O que restou de mim: a xenofobia em um mundo distópico

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Duas almas em um corpo só. É assim que todo ser humano nasce no mundo distópico criado pela autora Kat Zhang. Lançado em 2014, O que restou de mim segue a vida de Addie e Eva, a alma dominante e a alma recessiva de uma garota de 14 anos. Supostamente, Eva deveria deixar de existir até o final da infância, mas por algum motivo isso nunca aconteceu e agora as duas vivem por esconder esse segredo. Addie tem total controle do corpo e o reconhecimento das pessoas ao seu redor, enquanto Eva se limita a ser apenas uma voz dentro da consciência da irmã. Nessa realidade, pessoas com esse perfil são chamadas de híbridas, elas sofrem constante perseguição do governo e, muitas vezes, correm sérios riscos de morte.

Apesar de, atualmente, a fórmula da distopia já aparentar sinais de esgotamento e rejeição por uma parte do público, o livro traz consigo uma história curiosa e intrigante que por si só faz valer a pena a leitura. O que a diferencia de outras narrativas do gênero é a importância no dilema pessoal das duas almas presentes na protagonista. Pela narração feita em primeira pessoa por Eva, a alma recessiva, é possível acompanhar como ela encara o mundo aos olhares de uma simples espectadora sem controle de suas ações e em constante conflito com sua irmã. No entanto, o laço fraterno entre as duas é muito forte e bonito e faz com que uma não consiga pensar em sua existência sem a outra. Sendo assim, o leitor consegue entender a dinâmica de convivência entre as duas seja na tomada de decisões ou no modo de como elas se comportam perante a família, os amigos e a escola.

O que restou de mim é o primeiro livro da trilogia Crônicas Híbridas.  Fonte: Every Little Book

Uma das explicações da trama para justificar toda a perseguição aos híbridos se baseia na culpa pelos desastres que aconteceram no mundo, e que culminaram em uma grande guerra ser dada graças a instabilidade e o comportamento destrutivo das pessoas com duas almas. Após a guerra, os híbridos foram perseguidos e eliminados das Américas e desde então a verificação e o controle de quem de alguma forma aparentava tendências ao hibridismo ficaram cada vez mais rigorosas. Com isso, todos os estrangeiros e todos que possuíam descendência diferente do povo que pertenciam eram sempre as principais suspeitas, e eram frequentemente tratados com indiferença e vistos como uma ameaça iminente. As próprias protagonistas, de início, são relutantes ao se relacionarem com dois personagens nesse perfil e temem que a associação com eles ameace a descoberta do segredo que elas guardam.

Desse modo, o livro toca em um ponto importante das relações humanas e em uma das piores problemáticas da sociedade: a xenofobia. O termo é a junção de duas palavras gregas, xenos (estrangeiro) e phobos (medo). Ou seja, é ódio, receio, hostilidade e rejeição aos estrangeiros.

“A xenofobia é uma ideologia que consiste na rejeição das identidades culturais que são diferentes da própria.” (De la Garza, 2011)

Sua atuação em O que restou de mim é apenas um exemplo de muitas outras manifestações que ocorrem durante toda a história da humanidade. Desde a origem das grandes civilizações podem ser encontrados vestígios de um comportamento avesso aos estrangeiros. Além da cidadania e dos direitos políticos que lhes eram negados, os estrangeiros sempre despertaram um sentimento de repúdio e ameaça em diversos povos antigosNa sociedade grega espartana, por exemplo, a expulsão e a proibição de estrangeiros em sua cidade-estado (xenelasia) eram frequentes.

Agora, colando essa questão em um cenário atual, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem tomado decisões e proposto medidas controversas em relação à imigração ao país. Os “dreamers”, imigrantes que abandam o seu país de origem para tentar a vida na América, muitas vezes ilegalmente, têm sido atacados diretamente por Trump. Dentre as medidas propostas pelo presidente estão a construção de um “muro impenetrável” na fronteira com o México e o reforço de leis anti-imigratórias que, até então, já proíbe a entrada de pessoas de alguns países em sua grande maioria muçulmana e, mais recentemente, da Venezuela e Coreia do Norte – além de dificultar a concessão de vistos permanentes para os imigrantes que já habitam o país. Decisões como essas, querendo ou não, estimulam a propagação de ideias e discursos preconceituosos como “todo muçulmano é terrorista”, e ameaçam o bem estar dos estrangeiros e dos seus descendentes que vivem no país.

A partir da xenofobia se desenvolvem os mais diversos tipos de discriminação que se baseiam nos preconceitos raciais, religiosos e culturais, para motivar o ódio e aversão ao diferente. Em agosto deste ano, Charlottesville, uma cidade do estado de Virginia, nos Estados Unidos foi o ponto de encontro de uma marcha promovida por supremacistas brancos que protestavam contra a retirada de uma estátua do general confederado Robert G. Lee. O protesto contava com a participação de grupos neonazistas e outros ligados com a KKK (Ku Klux Klan) que reproduziam dizeres contra negros, homossexuais, imigrantes e judeus e que também visavam a união da extrema direita dos EUA.

Marcha em Charlottesville, Agosto 2017. Fonte: DCM

“Como grande parte dos medos humanos, das fobias humanas, ela nasce da insegurança do próprio ser, do desamparo dos homens diante da possibilidade constante da mudança do seu ser próprio, da possibilidade de que algo ou alguém faça com que se deixe de ser ou o que se pensa ser.” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M, 2016)

Atitudes como essas demonstram como a xenofobia é um dos principais problemas da atualidade. Cada dia mais e em todos os cantos do mundo é recorrente as manifestações de ódio contra raça, sexualidade, religião, entre outros. É um problema da humanidade em si, ninguém está livre de presenciar ou vivenciar situações desse tipo. Tanto em livro de ficção quanto na vida real a não aceitação do diferente, a intolerância, o preconceito sempre se fazem presentes. As sociedades distópicas estão cada vez mais semelhantes à nossa realidade, e seja em uma sociedade inventada ou não, as diferenças de raça, religião, cultura, sexualidade nunca devem ser julgadas e usadas como a causa dos problemas, mas sim valorizadas pela diversidade que nos faz únicos. O ser humano ainda tem muito a evoluir.

 

Referências:

De la Garza, C. 2011. Xenofobia. Laboreal,7, (2),86-89.

ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M. . Xenofobia: medo e rejeição ao estrangeiro. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2016. v. 3.000. 192p .

 

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Pedro Vinícius

Pedro Vinícius

Mais de 2 meses, 28 dias assistindo a seriados incríveis (e contando). Desde criança quis ser jornalista mesmo nem sabendo o que a profissão fazia. Sonha em ter a autoestima da Susana Vieira e com algum ônibus que vá pra UFAM vazio.
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