Publicação de Livros no Amazonas e suas dificuldades

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Custos elevados, falta de incentivos e preferência pela literatura estrangeira são fatores determinantes para a estagnação do mercado editorial do Amazonas

No Amazonas, mais especificamente em Manaus, a realidade do mercado editorial não é muito favorável para os escritores locais. Falta de incentivo, problemas de distribuição e baixo retorno de investimentos são deficiências que desestimulam a publicação de títulos originais. Como consequência, o consumo da literatura nacional e estrangeira é maior e o preconceito para com os escritores da região é reforçado.

Público Consumidor

A formação escolar e os estímulos à leitura estão diretamente ligados. Desde os níveis primários mais básicos o ensino da gramática prevalece sobre a produção textual. O consumo da arte, sobretudo da arte literária, fica comprometido logo cedo. A literatura não é apresentada como uma necessidade para a formação intelectual e social do indivíduo, mas sim como apenas uma disciplina da grade curricular a ser cumprida.

Isso se reflete para além da sala de aula: no mercado editorial. Para Wilson Nogueira, escritor e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) os brasileiros leem pouco em comparação com mercados europeus, norte-americanos e alguns países da América do Sul. O escritor ressalta ainda a necessidade de uma política pública de incentivo à leitura nas escolas: “O poder público precisa realizar política pública de incentivo à leitura a partir das escolas para formar novos leitores. Essa necessidade é muito mais proeminente nas regiões onde os custos da circulação são muito mais onerosos, como nos estados da Amazônia”, declara Wilson.

Do ponto de vista da iniciativa privada há falta de mercado correspondente aos investimentos exigidos por esse negócio. Para Wilson, assim como há políticas públicas para construção civil e infraestrutura deveria haver para o mercado editorial literário.

Editora Lendari, fundada em 2014 pelo escritor e jornalista Mário Bentes

Para o escritor Mário Bentes, autor de alguns títulos, entre eles “Minhas conversas com o diabo”, e fundador da editora Lendari, o que ocorre nas escolas é que há incentivos pontuais. Segundo ele, há professores que estimulam a escrita literária, mas é mais por uma ideologia própria que por política de Estado.

Livro Minhas Conversas com o Diabo, de Mário Bentes

Realidade do mercado editorial do Amazonas

Antes mesmo de a grande crise econômica afetar o Brasil o mercado editorial do Amazonas já enfrentava suas próprias dificuldades. A crise econômica apenas agravou um quadro já desfavorável para autores locais.

Além do público consumidor das artes reduzido, há também o problema da falta de incentivos públicos. Embora existam iniciativas culturais, há poucas voltadas somente para a produção de livros, de acordo com Mário Bentes. Segundo ele, “existem, vez ou outra, editais públicos com o propósito de financiar iniciativas culturais. Mas o fomento de ferramentas específicas para a escrita, há poucas”. Para Wilson Nogueira, as iniciativas do poder público são pontuais e incompletas “porque a formação de novos leitores está ausente em sua pauta”, afirma.

O número reduzido de editoras e o isolamento do mercado editorial do Amazonas são outros agravantes. De acordo com Wilson Nogueira, o mercado regional de livros é praticamente isolado se comparado ao nacional: “As editoras e o setor livreiro local atuam nas brechas que conseguem forjar nesse mercado”, declara o escritor. Ele afirma  que  há, ao mesmo tempo, uma ofensiva das grandes editoras das regiões do sul e sudeste do Brasil pelas compras do poder público e das escolas da iniciativa privada. Isso reduz o quadro de oportunidades para as editoras locais e consequentemente autores da região também são afetados, já que o mercado editorial não avança.

Publicação e Edição

“Acredito que não só no Amazonas, mas no Brasil em geral, a publicação de livros ainda é muito cara”, afirma a jornalista e escritora Keila Zanatto. Keila veio de Santa Catarina (SC) para o Amazonas recentemente. Sua motivação principal foi o desejo de conhecer a região amazônica com sua cultura e mistérios. O desejo de falar sobre a Amazônia fez com que ela escrevesse seu primeiro livro, intitulado “Filhos do Rio Negro”, lançado em 2012. O livro foi publicado pela editora da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), de Santa Catarina. Mas em Manaus, para distribuir alguns exemplares, conseguiu maior apoio na editora da Ufam, Edua, que oferece o título em sua loja na universidade.

Inspirado nas belezas da região amazônica, o livro Filhos do Rio Negro traz histórias da cidade de Santa Isabel do Rio Negro, na divisa com a Venezuela

A escritora tem outros títulos que deseja lançar no mercado local e está à procura de orçamentos nas editoras. Mas para Keila este é um serviço ainda muito caro e o maior obstáculo é o valor. De acordo com ela há outras alternativas: “Existem outras possibilidades de publicação, através de editais por exemplo”.

Para Mário Bentes, hoje há uma abertura maior no mercado, principalmente em virtude das redes sociais, que facilitam a auto-divulgação dos escritores. Isso permite uma economia maior e torna possível o lançamento de uma maior quantidade de livros. A escritora Keila Zanatto afirma que nem sempre as editoras cuidam da divulgação. Com as ferramentas disponibilizadas na internet esses custos publicitários podem ser reduzidos. O editor da Lendari, Mário, declara ainda que houve uma melhoria: “O Amazonas tem poucas editoras, mas vejo que o cenário já é mais positivo, há iniciativas caminhando”.

Contudo, Mário Bentes enfrenta muitos problemas de logística. Segundo ele, os custos de envio dos livros de Manaus para qualquer outra cidade acabam saindo extremamente caros e inviáveis. Por essa razão, precisa trabalhar com gráficas de São Paulo e do Rio Grande do Sul, o que torna o traslado dos livros uma etapa complicada. “Ter ao menos uma representação de editora em São Paulo é fundamental para a viabilidade do negócio”, reitera.

Em 2016, para a Bienal do Livro em São Paulo, a Lendari contou com a parceria de empresas e de editoras colaboradoras para um estande compartilhado. O mesmo é procurado para a Bienal do Livro deste ano no Rio de Janeiro, como forma de reduzir os custos. Esta é uma iniciativa que contribui para o aumento da representatividade da região em eventos de caráter nacional.

Wilson Nogueira, que além de escritor já foi editor na Valer, cuidando da revista Valer Cultural, afirma que a publicação se torna mais dificultosa porque depende de tempo, de contatos com novos agentes, entre outros requisitos. Além disso, alguns livros do autor, como “Órfãos das Águas: uma história de homens e bichos num planeta ameaçado de desaparecer” e “O Andaluz” sempre levaram um período de tempo maior na fila de espera da editora: “Toda editora tem sua política editorial e, consequentemente, as suas prioridades”. Porém, Wilson completa dizendo que isso não deve ser motivo para parar de escrever: “Atualmente existem outras formas de publicação. A internet está aí”. Segundo ele, os e-books têm sido a nova estratégia de produção da Valer, que após a crise econômica teve sua loja física fechada e precisou se adaptar às mudanças provocadas pela nova tecnologia.

Órfãos das Águas: uma história de homens e bichos num planeta ameaçado de desaparecer, de Wilson Nogueira, lançado em 2009

Keila Zanatto aponta também, como alternativa para escritores que não têm maiores condições financeiras para grandes orçamentos, editoras como a BK Editora. De acordo com a escritora o dono da BK Editora passou por dificuldades de publicação: “As editoras na época de uns 30 anos atrás mais ou menos, imprimiam 1000 livros ou mais. Então, esse senhor cresceu com esse sonho de dar essa oportunidade para pessoas que não podiam imprimir toda essa quantidade”. Aqueles que quisessem imprimir cinco, dez, trinta ou quarenta livros, poderiam, segundo ela.

Preferência pelos títulos estrangeiros

“Existe muito mais público para 50 Tons de Cinza no Brasil, por exemplo, que é um produto divulgado mundialmente e com filme do que para um produto local”. A afirmação de Keila aponta uma das variáveis que contribuem para o descrédito para com os títulos regionais.

Embora obras estrangeiras não sejam o problema em si, o marketing em cima desses livros prevalece sobre a divulgação dos títulos locais. De acordo com a escritora, os livros são vistos como produtos do capitalismo e precisam gerar lucro. Segundo Mário Bentes, há um investimento maciço em marketing direcionado. Isso cria no público a  expectativa de ler um livro que já é bem vendido.

Wilson Nogueira ressalta que um dos principais problemas é como o imaginário da realidade regional é afetado: “Isso faz com que nossas crianças achem que elefante, tigre e zebra sejam bichos da floresta amazônica”. A globalização vertical impulsionada pelo marketing da indústria cinematográfica é cruel, é mais cruel ainda se não encontra um contraponto das culturas autóctones, híbridas ou mestiças, segundo o escritor. Wilson afirma ainda que um livro tachado de regional já seria um livro de menor importância e que esses e outros nomes são jogos de mercado.

 “A Valer tem títulos que heroicamente, já ultrapassaram a primeira, segunda e terceira edições”, declara Wilson Nogueira.  Os livros  que tiveram maior número de venda foram do professor Odenildo Sena (Engenharia do texto), do poeta Luiz Bacellar (Frauta de barro), do poeta Elson Farias (Série Zezé) e os de Wilson (Órfãos das Águas e o Andaluz).   Apesar disso, a maior parte dessas obras literárias que atingiram maior número de vendas foi por meio de políticas de adoção em escolas particulares de Manaus. As vendas no balcão da livraria não eram tão significativas.

Para Mário Bentes, o Amazonas não valoriza a produção literária local: “Em muitas regiões, como o Sul e Sudeste, os leitores realmente se interessam em saber o que seus autores estão escrevendo e os prestigiam no lançamento”, afirma o escritor que já compareceu em eventos fora do Amazonas.

Polaris: uma alternativa para que está começando

Polaris é conhecida como a estrela-guia dos navegantes. Fundada em 2017 a editora visa ser, como a estrela, uma referência para escritores e leitores

A Polaris é uma editora local que entrou no mercado este ano, comandada pelo trio Rebeca Martins (designer), Letícia Cardoso (editora) e Guilherme Mateus (analista de sistemas). A iniciativa de criar a editora Polaris veio da experiência mal sucedida ao tentarem publicar um livro. Além disso, observaram que pessoas com potencial para publicação não eram atendidas e os valores dos orçamentos para publicação de exemplares eram muito elevados.

O grupo observou que as editoras da região não costumavam investir nos livros digitais. Como estratégia foi realizado um investimento nessa plataforma de fornecimento de títulos. Posteriormente, com a consolidação do negócio a editora passará a trabalhar também com materiais impressos. A Polaris ainda não tem uma sede física e recebe segmentos literários diversos.

Seus coordenadores veem um panorama mais positivo no cenário do mercado editorial de Manaus. Mas salientam que ainda não há muitas obras de origem local publicadas: “Ainda falta um pouco de coragem para publicar esses materiais, é por isso que entramos no mercado editorial”, diz Rebeca.

Como pessoas que já tentaram publicar um livro e como administradores de uma editora os integrantes da Polaris afirmam que as principais perguntas são “com quem publicar?” e “será que vale a pena?”. Segundo a equipe, esses questionamentos são comuns para novos autores, que chegam a ficar desacreditados quando recebem negativas de editoras maiores. O objetivo da Polaris é então dar apoio a projetos em potencial que não receberam as oportunidades devidas. “O obstáculo mais comum é justamente encontrar essas a editoras, ou pessoas que acreditem no livro ou material que se quer publicar”, afirma Rebeca. Segundo a designer, procuram ouvir e compreender o autor e se possível publicar seu título.

A marca da Polaris está no apoio que ela dá ao escritor local, o que não é comum na região. Um exemplo disso é o retorno dado após a revisão mesmo que o livro não seja publicado. “Mesmo que ele não seja publicado conosco nós damos o feedback para o escritor, com melhorias para aquele material e o encorajando para prosseguir”, declara Rebeca.

Dentro da Polaris, ela afirma que há uma preocupação em acolher as pessoas e o comprometimento com o escritor. Uma das formas de atrair o autor é oferecer o livro digital gratuitamente, não havendo custos nesse sentido para o escritor: “Publicamos e-books gratuitamente e os vendemos com valores simbólicos”.

Embora seja uma editora local a Polaris atende escritores de outros Estados também. “Escritores de todo o país já entraram em contato conosco. Já temos contratos fechados com escritores do Sul e aqui do Norte”, afirma Rebeca. A editora já tem dois títulos confirmados, um do Norte do país e outro do Sul do Brasil, ambos com os materiais em fase de conclusão.

E-books: contra ou a favor?

A discussão em torno dos e-books ou livros digitais pode render muitos debates. Há posições extremas, desde aqueles que defendem aos que condenam totalmente, afirmando que são responsáveis por crises que atingem os formatos impressos. Nessa crise econômica o livro digital parece exercer ambos os papeis. Por ser uma alternativa mais econômica aos livros impressos pode dar oportunidades para quem quer publicar um livro.

A escritora Keila Zanatto tem um apreço maior pelo livro impresso e afirma que apesar de ser jovem, não se sente muito à vontade com o formato digital do livro, tão comum nas gerações mais novas. “Eu gosto de livro impresso e vou trabalhar para que sejam impressos e circulem fisicamente. Quem sabe depois eu consiga lidar melhor com a ideia do virtual”, diz a escritora.

Wilson Nogueira afirma que após o fechamento da loja física da Valer a editora precisou passar por uma reformulação. A alternativa escolhida foi investir nos e-books e PDF’s. O conhecimento e entretenimento escrito antes limitados aos livros impressos agora estão disponíveis em acervos digitais, com bibliotecas que chegam a reunir mais de 8000 livros, o que para o escritor Wilson Nogueira é uma boa opção para quem economizar não só dinheiro, mas espaço. Nesse sentido, observa-se como o e-book estimula a escrita local, por ser mais barato e beneficia também o consumidor. Mas o valor do livro físico não se perde. Porém, para quem prefere este último formato, seja escritor ou leitor, o quadro não é muito amigável, sobretudo pelos preços. “O certo é que as editoras de ‘porta de rua’ estão fechando. Isso é uma realidade”, declara Wilson.

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Iolanda Ventura

Iolanda Ventura

Sempre ouviu lhe dizerem: "Nossa, você escreve muito! Como consegue fazer tanto texto? Não cansa não? Escolher jornalismo foi a prova que não cansa de escrever. Ela já tinha sido escolhida pelo curso e não sabia. Gostava de muitas coisas diferentes e a indecisão era grande. Quando a ficha finalmente caiu viu para que realmente tinha vocação e que de tudo que gostava Jornalismo tinha um pouco. Até chegar em jornalismo demorou, mas ainda bem que chegou.
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