A Vida Secreta das Abelhas e o significado de sororidade

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“As abelhas domésticas não só dependem do contato físico com a colônia como precisam da sua companhia social e apoio. Se uma abelha for isolada das irmãs, morre em pouco tempo”

Dentre os livros que mantêm seus significados subjetivos e aqueles que assumem suas pretensões de forma clara, A Vida Secreta das Abelhas, da autora Sue Monk Kidd, consegue ser a combinação perfeita de significados e significações. O livro tem como cenário os Estados Unidos na década de 60, conhecida pelo fim da segregação entre brancos e negros, retratando justamente essas questões e seus desmembramentos sociais.

Para dar visibilidade a este contexto surge a história de Lily Owens, uma menina branca de vive com seu pai carrasco e sua criada negra, Rosaleen, em uma fazenda de pêssegos. Encontrando-se em uma relação conturbada com o pai, Lily nunca soube ao certo como sua mãe morreu, duvidando das explicações de seu pai, e o confrontando regularmente. Tais indagações logo geram conflitos entre pai e filha, em que ao final, Rosaleen sempre aparece como uma conselheira ou ajudante.

“O que aconteceu?”, perguntou Rosaleen

“Eu fui ao pomar ontem à noite e T.Ray achou que eu estava lá com algum garoto”

“E estava?”

“Não”, respondi, revirando os olhos

“Quanto tempo ele te deixou ajoelhada nesses grãos?”

“Mais ou menos uma hora”

Ela olhou meus joelhos e parou de varrer. Estavam inchados, cobertos de vergões vermelhos.

“Olhe para você, menina. Olhe o que ele fez com você”, ela disse

Meus joelhos já tinham sido torturados assim tantas vezes que eu nem achava isso fora do comum; era apenas uma coisa que eu tinha de aguentar de tempos em tempos, como se fosse uma gripe qualquer. Mas de repente o olhar de Rosaleen me chamou atenção. Olhe o que ele fez com você.

Neste primeiro cenário apresentado estão duas mulheres em posições subjugadas que se ajudam mutuamente dentro dos limites impostos por seu contexto. Ou seja, atitudes de super-heroísmo não são o foco desta relação, mas sim a compreensão de suas posições e os limites impostos para cada uma.

Após anos da proibição do voto para negros, Rosaleen vai até a cidade com Lily para fazer seu registro de voto. Durante o percurso, as duas se deparam com parte da sociedade tradicional da época: um grupo de homens que hostiliza Rosaleen e a faz ser presa. Neste momento, Lily assume um protagonismo marcante, decidindo resgatar sua companheira da prisão e possível morte, e descobrir a verdade sobre sua mãe.

Ao mesmo tempo que Rosaleen não é uma obrigação da jovem Lily, esta encontra tal obrigatoriedade devido a relação presente entre as duas. Não uma relação necessariamente maternal – o que pode ser percebido devido a forma que se tratam -, mas uma relação de companheirismo e dever mútuo de proteção. Ambas as personagens se encontram acostumadas com suas realidades e o diálogo entre as duas as obriga a possuir um novo olhar sobre si mesmas.

Uma nova realidade

O percurso e as pistas limitadas levam a dupla até a cidade de Tiburon, especificamente para a fazenda produtora do Mel da Madona Negra, onde as duas se deparam com as irmãs Boatwright: August, May e June, três mulheres negras com seu próprio sustento e histórias. Este encontro mostra uma realidade a qual nem Lily nem Rosaleen esperavam ser possível, um lugar onde três mulheres negras possuem uma casa e a sustentam com sua fabricação de mel.

As três personagens possuem suas características e personalidades distintas e bem apresentadas. August, a irmã mais velha, aparece como a figura acolhedora e conselheira, partilhando diversos diálogos com Lily. June é a irmã mais temperamental, que logo desconfia da presença das novas visitantes e May, a irmã mais nova, é também a mais sensível e interessante das três.

May é apresentada como a irmã “especial”. Ela era gêmea com April e após a morte desta nunca mais conseguiu se relacionar com os outros da mesma forma. A maior característica de May é sua sensibilidade, o que a faz absorver as coisas ruins do mundo, as tristezas. Muitas atitudes tomadas por August e June estão diretamente relacionadas ao comportamento da terceira irmã e suas especificidades, criando um cenário de apoio e compreensão, que não deixa de fora os eventuais conflitos entre família.

“Eu não entendi uma coisa”

“O quê?”, perguntou August

“Se a sua cor favorita é azul por que pintou a casa de rosa?”

“Foi ideia da May. Ela estava comigo no dia em que eu fui à loja de tintas escolher a cor. Eu tinha na cabeça um tom castanho bonito, mas May gostou da amostra chamada Rosa Caribe. Disse que essa cor lhe dava vontade de dançar o flamenco espanhol. E eu pensei “Esse é o tom mais esquisito que já vi e toda cidade vai falar de nós, mas se levanta o espírito de May, acho que ela deve morar numa casa assim.”

Este cenário também é responsável por apresentar símbolos marcantes na jornada de Lily. O primeiro, a Madona Negra, é a representação da figura bíblica de Maria, uma representação com a pele negra. A Madona Negra ou Nossa Senhora das Correntes, é conhecida por este nome “não por usar correntes, mas por quebrar correntes”. Em sua história, ela aparece e fala com um escravo, logo se tornando venerada por outros escravos, a cada vez que alguém tentava se livrar dela, não conseguia, se tornando símbolo de resistência e libertação.

Outra simbologia, e a mais importante para o livro, é a presença das abelhas. Desde o início da narrativa, Lily possui uma relação íntima com as abelhas, como se estas apontassem para onde estariam suas respostas. Em cada início de capítulo, a autora traz uma passagem sobre as abelhas e sua dinâmica de convivência, trechos técnicos que se tornam facilmente relacionados ao capítulo e as relações entre suas personagens.

Sororidade

August, May, Rosaleen, June e Lily representadas no filme dirigido por Gina Prince Bythewood baseado no livro de Sue Monk Kidd. Fonte: A Vida Secreta das Abelhas, 2008.

O estilo de vida das Boatwright não se torna imune aos preconceitos da época. Em diversos momentos esse fator se faz presente, sempre relembrando o cenário e a realidade que suas personagens femininas se negam a ceder. Se sororidade é “união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum”, Sue Monk Kidd consegue realizar esse retrato em um livro despretensioso, onde o racismo, sororidade, preconceito e o papel feminino assumem protagonismo sem deixar recado.

Referências:

A vida secreta das abelhas (2008). Direção: Gina Prince Bythewood. EUA: Fox Searchlight Pictures. 110 min.

LONGGOOD, William. The Queen Must Die: And Other Affairs of Bees and Men. Norton Company, 1988.

MONK KIDD, Sue. A vida secreta das abelhas. 1ª ed. São Paulo: Paralela, 2014

https://www.significados.com.br/sororidade/

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Rebeca Almeida

Rebeca Almeida

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