Reflexões em uma conversa sobre sexualidade e identidade: Parte 2 – A estrutura social da comunidade gay e como ela afeta as relações de empatia e identidade.

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Como homem cis gay, afeminado, negro, de classe média conseguir fazer uma análise profunda a respeito da estrutura social gay seria bem complicado. Se permitir viver no mundo gay em situações tão distintas e estudar isso ajuda a você compreender como existe um sistema bem intricado que envolve a vida social entre os homens homossexuais. Vivemos num mundo paralelo ao mundo heteronormativo ao mesmo tempo em que alguns tentam se conectar a isso desesperadamente em busca de aceitação e inclusão perante a sociedade. Essa briga de regras acaba gerando um debate raso na comunidade gay que acaba perdendo o foco em unir e gerar empatia entre nós mesmos.

A DEFINIÇÃO CRIADA DA SEXUALIDADE NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE

BATALLO – SAGRADO DE TEBAS – A ARTE GREGA JÁ FAZIA REFERÊNCIA DA SEXUALIDADE ENTRE HOMENS.

Freud cria o primeiro pensamento que desvincula a sexualidade desse lugar natural e a coloca num lugar de criação cultural, firmando a posição de que sexualidade é algo escapável de uma regra e/ou norma social. Desse modo, o fluxo da psicanálise para a sexualidade descontrói todo discurso social do sexualmente normal, oficial e natural. Freud também cria o conceito de que esse fluxo da manifestação da sexualidade é como se fosse uma “pulsão” natural a todo indivíduo humano. Foucault consegue corroborar com a visão freudiana ao constatar que os conceitos de masculinidade e feminilidade foram criados através de representações socialmente/culturalmente construídas.

Para Ceccarelli, é importante ressaltar que o conceito de heteronormatividade é baseado na ideia de uma cultura ocidental, essencialmente judaico-cristã, que a convencionou como uma “sexualidade natural” que se disseminou no imaginário coletivo e as práticas sociais. Ceccarelli continua no seu pensamento dizendo que a sexualidade “normal” não passa de um construto social e ideológico. O discurso e as práticas sexuais da sexualidade “natural” são baseados em um continuum heterossexualidade-monogamia-patriarcalismo. Em seguida, ele conclui que a homossexualidade é outra invenção social da cultura ocidental. Ambas a heteronormatividade e a homossexualidade para Ceccarelli são o conceito-lugar seguro para a afirmação identitária dos sujeitos. Chegamos então ao ponto de que existem duas definições principais socialmente construídas dos homens homossexuais: o heteronormativo e o homonormativo.

O GAY HETERONORMATIVO E O HOMONORMATIVO EM SOCIEDADE

O PERFIL FÍSICO TÍPICO DO GAY HETERONORMATIVO.

O gay heteronormativo é aquele indivíduo que segue o status quo de comportamento masculino definido pela sociedade. O homem que tenta representar o modelo de masculinidade feito por homens heterossexuais. O gay homonormativo é aquele que goza plenamente das possibilidades de comportamento na cultura LGBT no mundo capitalista e vive a possibilidade da feminilidade na sua vida, mas se delimita somente a isso. É extremamente associado a cultura de consumo na sociedade LGBT. Lisa Duggan (2002, p.179) descreve o que seria essa homonormatividade no seu livro “The New Homonormtiv: the sexual politics of neoliberalismo”:

“(…) uma política que não contesta os pressupostos heteronormativos dominantes nem instituições mas os sustenta e apóia enquanto promete a possibilidade de um eleitorado gay desmobilizado e privatizado, uma cultura gay despolitizada, ancorada em domesticidade e consumo.”

Com o passar do tempo ficou cada vez mais complicado evitar ser rotulado por um dos dois, apesar de muitos não fazerem parte de nenhum deles. A cultura gay é difundida no inconsciente popular através dos estilos musicais, das gírias, dos artistas que movem multidões da comunidade e regras sociais fechadas em guetos que andam em grupo. Você agora vê em filmes, músicas e programas de TV. Existe um conjunto bem elaborado de comportamentos que fazem parte da cultura gay. Para os homonormativos a cultura gay é quase uma religião, se você não a acompanha é rejeitado e até mesmo isolado. Como um público ávido consumidor de tudo que envolve seus produtos e artistas favoritos, eles acabam sendo uma vertente que só consegue a emancipação através do consumo e do poder aquisitivo. Enquanto as atitudes sociais e políticas frente gays e lésbicas se tornaram mais tolerantes, proliferou-se a presença de pessoas gays na mídia hegemônica e um número crescente de grandes corporações lançaram no mercado produtos e serviços dirigidos aos consumidores desse grupo. Os próprios gays afeminados vivem numa situação de que para poderem se sociabilizar com outros homossexuais tem que adotar esse comportamento como uma lei.

A heteronormatividade tem apresentado um problema bem complicado da posição privilegiada desses gays.  A maioria deles se abstém de fazer parte da comunidade e sentem como se não fossem parte dela, como se não fossem atingidos por decisões preconceituosas da sociedade.  Muitos diminuem a feminilidade e tudo que corresponde a isso como reflexo do machismo que existe na sociedade masculina heterossexual, além de endeusarem homens que seguem o mesmo padrão de masculinidade. A homonormatividade faz o oposto e o mesmo dos heteronormativos na mesma moeda. E de forma ainda mais complexa enfraquece o discurso de inclusão, tentando projetar um discurso machista para ganhar espaço e inclusão no modo de vida heteronormativo para não ter uma vida sem relações. Você nota logo que os dois lados têm seus problemas e que afetam qualquer um que fugir dos dois estereótipos. Essas duas estruturas construídas socialmente se estratificam e ao mesmo tempo se intensificam dependendo da condição social desse indivíduo na sociedade.

PADRÕES FÍSICOS PARA A SEXUALIDADE GAY

O PERFIL DO HOMEM BEAR REPRESENTA UM PADRÃO FETICHE QUE REFORÇA A IDEIA DE MASCULINIDADE ALFA.

Quando você compreende a estrutura social dos gays entramos na questão de preterimento (pessoas que buscam a solidão e a reclusão a viver um relacionamento amoroso), afinal se você tiver algo que fuja desse esquema social, pode ser lhe negado a possibilidade de ser amado, formar uma relação amorosa e tentar viver uma vida mais sociável.  O gay afeminado facilmente é preterido, e isso se amplia quando ele foge de um padrão de beleza seguido pela mídia ou pelo inconsciente coletivo. Se você é magro, com corpo atlético, com barba, branco e masculino, as chances de você ser preterido pelos gays são baixas. Quando cada um desses elementos vai caindo um por um, as chances de você ser preterido para relações sexuais e amorosas acabam aumentando drasticamente.

Obviamente, essas regras são facilmente quebradas hoje. Os gays encontraram outras formas de não aprisionarem o comportamento sexual gay (afinal nem todo mundo tem o padrão de beleza universal), mas a criarem sub-padrões de beleza para facilitar a aceitação para as relações.  Existe um padrão de homem idealizado como “perfeito”, mas existem também os “padrões-fetiche”. Esse termo que busco aqui tem como intenção a de sintetizar bem a forma que tipos de padrões de beleza e fetichizações criadas exclusivamente para as relações sexuais e como elas  se fundiram no inconsciente gay.  São as formas como os homens gays se dividiram para que todos conseguissem ter sexo de forma fácil e mais prática. Existem os bears, os chubbys, os twinks, os muscles, os nerds, os hippies, os blacks, os asiáticos e muitos outros tipos físicos de homens homossexuais que criados para diferenciar o seu tipo de corpo para o sexo. A primeira coisa que você deve notar é que o meio gay é extremamente sexual e carnal, e logo se descobre que é bem superficial. O homem é sempre visto como um voyeur natural, pois ele sente mais excitação sexual vendo algo ao contrário da mulher que sente o mesmo, mas com o toque no seu corpo. Logicamente, esse conceito é atribuído ao homem gay facilmente, pois ele não escapa dessa sua natureza sexual ligada ao seu corpo biológico.

UMA CONCLUSÃO EXTREMAMENTE DESANIMADORA

A ETERNA LUTA PELA IGUALDADE E INCLUSÃO SOCIAL NA COMUNIDADE LGBTQI+.

A partir dessas regras sociais absorvidas culturalmente de divisão do comportamento, do corpo e do sexo que aconteceu a segregação da própria comunidade, potencializadas pelas conquistas sociais do grupo que hoje é usufruída pela maioria, mas que ainda não chegou em indivíduos marginalizados da comunidade. Chegou-se no consenso de que com a maioria dos direitos adquiridos, cada um iria poder viver sua vida da forma que quisesse. Mas esqueceram de que acabamos criando preconceito dentro de nós mesmos criando a negação do outro como indivíduo dentro da comunidade LGBTQI + e fora dela. A falta de empatia criada pela perpetuação de dois padrões de homens gays levou a uma estagnação no diálogo com a sociedade sobre como tratar as manifestações de sexualidade no homem.

A pulsão sexual na vida do ser humano descrita por Freud acabou se limitando a dogmas e regras sociais construídas para tentar definir a vida sexual em sociedade.  Fica ainda mais complicado quando os homens gays diminuem a forma de vida queer, pois foi ela que trouxe uma ampla visão do que é ser um indivíduo sexual sem seguir regras sociais, superando os dois padrões.  Algumas vertentes mais radicais que negam a existência total do que é masculino e feminino construído socialmente, e outras que absorvem o conceito de como variações de manifestação sexual podem surgir em graduações de níveis ainda assustam e causam confusão porque elas atingem não só a visão de sexualidade “normal” descrita por Ceccarelli e Freud, mas também a visão narcísica da homonormatividade.

Essa forma limitada da manifestação da sexualidade acaba fechando o individuo num recorte social e negando qualquer coisa que fuja do estereotipo que ele vigorosamente segue. Assim acaba-se criando um ambiente hostil para qualquer manifestação individual da sua própria sexualidade e identidade. Nessa disputa extremamente desnecessária, o discurso de inclusão criado pela própria comunidade vai aos poucos sucumbindo para o completo fracasso.

BIBLIOGRAFIA

CECCARELLI, Paulo. A invenção da homossexualidade. Bagoas: estudos gays, gêneros e sexualidades, Natal, n. 2, p. 71-93, 2008.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de S. Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1980b. v. 7.

DUGGAN, Lisa. The new homonormativity: the sexual politics of neoliberalism. In: CASTRONOVO, Russ; NELSON, Dana. Materialising Democracy: Towards a Revitalized Cultural Politics. Durham, NC: Duke University Press, 2002, p. 175 – 194.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. 6. ed. Rio de Janeiro:

Graal, 1985.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro:

Graal, 1984.

 

 

 

 

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Matheus Mota

Matheus Mota

22 anos, trabalho como realizador audiovisual louco e voraz por música, cinema e séries de TV. Escrever é a minha vida, desenhar é um hobby, cantar é uma alegria e dançar é a uma diversão. Arte me inspira e me edifica todos os dias. Estudante de 4º período de jornalismo.

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