A Menina que Roubava Livros

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A Morte conta que esta “é só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas: uma menina, algumas palavras, um acordeonista, uns alemães fanáticos, um lutador judeu e uma porção de roubos”. Ela, a Morte, afeiçoou-se à pequena ladra que lhe insistia em escapar por entre os dedos.  Aquela saumensch era especial. Liesel Meminger era muito especial!

Em A menina que roubava livros, romance do escritor australiano Markus Zusak, lançado em 2005, a narradora (surpreendentemente simpática) é a Morte, e o cenário é a Alemanha, mas não é qualquer Alemanha. É a Alemanha nazista de Hitler. Inserido neste contexto, poderia ser de mau gosto ter uma narradora tão mórbida, mas não é o caso. Temos uma Morte com coração, que sente por suas vítimas, que sente pela falta de humanidade e que se apega à Liesel Meminger, personagem principal, a ponto de querer contar a sua história.

Liesel Meminger tinha nove anos, logo faria dez. Ela e o irmão mais novo são enviados pela mãe biológica para uma família adotiva que tem condições para criá-los. O menino, debilitado, morre durante a viagem de trem e é enterrado ali mesmo, em meio à neve. O rapaz que enterrara seu irmão, em um momento de distração, deixa cair algo. Liesel segue viagem para a casa de Hans e Rosa Hubermann, seus novos pais de criação, mas ela não foi sozinha. Liesel levara consigo aquele que foi o primeiro de muitos dos livros que roubaria ao longo dos quatro anos seguintes.

O enredo do filme se dá na rua Himmel, área pobre de Molching, onde fica localizada a casa dos Hubermann e dos Steiner. E é lá, na nova casa da saumensch (apelido “carinhoso” que Liesel recebe de Rosa), que Max Vandenburg, um boxeador judeu, tenta se esconder dos nazistas. Liesel cria laços inquebráveis com todos eles. O relacionamento dela com o pai (Hans) e com Max são centrais para a trama (uma das cenas mais emocionantes do livro, envolve um encontro dela e de Max).

Naquela época na Alemanha, em meio à pobreza e todas as dificuldades originárias do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, as crianças roubavam para não passar fome, e isso cimentava amizades. Liesel e Rudy Steiner logo se tornariam inseparáveis. A contravenção unia os dois. Rudy só se importava com a comida que pudesse furtar. Liesel, com os livros. Ao todo, foram dez.

Como sabemos, a Segunda Guerra Mundial foi o maior conflito da história da humanidade no século XX. As operações militares envolveram mais de 70 nações, resultaram em aproximadamente 50 milhões de mortes e 35 milhões de feridos. Cerca de 3,5 milhões de toneladas de bombas foram jogadas sobre os países envolvidos, grande parte das mortes foram de civis (pessoas que não estavam envolvidas diretamente na guerra). Foi a primeira guerra onde ocorreu o uso de armas atômicas. Em Hiroshima, a bomba provocou a destruição de quase 70% das construções da cidade, onde é estimado que cerca de 100 mil pessoas morreram somente no momento da explosão. Calcula-se que o custo total da Segunda Guerra Mundial chegou a 1 trilhão e 385 milhões de dólares.

Não, o livro não explora muito essa parte histórica, mas deixa referências para que o leitor se mantenha orientado. A obra explora que apesar da destruição, do caos e de todo sofrimento ao seu redor, Liesel consegue crescer como uma garota boa e generosa, tornando-se uma adulta que até mesmo a Morte consegue amar. A esperança nesta garota é contagiante, daquelas que nascem somente da pobreza, da guerra e da violência. Uma esperança indestrutível!

Sim, nós sabemos que o contexto geral de toda guerra costuma trazer números alarmantes. Costuma trazer estatísticas aterrorizantes da destruição da vida e, em muitos casos, da esperança. Deem uma olhada no que está acontecendo na Síria agora. O conflito se iniciou em 2011 (ainda não há sinal de luz no fim do túnel) e já deixou mais de 400 mil mortos. De acordo com o infográfico da Exame.com do começo do ano, antes da guerra, a população da Síria estava estimada em 23 milhões, hoje tem pouco mais de 17 milhões; 11 milhões tiveram que fugir de suas casas; mais de 5 milhões de refugiados (dados mais atuais); 80% da população vive em extrema pobreza, a taxa de desemprego está em 57,7%, o preço do pão aumentou em 1.000%.

Como se não fosse suficiente toda esta violência armada, que tem como partes fundamentais os grupos extremistas Estado Islâmico e Frente Conquista do Levante (ex-Frente Al Nusra), os sírios estão observando (e nós também perplexos e, aparentemente, impotentes) suas casas serem destruídas, os alimentos desaparecerem e os hospitais serem bombardeados. Enquanto isso, toda semana a mídia nos mostra mais um “capítulo inédito” da guerra de egos entre Kim Jong-Um e Donald Trump. E ainda há quem acredite que “pior que tá, não fica”.

Enfim, a Menina que Roubava Livros é muito mais do que uma simples ficção na segunda guerra mundial, é o vislumbre de como a literatura pode amenizar o sofrimento humano. É tão bem escrito, que mesmo tratando-se de uma história triste, acabamos rindo de algumas colocações da Morte. Tenham uma boa leitura!

 

 Referências:

http://www.suapesquisa.com/segundaguerra/curiosidades.htm

http://www.infoescola.com/historia/segunda-guerra-mundial/

https://www.todamateria.com.br/segunda-guerra-mundial/

http://exame.abril.com.br/mundo/guerra-na-siria-faz-6-anos-os-numeros-para-entender-a-tragedia/

 

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Karem Canto

Karem Canto

Ela se irrita fácil, sempre tão orgulhosa e exigente. Ela gosta de se sentir livre. Meio esquisita, sabe? Do tipo que vai além de falar sozinha, e para ela isso é tão normal. Mas sabe aqueles momentos de puro bom humor, sorrisos bobos, palavras sinceras e eterna ouvinte? Acredite, todos eles compensam...
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