nós.

Foto: Matheus Belém

 

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Rebeca Almeida

Rebeca Almeida

Filha da greve. A não graduada. Mãe dos releases. Rainhas de entrevistas. Rainha dos deadlines e dos primeiros roteiros. Quebradora de caracteres. Senhora das sete redes sociais. Khaleesi dos bloquinhos. Primeira do seu nome.
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