Reflexões em uma conversa sobre sexualidade e identidade: Parte 1 – A questão é como criar empatia na diversidade de gênero e a identidade.

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Nas últimas semanas venho trabalhando com um grupo de atores e com a minha preparadora de elenco para o meu novo filme Uma Sociedade Fluída. A primeira parte de cada dia de ensaio é sempre um papo sobre o que os atores aprenderam com o roteiro do filme e como aplicaram isso em seu contexto social. Logo, notei como todos, inclusive eu, estamos realizando um processo de autoanálise. A primeira coisa que identifiquei foi que a questão não é mais a sexualidade em si. A falta de empatia na comunidade se manifesta exatamente em relação a questão da identidade e do gênero.  Ela é extremamente associada a falta de conhecimento por parte dos membros da comunidade LGBTQI+ e ao certo senso comum de que não se precisa mais lutar por novos direitos.

UMA PARADA LGBTQ+ NA RÚSSIA, PAÍS ONDE OS DIREITOS PARA A COMUNIDADE ESTÃO SENDO SUPRIMIDOS.

As pessoas aprenderam que a sexualidade se manifesta de várias maneiras, tal como é determinada na escala Kinsey, uma escala feita a partir de um teste pessoal para tentar definir sua sexualidade. Porém, a comunidade LGBTQI+ ainda tem certa dificuldade de se compreender como um todo, pois cada um se segmentou na autodescoberta de suas demandas sociais e políticas.

REPRESENTANTES DA COMUNIDADE QUEER.

Quem mais saiu prejudicado nessa divisão foi a parte T e Q+. Os travestis, os queers (variação de gênero que não adota a forma binária de masculino e feminino) e as outras variações de manifestações de identidade de gênero não conseguiram acompanhar o espaço das outras letras da sigla. Foram sendo violentamente silenciadas pelos próprios membros da comunidade. Eu mesmo demorei bastante para internalizar as questões e compreender as demandas dessas variações. Mas como tudo na vida, nada mais importante e essencial do que ler, ouvir essas pessoas e se reeducar. Afinal, a educação transforma.

Representações contemporâneas que fogem da identidade de gênero tradicional no inconsciente popular do brasileiro

CANDIDATAS DO PROGRAMA RUPAUL’S DRAG RACE

Nós últimos anos, uma nova onda na comunidade surgiu: os reality shows com drag queens, primariamente influenciados pelo programa RuPaul’s Drag Race (do canal de TV a cabo americano Logo). É notável a febre pela comunidade que atingiu até os heterossexuais em gerar interesse pela cultura drag. Se hoje vemos artistas como a Pabllo Vittar fazendo sucesso é muito devido a grande valorização das drags disseminada nos últimos anos. O problema disso tudo é: quem é esse público que consome a cultura drag? Numa primeira olhada no Facebook em likes, você nota que são gays na maioria de padrões heteronormativo e homonormativo.

BANCADA DE JURADOS DO REALITY RUPAUL’S DRAG RACE COM A DRAG RUPAUL CHARLES NO CENTRO.

O principal problema desse público que consome e adora a cultura drag é que são gays que se entusiasmam com o modelo de feminilidade que serve apenas para o palco e para o entretenimento. O conceito original de drag fica estagnado nisso, enquanto muitos não compreendem a noção de drag como ato político ou como arte. Os gays e bissexuais que se montam para dar “close” nas boates menosprezam essa expressão como cultura e reduzem o seu valor.

Curiosamente, o programa da drag RuPaul apesar de disseminar a cultura drag falhou na sua mais importante missão: conscientizar o público, principalmente o gay, sobre o lado mais profundo e complexo da questão da comunidade: as travestis/transexuais.

A CANTORA E COMPOSITORA DRAG PABLLO VITTAR ENTRE SEU PERSONAGEM DE PALCO E SUA VERDADEIRA APARÊNCIA COMO HOMEM GAY.

Logo fica evidente, que a falta de empatia é um problema muito forte na nossa comunidade. A figura de uma Pabllo Vittar se tornou ainda mais importante para a difusão não só da cultura drag. Sua infiltração no meio pop fez a discussão se ampliar. Toda entrevista dela na TV, vestida como homem cis gay e afeminado, mostra sua verdade e ao mesmo tempo educa toda uma geração brasileira sobre como a feminilidade pode fazer parte da vida de um homem cis.

Ela vira um sinônimo também de empoderamento para a figura feminina numa sociedade extremamente machista e patriarcal. Isso faz a sociedade criar mais consciência de que existe diferença entre uma drag e uma travesti, principalmente pelo discurso perfeitamente construído por Pabllo para a imprensa.

Transparent, uma série de TV que fala sobre a identidade de gênero

CENA DA SÉRIE TRANSPARENT DO SERVIÇO DE STREAMING DA AMAZON

Quando surgiu a série Transparent, eu tive outro momento de esperança interior. Ela conseguiu obter sucesso pelo seu viés educativo e didático aliado ao entretenimento de trabalhar a identidade de gênero.

A série explora uma estrutura familiar onde seu patriarca se assume uma mulher trans. A criadora da série, Jill Soloway, é uma mulher lésbica e feminista, um dos nomes da indústria da televisão associada ao ativismo à causa LGBT e feminista. Ela teve que ter um caso dentro de casa ao ver seu pai se assumir mulher trans para compreender a situação do transexual e de gênero.

A FAMÍLIA PFEFFERMAN É O FOCO DA SÉRIE TRANSPARENT, VENCEDORA DE OITO EMMYS

Esse fato marcante a fez criar empatia com a causa e tentar educar toda a sociedade americana por meio da sua arte. A série só chamou atenção do grande público por ter sido indicada e vencedora de vários prêmios EMMY e Globo de Ouro.  O serviço de streaming da Amazon onde a série é exibida não é popular ainda, por isso a demora para a série viralizar na rede. Mas serviu para conseguir difundir as questões que eram inquietações de Jill e de toda uma comunidade.

A positividade em torno da série é por ela ser de comédia e ao mesmo tempo apresentar uma visão bem realista. Mas a produção peca por focar em uma família de classe média alta (em alguns poucos momentos tenta incorporar a situação por mulheres trans de classe baixa).

A nomenclatura para segregar e silenciar

MICKAELA DE OLIVEIRA, MULHER TRANS QUE CONSEGUIU O DIREITO DE TER SEU NOME SOCIAL NA SUA CARTEIRA DE IDENTIDADE 

Um dos atores do meu filme colocou na conversa que não existe diferença da travesti para a transexual. O termo transexual é um termo heterossexual para higienizar a sociedade da travesti. Essa constatação é feita já que o termo “travesti” é associado à mulher trans de periferia, pobre e negra. Aquela que não tem condições financeiras de fazer uma cirurgia ou tomar hormônios femininos regularmente.

Tem certo tempo que descobri que o termo cirurgia de “mudança de sexo” é completamente equivocado, e o correto é “confirmação de gênero”. Pois no processo de autodescoberta a pessoa já se considera masculino ou feminino socialmente.

A confirmação do gênero nada mais é que um procedimento estético, visando também, socialmente, evitar que o indivíduo sofra preconceito de futuros parceiros sexuais.  Mas a/o travesti que está todos os dias vivendo com o seu órgão genital biológico e ao mesmo tempo se sentindo uma pessoa diferente do seu corpo, ainda é um/uma transexual. Isso causa muita confusão até hoje, porque a questão ainda não é bem difundida no meio LGB.

VÁRIAS REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE NA SOCIEDADE

Com a segregação da luta muitos saíram prejudicados, pois como lutar e ter empatia por algo que você não conhece? Isso é notório e eu mesmo faço um mea culpa aos amigos e as amigas que são travestis e não consegui acompanhar seu processo pessoal. Quando você conhece os (as) travestis e descobrem quão fabulosos (as) eles (as) são a empatia é imediata, pois eles (as) sobrevivem a dilemas internos tão pesados que você pensa que a sua vida não é tão difícil assim como gay. Eles (as) que merecem o protagonismo, esse momento é deles (as).

Por isso então, as letras L (lésbica), G (gay) e B (bissexual) da sigla LGBTQ+ mesmo com suas complexidades sociais próprias e que é claro, ainda são importantes, não são mais o foco principal para a educação do pensamento social.

Hoje, as pessoas que são representadas por essas letras tem visibilidade, muitos direitos básicos conquistados, têm participação expressiva na mídia e já estão presentes no inconsciente coletivo. Elas conseguiram se integrar às regras sociais definidas hoje muito mais facilmente. A sociedade já possui uma ideia básica de quem são aqueles que compõem esse grupo e tem mais acesso à informação. No caso do G, que é o meu recorte social, irei analisá-lo mais profundamente posteriormente.

 

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Matheus Mota

Matheus Mota

22 anos, trabalho como realizador audiovisual louco e voraz por música, cinema e séries de TV. Escrever é a minha vida, desenhar é um hobby, cantar é uma alegria e dançar é a uma diversão. Arte me inspira e me edifica todos os dias. Estudante de 4º período de jornalismo.

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