PETRéporter: Ufam e o problema do cigarro

Posted on Posted in #PETRepórter

 

Diariamente é possível deparar-se com fumantes de tabaco na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O odor e a fumaça estão presentes em diversos ambientes, principalmente nos corredores do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS). Alunos, funcionários e pessoas que habitam com frequência a Universidade estão propícios a se tornarem fumantes passivos. A situação gera desconforto e atritos, que vão parar até mesmo em redes sociais.

O uso de tabaco tem sua origem nos povos indígenas das Américas, para fins religiosos e medicinais. Logo passa a ser disseminado para o mundo através dos europeus, tornando-se uma forte indústria.  Ao longo dos anos os cientistas passaram a entender melhor os produtos químicos contidos no tabaco, bem como os efeitos nocivos à saúde que ele produz. Em 1836 o tabaco passou a ser conhecido como um veneno que poderia matar uma pessoa.

Durante a primeira parte do século XX, fumar era legal, era elegante. Entretanto, na década de 1960, os problemas causados pelo produto voltaram a ser pauta, fazendo com que fossem proibidas suas propagandas, além de movimentar a criação de leis que regulamentassem seu uso. No Brasil, essa regulamentação se deu através da LEI Nº 9.294, DE 15 DE JULHO DE 1996. Em seu segundo artigo constava que “é proibido o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou de qualquer outro produto fumígero, derivado ou não do tabaco, em recinto coletivo, privado ou público, salvo em área destinada exclusivamente a esse fim, devidamente isolada e com arejamento conveniente.” Porém, o artigo foi modificado, e em 2011 passou a constar que “é proibido o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, em recinto coletivo fechado, privado ou público.” Em 2014 a lei sofreu uma nova alteração, e o DECRETO Nº 8.262, DE 31 DE MAIO DE 2014, passou a considerar como recinto coletivo fechado locais que sejam total ou parcialmente fechado em qualquer de seus lados ou paredes, divisória, teto, toldo ou telhado, de forma permanente ou provisória. Em suma, a prática do fumo na Ufam não apenas causa atrito de convivência, como também infringe a lei.

O tabagismo passivo é outra consequência. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde, ele é responsável por pelo menos sete mortes diárias no Brasil. Em 2013, os dados diziam que 10,7% de pessoas não fumantes estão expostas à fumaça de produtos de tabaco no ambiente domiciliar, sendo as mulheres não fumantes e as pessoas com idade entre 18 e 24 anos as que apresentam os maiores percentuais.

Em uma enquete realizada com 37 alunos da Ufam, constatou-se um percentual de 14,3% de fumantes, 83% de não fumantes e 2,7% de ex-fumantes. Entre os que não fumam, 58% afirma não ter o hábito por estar ciente de que faz mal à saúde, 19,3%
não vê razão para fazê-lo, 16,1% não gosta do odor, 9,6% não fuma por motivos familiares, 3,1%
por motivos religiosos e 3,1% não gosta da fumaça. Quanto à opinião sobre a prática do fumo na Universidade, 32,25% diz não se importar e 67,75% acha inconveniente.

COM A PALAVRA, OS FUMANTES*

O estudante T. R., 25 anos, começou a fumar em festas por curiosidade e é ciente sobre o mal que o hábito pode causar à sua saúde. “As carteiras de cigarro brasileiras são bem gráficas quanto aos resultados do cigarro no corpo”, declara. Ele afirma ainda que fuma na Ufam por passar o dia no local. Disse que pensa em parar com o vício, principalmente devido aos altos custos das carteiras de cigarro, e quando questionado sobre a opinião dos não fumantes, T.R. também diz importar-se: “É muito válida, inclusive. Tem muita gente que se sente incomodada com a fumaça e eles estão super certos”.

Já o estudante Z. M., 19 anos, conta que obteve o primeiro cigarro no ambiente escolar: “Eu era bem novo e estudava em uma escola pública. O que mais me influenciou na hora creio que foi a curiosidade. Mas esse primeiro cigarro não me atraiu a um vício logo de início. Só vim ser fumante ativo depois da universidade”. Sobre os males do cigarro, Z. M. diz que o produto fabricado hoje é feito para viciar, e há uma questão bastante complexa sobre o impacto do mesmo no mercado. “Tenho consciência de que o cigarro pode me fazer mal, assim como diversos outros produtos industrializados vendidos por aí. Junk Food é um exemplo de consumo que, em excesso pode matar, e eu, tenho consciência do que eu ponho pra dentro do meu corpo. Já consigo controlar melhor minha saúde, mesmo não sendo fácil se livrar do vício”.

Assim como T.R., Z.M usa o ambiente universitário para fumar por ser o lugar onde passa a maior parte do seu dia, além de ter facilidade na obtenção e pelos diversos espaços abertos que podem ser aproveitados. “Acredito que a convivência diária em um lugar com um grande número de fumantes, que você se relaciona, faz amizades, faz com que seja mais favorável o início do hábito”, diz T.R.  Z.M. relata que já pensou em parar diversas vezes, e já até ficou alguns meses sem produto, porém sempre volta quando entra em algum momento de estresse. Questionado sobre como receberia a criação de um local exclusivo para fumantes na Ufam, Z. fala que o espaço poderia ser feito, no entanto não seria bem aproveitado: “A universidade tem inúmeros espaços abertos e ventilados onde é mais cômodo para o fumante.”

DO OUTRO LADO, OS FUMANTES PASSIVOS

Durante a pesquisa, alguns alunos relataram suas opiniões pessoais sobre o tema.
 
Leiliane Santos, 22 anos, estudante de Geologia: “O pior é fazer de nós, alunos que não fumam, fumantes passivos. Porque se eu não quiser sentir o cheiro do cigarro eu preciso me retirar e acho que devia ser o contrário, a escolha de fumar foi somente da pessoa então ela que deveria se retirar”.

William Santos, 22 anos, estudante de Geologia: “Deveriam jogar as bitucas em local apropriado e não no chão”.

Diego Cassiano, 22 anos, estudante de Engenharia de Materiais: “Acho que a maioria fuma por uma certa ‘rebeldia’, aquela transição entre escola e faculdade, tentando buscar se auto afirmar, fazer uma coisa de ‘gente grande’. Eles não sabem respeitar os que não fumam, e mesmo sendo um lugar público, transformam o ICHL em uma área para fumantes.”

Iolanda Ventura, 20 anos, estudante de Jornalismo: “Não concordo com o fumo, mas respeito quem fuma. Então também quero respeito. Tenho tanto direito aos espaços quanto eles.”

Soraya Lorena, 19 anos, estudante de Engenharia de Petróleo e Gás: “Gostaria que tivesse um local apropriado para fumar, pois assim como muitos, tenho problemas respiratórios que pioram com a fumaça/odor do cigarro.”

André Sena, 19 anos, estudante de Geologia: “Eu não gosto de estar ao lado de alguém que esteja fumando. A Ufam é um ambiente de educação, e no final das contas, por mais que a liberdade perpetue lá, é um ambiente fechado. Os corredores estão sempre cheios. A passagem dos estudantes, trabalhadores, e seja quem for, vai estar à mercê da fumaça do cigarro.”

Questionada a respeito do assunto, a Assessoria de Comunicação da Universidade afirmou não ter conhecimento acerca da Lei Nº 9.294 e não soube descrever o posicionamento da Ufam. O Departamento de Saúde e Qualidade de Vida, e o Departamento de Legislação e Normas não se manifestaram.

*Os alunos optaram por preservar sua identidade.

Fontes consultadas: brasil.gov.br
portalsaude.saude.gov.br
planalto.gov.br
inca.gov.br

 

 

 

 

(Visited 49 times, 2 visits today)
The following two tabs change content below.
Letícia Misna

Letícia Misna

Não consegue piscar o olho direito sozinho, não usa roupa laranja e não sabe nadar.
Letícia Misna

Posts Mais Recentes por Letícia Misna (Ver Todos)

Comentários

pessoas comentaram

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *