Setembro Amarelo: a importância de discutir o suicídio na arte e na vida

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Na vida e na ficção

Por muitos anos o suicídio foi recebido pela sociedade como um tabu, pela religião como um pecado, uma espécie de condenação da alma para quem cometia tal ato e para a medicina, um sintoma psiquiátrico não tratado de maneira adequada. Na literatura? Um tema que fascina e assusta em igual medida. Complexo e delicado de ser abordado, principalmente nos veículos de comunicação de massa, o suicídio é um tema recorrente seja no cinema, na literatura, na música, na pintura, porém, nunca antes tão discutido como nos últimos meses.

Não foram poucas as obras de ficção e não-ficção que trataram do assunto ao longo dos anos. Todas ficando no meio termo, entre o horror e a curiosidade. O mesmo vale para a música e alguns ídolos que deixaram a vida voluntariamente. Mais do que nunca, em 2017 o silêncio em torno do tema vem sendo quebrado com proporções bem maiores que em anos anteriores.  Fenômenos recentes como a série 13 Reasons Why e a viralização do macabro jogo virtual “Baleia Azul” geraram muita discussão sobre o tema.

Baseada em livro homônimo do escritor Jay Asher publicado em 2007 (no Brasil com o título “Os Treze Porquês”), a série 13 Reasons Why estreou no serviço de streaming Netflix em 31 de março deste ano. Produzida pela cantora e atriz, Selena Gomez, a série conta a história de Clay (Dylan Minnette), um rapaz que sofre pela morte de Hannah Baker (Katherine Langford), uma colega de escola por quem era apaixonado e que cometeu suicídio. Após a morte da jovem, uma série de pessoas que supostamente estão relacionadas com a sua morte, começam a receber fitas com mensagens gravadas por Hannah que explicam a ligação que cada uma daquelas pessoas possuem com os motivos que a levaram a pôr um fim na própria vida.

Dylan Mynnette e Katherine Langford em cena de ’13 Reasons Why’ da Netflix

 

O desfecho trágico da personagem acendeu o debate sobre os perigos de abordar o suicídio dentro da ficção. Desde que a série estreou no Brasil, ocorreu uma série de críticas, desde artigos para a imprensa, opiniões de psicólogos e internautas que assistiram a série e manifestaram suas críticas positivas e negativas através das redes sociais.

De alertas para a romantização ou glamorização do suicídio na ficção até a preocupação com os gatilhos que o retrato da temática suicida em um produto audiovisual pode gerar em quem sofre de depressão, o debate sobre o suicídio nunca foi tão presente. É relevante também lembrar de fatos antigos que vieram à tona este ano. Como o famoso caso na literatura, de Os Sofrimentos do Jovem Werther, uma obra do século 18, que impactou a sociedade de tal forma que levou jovens de várias partes da Europa a cometerem suicídio. Momentos do passado como esse são importantes na hora de discutir e refletir sobre o cuidado com que o suicídio precisa ser abordado dentro de um produto que circulará nas massas.

O fato nunca foi tão claro: precisamos falar sobre o suicídio. A grande repercussão de um produto audiovisual com temática suicida também teve um efeito considerado positivo, ao chamar a atenção para um problema extremamente sério e que com frequência passa despercebido, abrindo caminho para que as pessoas estejam atentas a sinais de risco nas pessoas próximas ou incentivando quem passa por qualquer transtorno psicológico a buscar auxílio de um especialista. Um forte indício de que isso veio a acontecer foi justamente o aumento da procura pelos serviços de prevenção, como o CVV (Centro de Valorização da Vida) com a estreia e repercussão estrondosa da série que gerou um debate tão forte em torno de um tema delicado e por muitas vezes isolado, mas que todos os dias faz pessoas acabarem com suas vidas.

Na música

“Eu nunca pensei que morreria sozinho. Outros seis meses e eu serei desconhecido. Dê todas as minhas coisas a todos meus amigos. Você nunca mais pisará no meu quarto novamente. Você o fechará, o trancará”. (“Adam’s Song”, blink-182)

Famosa por suas letras e videoclipes divertidos, a banda abordou o suicídio em uma de suas principais faixas do disco Enema of the State (1999). Em 2000, um ano após o massacre na Columbine High School, nos Estados Unidos, o adolescente Greg Barnes, de 17 anos, amigo de uma das 12 vítimas, se matou, enforcado em casa. Um detalhe chamou a atenção dos investigadores no cenário trágico: a canção Adam’s Song estava programada para tocar no modo repeat. Na época, o baixista do blink-182, Mark Hoppus, se defendeu das críticas. “É uma canção anti suicídio! O coração da música é sobre ter momentos difíceis em sua vida, estar deprimido, e depois encontrar a força para seguir e encontrar um lugar melhor”, declarou o músico.

Compositor húngaro Rezso Seress

Um fora horrível, daqueles que fazem a gente perder o rumo de volta para casa. Esse foi o grande motivador da inspiração do húngaro Rezso Seress, quando escreveu Szomorú Vasárnap, em inglês Gloomy Sunday, a famosa canção mais triste do mundo e conhecida por supostamente ter sido a responsável por mais de 100 suicídios. A decepção amorosa do compositor acontecera em 1933 e o deixara completamente depressivo, assim, como uma forma de desabafo, nasceu a conhecida “canção húngara do suicídio” e nela o compositor expôs toda a sua dor.

Segundo a história, Rezso Seress foi um compositor húngaro que falhou. Falhar também faz parte do processo de criação. Seress viveu a maior parte da sua vida em Budapeste e sonhava tornar-se um compositor famoso. Intransigente e convicto dos seus objetivos, brigava constantemente com a sua namorada. Ela não aguentou a insegurança de uma vida ambiciosa e os insucessos do compositor para conseguir se sobressair no mundo da música. Isso provocou o término da relação do casal fazendo com que, certo domingo, sentado ao piano, Rezso observasse a janela. O céu cobriu-se em tons de cinza e a tempestade revelou as notas do que viria a ser o seu “Domingo Sombrio”.

Após um longo período de rejeições da música, Seress finalmente conseguira que Gloomy Sunday fosse distribuída para as maiores cidades do mundo. E assim os acontecimentos estranhos e as manchetes nos jornais começaram a circular. Em Berlim, um jovem rapaz pediu à banda para tocar Domingo Sombrio, e depois que a música foi tocada o rapaz foi para casa e atirou na cabeça com um revólver após dizer aos familiares estava se sentindo muito depressivo pela melodia de uma música nova que não saía da sua cabeça. Uma semana depois, na mesma cidade, uma jovem assistente de loja foi encontrada enforcada no seu apartamento, a polícia que investigava encontrou uma nota no bolso da jovem que continha uma música em cima da cama, a letra era de Domingo Sombrio. Dois dias após essa tragédia, uma secretária em Nova Iorque publica uma nota após se suicidar na qual pedia que Domingo Sombrio fosse tocada no seu funeral. Semanas depois, um homem nova iorquino de 82 anos pula do seu apartamento no 7° andar após tocar a famosa música no piano. Todas mortes associadas a música de Seress.

Gloomy Sunday conta a história de um homem que declara que a única prova de ser devoto ao seu amor – que recusa a acreditar nos seus sentimentos – era abreviando a sua vida em um domingo sombrio. Nada poderia prever que, dias depois, surgiria uma sucessão de suicídios com o ressoar da melodia. Seress, numa tentativa de pedido de reconciliação à sua ex companheira, acaba descobrindo que a mesma havia se envenenado, carregando consigo uma cópia de Gloomy Sunday. Questionado pelos efeitos da sua música, o músico respondeu na época:

“Estou no meio deste sucesso mortífero como um homem sendo acusado. Esta fama fatal magoa-me. Chorei todas as decepções do meu coração nesta canção e parece que outros, com o mesmo sentimento que eu, encontraram nela a sua própria dor”.

Segundo o New York Times (1968), pouco depois de completar os seus sessenta e nove anos Seress comete suicídio, saltando de uma janela. Ele sobrevive, porém horas mais tarde é encontrado no hospital enforcado com uma corda. A influência da música no aumento do número de suicídios fez com que a sua transmissão fosse proibida pelos chefes da BBC. Nos Estados Unidos, algumas estações de rádio e discotecas adotaram o mesmo boicote. A censura começou a despertar ainda mais interesse pela música e, em 1936, ela foi traduzida e gravada em inglês. Nos Estados Unidos, a canção esteve no ápice em 1941, sob a interpretação da cantora Billie Holliday. Seria a música do compositor a verdadeira causa da tragédia de seus ouvintes ou teria o efeito da arte sido transformado em um gatilho para o suicídio?

I’ve tried so hard and got so far but in the end it doesn’t even matter. ( In The End, Linkin Park)

Em julho deste ano, o cantor de 41 anos Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, foi encontrado morto em sua casa próximo a Los Angeles, no estado da Califórnia, oeste dos Estados Unidos. A notícia foi um baque tremendo para os fãs do mundo inteiro, amigos e familiares do artista, que era considerado uma das vozes mais potentes e emocionantes do rock. Segundo a polícia, Chester cometera suicídio, tendo se enforcado sozinho. A morte do cantor gerou grande comoção nas redes sociais e, mais uma vez, deu voz ao suicídio.

Também volta a ser assunto o caso real de um adolescente brasileiro talentoso e introspectivo. Vinicius Gageiro Marques (1990-2006), conhecido como Yoñlu, que recebeu ajuda de uma comunidade virtual para se matar com monóxido de caborno, em Porto Alegre, aos 16 anos. Yoñlu deixou um álbum de músicas, gravado em casa, que é cultuado por muitos jovens. Na época, houve uma grande discussão sobre suicídio no Brasil, e até hoje o cantor é muito lembrado. Sua história vai virar filme, com direção de Hique Montanari e com o ator Thalles Cabral no papel de Yoñlu e tem estreia prevista para 2018 nos cinemas. Você pode conferir o trailer abaixo:  

Na literatura

“Se alguém pudesse me salvar, esse alguém teria sido você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade. Não posso continuar estragando a sua vida. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.” (trecho da carta que Virginia Woolf deixou ao marido antes de cometer suicídio) 

Ao falar de suicídio e literatura, quem não o relaciona diretamente aos clássicos Os sofrimentos do jovem Werther, do alemão Goethe, ou Romeu e Julieta, de Shakespeare, mesmo sem ter lido os romances? O suicídio é um ato complexo que tem atraído a atenção de escritores, teólogos, sociólogos e artistas através dos séculos. Como um fator presente na sociedade, estudá-lo se faz necessário. Por isso, o ato de dar um fim a própria vida também é tema na literatura, que, como a arte da palavra, expressa os sentimentos humanos.

Carta de suicídio de Virginia Woolf ao marido

 

Não é à toa que os suicidas quase sempre deixam algo escrito, seja um bilhete, uma carta, uma página de diário ou recados em sites de relacionamento na internet, explicando os motivos que o levaram a tomar aquela decisão ou pedindo perdão aos que deixaram para trás. Alguns escritores, inclusive, optaram por esse ato extremo. Como foi o caso da escritora britânica Virginia Woolf, que em 28 de março de 1941, aos 57 anos, vestiu um casaco, encheu os bolsos de pedras e afogou-se deliberadamente no rio Ouse, em Sussex, no Reino Unido. Antes do ato suicida final, após um colapso nervoso, a escritora deixou uma breve carta para seu marido Leonard.

O suicídio e a palavra andam juntos, tanto como desabafo, quanto como uma reflexão. O senso comum diz que o suicídio é quase sempre uma atitude de quem está desesperado, independente de quais sejam os motivos. No entanto, existem respostas para o ato, que envolvem explicações relacionadas ao conhecimento. A filosofia, por exemplo, tem em Albert Camus um estudioso do tema. Na abertura do ensaio que abre o livro “O mito de Sísifo”, ele afirma:

“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”. (2004, p. 17)

Muitos clássicos literários abordaram o tema, como Anna Karenina, de Tolstói, e o aclamado livro de Jeffrey Eugenides: As virgens suicidas. O livro mais emblemático talvez seja Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. Um pequeno livro, escrito em apenas quatro semanas pelo alemão Wolfgang Johann von Goethe. Um romance contado através de cartas escritas pelo protagonista, que é apaixonado por uma mulher. E ao não ser correspondido, decide acabar com a própria vida. O destino do protagonista provocou uma onda de suicídios na Europa do século XVIII, acontecimento que ficou mundialmente conhecido como “Efeito Werther” e que é até os dias atuais, uma das associações mais antigas conhecidas entre literatura e suicídio. Essa sucessão de suicídios, ocorreu na época do romantismo, quando, segundo A. Alvarez:

“O suicídio se tornou um ato literário, um gesto histérico de solidariedade, para com qualquer herói ficcional que fosse a coqueluche do momento”. (Dapieve, 2007, p. 15).

 

Se a literatura pode responder qual o sentido da vida, não sabemos. Também não encontramos respostas para o suicídio nas obras que tratam do tema. Em O sentido de um fim, de Julian Barnes, até é apresentado uma justificativa dada pelo próprio. Adrian se mata ainda jovem, com 20 e poucos anos, num período em que se definia como muito feliz. Ele era um gênio nos estudos e na observação do comportamento humano. Na escola era o amigo inteligente quieto e recluso, mas de um jeito descolado que inspirava admiração em seus colegas, e não aversão. Sua despedida da vida foi friamente pensada. Era sua hora de morrer, apenas isso. A sua alternativa para uma vida que já tomava por completa e não tinha mais nada a lhe oferecer. Mesmo com tanta autoconsciência de sua morte, nem leitor nem protagonista entendiam exatamente como uma pessoa com tantos recursos e nenhum problema aparente escolheu morrer.

Outra personagem que se encaixa nessa descrição de “jovem gênio sem confiança em uma vida futura” é Esther Greenwood, protagonista de The Bell Jar, ou A Redoma de Vidro, único romance escrito pela poeta Sylvia Plath – ela mesma uma suicida, após ser abandonada pelo marido sozinha em um outro país com seus dois filhos pequenos. Diferentemente de Adrian, a tentativa de suicídio de Esther é frustrada. E diferente também de outros livros, no romance de Plath lançado em 1963 – ano de sua morte – podemos acompanhar todo o declínio psicológico da personagem, ver tudo aquilo que a desestimulava e a obrigava a se auto sabotar – Esther era uma garota prodígio, com uma bolsa na faculdade, textos publicados e premiados, um intelecto à frente das garotas da época, uma versão fictícia da própria Plath. Esther podia conseguir tudo o que quisesse, escrever para grandes revistas, ser publicada, receber mais prêmios e reconhecimento, desenvolver um trabalho brilhante na faculdade, porém, por algum motivo, vai aos poucos perdendo o interesse por tudo isso e a confiança em si mesma até optar por um destino sem volta.

E o que causa essa perda do ânimo de seguir a rotina, de se esforçar no trabalho, que leva uma pessoa a destruir tudo o que conseguiu construir com seu próprio talento?

Também é o caso de As Virgens Suicidas, famoso livro de Jeffrey Eugenides, que conta a história de cinco irmãs que tiram a própria vida num intervalo de quase um ano. Começa pela mais nova, Cecilia, que conseguiu alcançar a morte na segunda tentativa, se jogando da janela do quarto na cerca pontiaguda que envolvia sua casa. Termina com Mary, ingerindo remédios até a overdose na casa já desprovida de vida. O romance é narrado por um grupo de vizinhos que se maravilhavam com as irmãs Lisbon, que anos após as mortes das jovens, reúnem um dossiê sobre suas vidas tão curtas: elas possuíam pais rígidos, e após o primeiro suicídio, o confinamento das meninas no pequeno espaço da casa é ainda mais intenso.

É possível imaginar um ambiente opressivo moralmente, em que, enquanto todos os adolescentes começam a experimentar a vida, as meninas são privadas dessa experiência. Mas o mistério maior, para mim, está no que Cecilia diz ao médico que lhe atende após a primeira tentativa, em que cortou os pulsos na banheira, quando este diz que ela ainda tem muito a viver e aprender da vida: “Você nunca foi uma menina de 13 anos”

A atualidade e os perigos de sofrer em silêncio

 

Ao longo desse texto abordei uma série de manifestações do suicídio na literatura, no campo do audiovisual, na música. Trouxe também alguns casos reais de pessoas com notoriedade que optaram por um caminho sem volta. Alguns poderão questionar sobre trazer à tona casos já conhecidos, enquanto milhões de pessoas estão sofrendo por aí todos os dias e, em muitos vezes, escolhendo o suicídio como solução. Este, para mim, é o ponto de vista dos que ficam, dos que sofrem, dos que sentem a perda daqueles que não aguentaram o fardo de viver. Levanta questões de todos aqueles que não aceitam o suicídio – ou acreditam que exista outro caminho, outra opção.

Falar de morte já é muito difícil. Ainda mais falar da morte, escolhida por algumas pessoas, como alternativa à vida. O suicídio está presente em toda a história humana e ainda assim é um assunto obscuro, coberto por um véu pesado. Quase sempre reservado ao silêncio do tabu e da perplexidade. Gera julgamentos, demonstra nossa impotência e provoca um sofrimento que não se dissipa e muitas vezes é injustificável aos nossos olhos.

É o ato definitivo de uma vida cujo sofrimento se tornou insuportável, intolerável. É querer morrer para fazer a dor de viver parar. Obscurecer uma situação porque ela é pesada ou difícil não faz dela menos real ou presente. Ao contrário, atrapalha a possibilidade concreta de fazermos algo a respeito. Pensamentos suicidas não são tão raros quanto se pensa e podem ocorrer em qualquer pessoa, especialmente em momentos de desespero profundo, nos quais não enxerga a saída. O que diferencia o pensamento da ação é a possibilidade de se aliviar ou amenizar o sofrimento. E é este o momento que mais convoca nossa empatia, pois nem todas as pessoas têm, naquela ocasião, as ferramentas emocionais necessárias para vislumbrar uma saída que não seja a morte. É por isso que a intervenção de outra pessoa e o enfrentamento aberto do problema são tão importantes.

Eu já tive amigos que pensaram no suicídio como uma forma de fuga e alguns tentaram. Ao lembrar de todos eles, é quase inevitável uma pergunta não passar pela minha mente: “Será que eles superaram todas as dores do passado?”. Sempre fui do tipo de pessoa que acredita que cada um carrega aquilo que pode suportar. Não porque Deus lhe dá apenas o peso que você suporta, mas pelo simples fato de que, se não suportasse, não estaria aqui ainda. O que eu nunca soube é que sempre há um vazio em todos nós que jamais será preenchido, mas que foi escondido pelas pessoas ao meu redor.

Eles sabem que a vida não é fácil para ninguém. Eles entendem que tem pessoas com mais motivos para chorar do que eles, ainda assim não conseguem suportar. Se sentem mal, cansados, tristes. Tudo é um eterno tédio. Choram sozinhos e muitas vezes não conseguem pedir ajuda ou quando pedem não são totalmente compreendidos como deveriam.

Felizmente sou uma pessoa que percebe e pude intervir, mesmo que pouco, na vida deles. Fui uma pessoa que lhes sacudiu, embora hoje nem nos vejamos mais. Mas hoje sigo pensando se estão bem, se estão felizes, se conseguiram superar todos os motivos que os levaram a ter tal pensamento.

Suicídio, para mim, é um assassinato com vários culpados. Como nós, que estamos o tempo todo com eles, não percebemos o abismo que está se formando ao seu redor? Por que não conseguimos fazer mais? Por que nos conformamos com seus “tudo bem” se está claro que não vai nada bem? Porque ficamos com medo de saber a verdade. E somos críticos também. Consideramos que os motivos deles não são bons o suficiente, mas, parando para pensar, quando serão? No nosso ponto de vista, nunca serão.

Sou conhecida por me esquecer de mim e me preocupar muito com os outros. Dizem que sou bem resolvida comigo mesma e que sei lidar com todos os meus problemas. Mas a verdade é que não estou pronta para abrir mão das minhas próprias batalhas diárias e tomo a batalha dos outros como se fosse minha a fim de que eles também não estejam prontos, não precisem suportar a dor. Uma dor que muitas vezes pode ser insuportável demais para carregar.

Há três anos, o mês de setembro ganhou tons de amarelo para marcar a Campanha Internacional de Combate ao Suicídio e Valorização da Vida. O movimento “Setembro Amarelo” acontece no mundo todo e a data que marca a campanha é 10 de setembro, o Dia Mundial de Combate ao Suicídio. No Brasil, a iniciativa é da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e tem o objetivo de, ao longo de todo o mês, promover várias ações de sensibilização da sociedade para acabar com o preconceito e propor políticas e programas de prevenção ao suicídio.

Dados do CVV (Centro de Valorização da Vida) afirmam que a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo. Trazendo para nossa realidade, somente no Brasil, 32 pessoas cometem suicídio por dia, ou seja, mais de uma pessoa por hora, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A campanha destaca como é muito importante deixar de lado o medo e conversar sobre este tema, pois as pessoas precisam conhecê-lo para poderem ajudar. É com esse pensamento que empresas, instituições, secretarias e diversos profissionais debatem o suicídio durante todo o mês de setembro.

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias. Você pode obter mais informações no site: http://www.cvv.org.br/

Falar de suicídio não é só doloroso pelos efeitos que o ato provoca, mas também por expor nossa impotência diante de situações que muitas vezes escondem os pedidos de ajuda. Se o assunto é difícil por nos lembrar da morte, podemos então falar de vida: a vida que é vivida, sem rodeios, e o que fazer para ajudar a torná-la suportável e digna do desejo de viver.

Referências: Jornal O Tempo – Precisamos Falar Sobre Suicídio http://www.otempo.com.br/hotsites/precisamos-falar-sobre-suic%C3%ADdio

Tabu, suicídio é tema fértil de séries, livros e músicas http://www.atribuna.com.br/noticias/noticias-detalhe/cultura/tabu-suicidio-e-tema-fertil-de-series-livros-e-musicas/?cHash=255670098e69308e956d772fb47f0113

A maldição goethiana: a maior onda de suicídios em massa da história da literatura http://homoliteratus.com/maldicao-goethiana-jovem-werther-suicidio-na-literatura/

Setembro Amarelo: cinco livros que falam abertamente de suicídio e de depressão http://blog.estantevirtual.com.br/2016/09/23/setembro-amarelo-cinco-livros-que-falam-abertamente-de-suicidio-e-depressao/

 http://www.setembroamarelo.org.br/

 http://www.cvv.org.br/

 

 

 

 

 

 

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Emanuelle Lopes

Emanuelle Lopes

21 anos, estou sempre com fome, apaixonada por música, livros e séries, mesmo não tendo todo o tempo que gostaria para se dedicar a esses dois últimos. Amo escrever. Alguns gostam do que escrevo, apesar de achar tudo que produzo irrelevante para a sociedade. Estudante do 7º período de jornalismo.
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