Uma mulher, um livro e um disco: Madonna e o legado da Era Erotica

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Erotica, o quinto álbum de estúdio de Madonna completou 25 anos no dia 20 de outubro. Na época de seu lançamento, o disco causou uma enorme polêmica na mídia e no público consumidor de música pop. Isso ocorreu devido a vários fatores que aconteceram durante a época contemporânea de 1992: o lançamento do livro SEX que incluía fotos com teor erótico e pornográfico, no qual Madonna era protagonista; o lançamento do videoclipe da música Erotica e do filme “Corpo em Evidência”; o comportamento extremamente rebelde que Madonna assumia durante várias entrevistas na TV americana e a forma irônica como a artista tratava a imprensa e a opinião pública.

Estes acontecimentos geraram uma série de consequências negativas imediatas na carreira da cantora que passou por um grande processo de recomposição da sua imagem durante o restante da década de 90. A era Erotica apesar da sua péssima primeira impressão é, sem dúvida nenhuma, um dos maiores acontecimentos na história da música pop. Sua influência pode ser percebida em trabalho atuais de outros artistas como Beyoncé e o projeto Lemonade ou Lady Gaga e sua era ARTPOP. A era se define pela música e pela sua estética ousada, a qual atribuía um valor absurdo a obra no contexto geral.

MADONNA, SHEP PETTIBONE E OS OUTROS COLABORADORES DE MADONNA NO ESTÚDIO PRODUZINDO O EROTICA.

 

A MÚSICA DE EROTICA

Shep Pettibone (produtor de vários remixes na era Like A Prayer e uma das mentes por detrás do hit Vogue) foi o principal produtor de música neste momento, mas logo ficou claro como havia um grande cabo de guerra entre ele e Madonna na condução do álbum. Enquanto a cantora queria muito experimentalismo no álbum, impedindo que este se tornasse uma extensão de Vogue, Shep queria um álbum mais acessível para o grande público. Logicamente, nessa briga Madonna saiu vitoriosa, afinal o Erotica era um projeto dela, a mente dela conceituou em detalhes aquilo que iria surgir.

A música era feita com dance music, elementos de disco, jazz e de new jack swing, mas curiosamente o álbum trouxe influências do hip-hop, do trip-hop e da música eletrônica underground da época como o house e o techno, antes mesmo até do seu icônico Ray Of Light e o delicado Bedtime Stories.

A principal ideia de Madonna na gravação do álbum era que ele parecesse gravado de forma amadora, “como se tivesse sido feito num beco do Harlem” e que não parecesse um projeto caro e profissional. Isso refletia diretamente na qualidade das músicas que pareciam ter sido gravadas em lo-fi, gerando um forte estranhamento pelo público. O experimentalismo musical do álbum definia a genialidade de Madonna que queria desafiar os consumidores da musica pop.

MADONNA NA ÉPOCA QUE MORAVA E VIVIA NO MUNDO UNDERGROUND DE NOVA YORK CONVIVENDO COM OS GAYS DA CULTURA LGBT.

O álbum pode facilmente transportar seu ouvinte diretamente para uma boate underground LGBT no começo dos anos 90 em Nova York. Isso era parte do projeto porque Madonna se estabilizou como artista pop no meio dos grandes artistas da pop art e que também frequentavam essas boates. A era Erotica era vender o mundo underground para o público mainstream.

O álbum começa com a faixa-título que fala sobre poder e controle sobre outro através de insinuações sexuais. O agitado cover de Fever do Little Willie John que fala de submissão e desejo sexual. Bye Bye Baby que fala sobre ser iludida num relacionamento e se vingar do seu ex-amante. Deeper and Deeper fala sobre ter uma obsessão sexual por outra pessoa do mesmo sexo, muitos dizem que essa faixa fala sobre um jovem rapaz se aceitar como homossexual. Life Where Begins conta sobre ter a experiência de um “beijo diferente”, muitos atribuem a metáfora ao sexo oral e o beijo grego.

Bad Girl aborda uma garota que prefere ficar bêbada a terminar uma relação que a deixa atordoada. Waiting descreve um amor rejeitado e não requisitado por outra pessoa, enquanto Thief Of Hearts fala sobre sua rival pela atenção da pessoa que ela ama. A faixa Rain embala sua melodia com a questão de  querer e esperar pelo amor. Em Why’s It So Hard, Madonna implora por um pouco de solidariedade e amor ao próximo. In This Life é uma homenagem aos amigos que ela perdeu durante a epidemia de AIDS nos Estados Unidos. O disco encerra com The Secret Garden falando da vagina da artista de forma extremamente delicada e sensível.

MADONNA COM ROUPAS MASCULINAS E HOMENS COM ROUPAS FEMININAS. SEX PRESENTAVA A MUDANÇA NA POSIÇÃO DE GÊNERO NA SOCIEDADE.

O SEX BOOK

Quando finalmente chegamos a parte visual do álbum temos o segundo choque de realidade. Ela inicia com o livro SEX, sucesso de vendas na época que continua na lista de alguns dos livros mais solicitados e procurados pelo público no mundo inteiro. O conceito e a ideia do conteúdo do livro são de conhecimento geral. Mas o que as pessoas não compreenderam foi que por debaixo de todo aquele conteúdo gráfico extremamente explícito existe uma mensagem ainda mais profunda e impactante.

Madonna no começo da década de 90 criava sua própria empresa de entretenimento multimídia, a Maverick. O modelo de gestão dessa companhia era uma mistura da ética de trabalho do instituto de artes Bauhaus na Alemanha e da Factory de Andy Warhol que fica em Nova York para artistas e seus assistentes. A ideia principal desta criação era possuir um paraíso criativo para um conjunto de artistas que trabalhassem com Madonna. O primeiro resultado dessa companhia foi o livro Sex.

O livro revela várias imagens onde Madonna estrela várias fotos feitas pelo grande fotógrafo de moda Steven Meisel e o fantástico diretor de arte Fabien Baron. Essas imagens possuem conteúdo adulto e várias demonstrações de fantasias sexuais da artista. O livro também possuía a participação de várias celebridades da época como os atores Isabella Rossellini e Udo Kier, a modelo Naomi Campbell, os rappers Bid Daddy Kane e Vanilla Ice, a socialite Tatiana von Fürstenberg e o ator de pornô gay Joey Stefano.

HELMUT NEWTON FOI UM DOS PRINCIPAIS FOTÓGRAFOS QUE INFLUENCIARAM AS FOTOS DO SEX BOOK PELO SEU HOMOEROTISMO ELEGANTE.

Apesar de o trabalho parecer um “Vanity Project” (um trabalho de vaidade), Madonna colocou as melhores referências visuais de trabalhos dos artistas mais consagrados na imagem das décadas de 70 e 80. As fotos foram todas tiradas em formato Super 8 e deu um visual extremamente elegante e retrô para as fotografias. Elas foram inspiradas em trabalhos de iconoclastas da moda como o fotógrafo surrealista Guy Bourdin, Helmut Newton, o qual envolvia imagens eróticas e de sado-masoquismo em seus trabalhos e Robert Mapplethorpe, com sua estética marcante criada no portfólio XYZ.

Dentro do livro vemos uma mulher que domina e comanda seus parceiros sexuais, e, além disso, eles variam entre mulheres ou homens. Os textos escritos de Madonna com seu alter ego chamado Dita Parlo revelam ainda mais a natureza libertária da era. Dita fala numa lógica categórica: “Esse livro é sobre sexo. Sexo não é amor. Amor não é sexo. Mas pode-se criar o melhor dos dois mundos quando eles se juntam (…)”

MADONNA NO CLIPE DE RAIN, QUINTO SINGLE DO
EROTICA, DIRIGIDO PELO CINEASTA MARK ROMANEK GANHOU DOIS
VIDEO MUSIC AWARDS EM 1993.

O VIDEOCLIPES DA ERA EROTICA

Os videoclipes trazem ainda mais valor artístico para esse momento. São cinco videoclipes e uma performance ao vivo de Madonna no Video Music Awards em 1993 cantando Bye Bye Baby vestida de forma masculina no palco da premiação. O primeiro clipe é uma versão gravada dos ensaios realizados para o Sex Book dirigido pelo fotógrafo de moda Fabien Baron usando da mesma estética visual criada para o livro, se tornando um belo complemento ao trabalho visual feito para o projeto. O segundo videoclipe é o de Deeper and Deeper, dirigido pelo diretor de videoclipes e produtor de arte Bobby Woods, faz uma homenagem a estética visual dos filmes undergrounds da década 60 e 70 de Warhol e a estética visual dos filmes da década de 20 e 30 de Luchino Visconti.

O terceiro é o de Bad Girl que mostra uma mulher rica infeliz com a vida amorosa e tendo relações com vários amantes. Sempre acompanhada por um guarda celestial interpretado por Christopher Walken, ela comete suicídio não aguentando sua vida infeliz. O clipe é dirigido, pelo, na época, grande parceiro de videoclipes da Madonna, David Fincher que aceitou o projeto o transformando em um trabalho extremamente cinematográfico. O quarto videoclipe é o de Fever que foi dirigido pelo fotógrafo de moda Stephane Sednaoui que mostra Madonna em vários fundos caleidoscópicos e usando vários figurinos de Jean Paul Gaultier. O quinto é Rain que foi dirigido pelo grande diretor Mark Romanek, visualmente super futurista, o clipe mostra Madonna nos bastidores de um clipe feito por uma equipe asiática. Talvez o videoclipe mais caro da era Erotica e o mais complexo, já que sua coloração total foi realizada manualmente.

MADONNA SUPLICANDO POR ATENÇÃO DE SEU
AMANTE ENQUANTO ELE A IGNORA.

A LÓGICA AMOROSA E SEXUAL DE MADONNA

Muita gente associa a era Erotica a um puro capricho sexual cheio de concepções libidinosas de uma mulher rica e favorecida que apenas queria chocar a sociedade para se autopromover. Mas as letras do álbum e o visual da era falam justamente o contrário. Elas falam sobre as frustrações, sobre as perdas que podem ocorrer nas nossas vidas e como elas nos afetam diretamente.

Erotica não fala sobre o sexo como algo apenas fetichista como a sua imagem pressupõe, ele fala do sexo como elemento para saciar nossos desejos frustrados e inalcançáveis. Ele é uma metáfora de uma sociedade que ainda não compreendeu que o sexo serve para o amor e para o prazer, e como ele consegue ser bom para ambas as questões. É Madonna criando uma obra onde a mulher assume o controle do seu corpo e onde a monogamia não é uma regra principal do mundo, mas onde também não nega a presença de amar o outro. Só que o amar o outro de Madonna aqui é amar ela mesma e amar quantas pessoas quiserem o seu amor de verdade.

Referências Bibliográficas

Holden, Stephen (April 20, 1992). “Madonna Makes a $60 Million Deal”The New York Times.

Pettibone, Shep“Erotica Diaries — Written by Shep Pettibone”. ShepPettibone.com. Archived from the original on May 18, 2012

Berger, Arion (November 26, 1992). “Erotica”Rolling Stone.

“Los diferentes rostros de Madonna”El Universal (in Spanish). April 16, 2013

 

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Matheus Mota

Matheus Mota

22 anos, trabalho como realizador audiovisual louco e voraz por música, cinema e séries de TV. Escrever é a minha vida, desenhar é um hobby, cantar é uma alegria e dançar é a uma diversão. Arte me inspira e me edifica todos os dias. Estudante de 4º período de jornalismo.

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